sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Memórias Inventadas de Manoel de Barros



1. MANOEL EM DETALHES


Manoel de Barros nasceu em Cuiabá - mas precisamente no Beco da Marinha - em 19 de dezembro de 1916. Quando tinha 2 meses de vida, seu pai foi convidado por um irmão, para vir povoar o Pantanal. O convite partiu do Barão de Vila Maria - Nheco Gomes da Silva -, e que segundo consta, é dele que vem o nome da região Nhecolândia, uma homenagem a quem primeiro veio fazer o povoamento da região. Esse tio de Manoel de Barros veio para trabalhar com esse Barão, medindo suas terras, uma vasta extensão, e o pagamento que ele recebeu foi em terras. Como não entendia nada de fazendas, chamou o pai de Manoel para abrir, cercar e formar a fazenda. Dessa maneira Manoel de Barros vem para Corumbá, e passa a morar no Pantanal mato-grossense.

Aprendeu a ler com seis anos pelo método da soletração e a contar e decorar a taboada cantando com uma tia. Os pais o mandam para Campo Grande para o colégio interno - o Colégio Municipal de Campo Grande, a primeira professora de Manoel de Barros foi Oliva Enciso. É mandado para o Rio de Janeiro para o Colégio Lafayette. Reprovou no terceiro ano colegial e mudou-se de escola por isso. Em 1934 presta vestibular para Direito, uma vez formado, viaja pela América do Sul: Bolívia, Peru, volta e trabalha com negócios de incorporação de apartamentos, ganha um dinheiro e viaja novamente: interior da Bolívia, do Peru, Equador; viaja até Miami, Nova Iorque, depois disso vai para a Europa: Portugal, Espanha, França e Itália. Quando o pai morre, herda a fazenda, pensa em vendê-la, mas acaba indo morar nela - fazenda Santa Cruz.

Seu primeiro livro é de 1937 - Poemas Concebidos sem Pecados, impresso artesanalmente na gráfica de um amigo. Face Imóvel, pela Editora Século XX, é de 1942 e Poesias de 1956, é da editora Pongetti, mas sua obra só passa a ser reconhecida pela crítica em 1960 quando ganha o prêmio Orlando Dantas. E de lá pra cá, publicou inúmeros livros, e teve toda sua obra re-editada diversas vezes, e continua produzindo ainda hoje: Memórias Inventadas: a terceira infância é de 2008. Manoel de Barros é considerado um poeta modernista, influenciado pelas várias estéticas que dominaram as artes no começo do século XX.

"Minha poesia é uma reflexão permanente. A palavra me atinge de tal modo, que a língua passa a inventar coisas. Nunca escrevi uma palavra que não tenha roçado no meu corpo. Minha poesia é marcada por um constante morrer e renascer. Essa permanente metamorfose está presente em toda a minha obra. Acho que é importante para o poeta reviçar as coisas" (In: SÁ, 1992, p. 59)

2. ESCRITA AUTOBIOGRÁFICA e PROSA POÉTICA

Memória Inventadas, o livro, trabalha elementos preponderantes na poética barreana, os a escrita autobiográfica e a prosa poética, que são uma tentativa de providenciar uma mudança formal entre as escritas que relatem o percurso de uma vida contada pelo protagonista dos fatos, sem contudo, confiná-las ao gueto da sub-literatura. Seria uma narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando atribui importância a sua vida individual, em particular sobre a história de sua personalidade.

Memórias Inventadas é prosa poética, pois assim “confirma a inclinação de Barros para a poesia, como se, através da obliquidade desta, fosse possível alargar as possibilidades do que é narrado, em detrimento da mera linearidade da prosa. Assim, da união das duas formas surge a expressividade máxima: a união do lírico com o narrativo, abrindo uma via mais larga para a expressividade se desenvolver” (LINHARES, 2006, p. 20). Para que ocorra é necessário um pacto autobiográfico, que se estabelece através do texto e do para-texto que o circunda. Percebe-se a confirmação da identidade real do autor, e o seu desdobramento em narrador e protagonista da narração:

AUTOR - NARRADOR - PERSONAGEM

Neste livro o pacto está à princípio no nome “Memórias Inventadas”.

Memória é a faculdade individual que, na sua essência, não pode ser compartilhada com mais ninguém. São contadas sob o único foco possível, o daquele que lembra.

Na rememoração re-encontramos a nós mesmos e a nossa identidade, não obstante os muitos anos transcorridos, os mil fatos vividos. Encontramos os anos que se perderam no tempo, as brincadeiras de rapaz, os vultos, as vozes, os gestos dos companheiros de escola, os lugares, sobretudo aqueles da infância, os mais distantes no tempo e, no entanto, os mais nítidos na memória (BOBBIO, 1997, p. 31).

Torna-se impossível ao autobiógrafo a fiel reconstituição dos fatos, pois um discurso calcado na memória, na lembrança, reveste-se de valores que presidem a vida do sujeito no momento da escritura, não necessariamente correspondendo aos que o guiavam no momento do fato lembrado são lembranças pertencentes ao tempo em que se conta, sendo, por isso, passíveis de constantes atualizações.

Reside nesse ponto a grande dubiedade da memória, pois ao mesmo tempo em que é contaminada pelo momento atual do sujeito, ela surge também como um mecanismo repetitivo que possibilita ao autobiógrafo recompor quadros que lhes são significativos, expurgando acontecimentos que lhe possam relembrar maus momentos, fatos constrangedores, etc.

Esse expurgo é propiciado pela perspectiva temporal, pois a passagem do tempo e o distanciamento narrativo convertem o 'eu' que conta em outro diferente do que é contado. Se há a identidade entre as instâncias, selada pelo já mencionado pacto, há também um desdobramento que permite ao autobiógrafo se ver como um outro que não ele mesmo, refazendo o percurso de forma indolor.

3. LINGUAGEM INFANTIL

A reconstrução via discurso do universo infantil é então uma tarefa que não pode excluir o imaginário, e, em se tratando de um discurso que reverbera poeticidade, tal mescla não pode ser entendida como fuga ao conceito de autobiografia, pois a poética também se alimenta com a essência do imaginário. As lembranças continuam sendo o mote inicial para o desenvolvimento da escrita, contudo, para trazer à tona aquele 'eu' que se encontra apenas no passado, é necessário que se evoque também o poder do devaneio, pois através dele se pode abrir o núcleo de infância que habita em cada um.

Gaston Bachelard afirma que “quando esse devaneio da lembrança se torna o germe de uma obra poética, o complexo de memória e imaginação se adensa, há ações múltiplas e recíprocas que enganam a sinceridade do poeta. Mais exatamente, as lembranças da infância feliz são ditas com uma sinceridade de poeta. Ininterruptamente a imaginação reanima a memória, ilustra a memória”.

Isso ocorre pelo fato de o poeta-escritor não submeter os conceitos de imaginação e memória aos critérios da percepção, pois a lembrança só pode revelar imagens, e essas imagens revelam muito além dos fatos, elas desvelam valores. Nesse forjar de valores, são ressaltadas as imagens que se deseja ver, ficando opacas as demais por sua pouca importância para aquele que conta. Enquanto foco da narrativa, a infância possui múltiplas interpretações e significados que interpelam o imaginário, tanto de quem conta como de quem lê.

Como escrita autobiográfica que é, em Memórias Inventadas, é clara essa cisão de um 'eu' que, ao se contar, converte-se em outro, como se ao mesmo tempo em que a narrativa aproximasse o 'eu-presente' do 'eu-passado', também descortinasse a impossibilidade desse 'eu' continuar sendo o mesmo do início; essa divisão está explicitada, inclusive, pelo distanciamento dado pelo uso – em alguns textos - da terceira pessoa.

Veja-se o que ocorre no texto “Desobjeto”, nele, o narrador se converte num outro, designado genericamente apenas como o menino que descreve as etapas necessárias para a metamorfose de um pente em um desobjeto. O prefixo de negação acrescentado ao radical retira do pente sua função objetiva, reincorporando-o à natureza, numa apologia indireta à liberdade.

O menino que era esquerdo viu no quintal um pente.

O pente estava próximo de não ser mais um pente. Estaria mais perto

de ser uma folha dentada. Dentada um tanto que já se havia incluído

no chão que nem uma pedra um caramujo um sapo. Era alguma coisa

nova o pente. O chão teria comido logo um pouco de seus dentes.

Camadas de areia e formigas roeram seu organismo. Se é que um pente

tem organismo.

O fato é que o pente estava sem costelas. Não se poderia mais dizer se

aquela coisa fora um pente ou um leque. As cores a chifre de que fora

feito o pente deram lugar a um esverdeado musgo. Acho que os bichos

do lugar mijavam muito naquele desobjeto.

Heráclito parece gritar aqui sua teoria do movimento contínuo.

O fato é que o pente perdera a sua personalidade.

Estava encostado às raízes de uma árvore e

não servia mais nem para pentear macaco. O menino que era esquerdo

e tinha um cacoete pra poeta, justamente ele enxergava o pente, naquele

estado terminal. E o menino deu para imaginar que o pente, naquele

estado, já estaria incorporado à natureza como um rio, um osso, um

lagarto. Eu acho que as árvores colaboravam na solidão daquele pente.

(Desobjeto, III)

Nesse entrecho, é somente no final que o narrador auto-representado entra em cena, fundindo-se com o antes representado, numa consubstanciação que reforça a tese de que o 'eu' que conta se reconhece naquele do passado, mas, ao refazer seu próprio percurso, não é aquele primeiro – o contado - que tem a voz, mas sim o 'eu-atual'.

A criança surge como voz apenas fabulada, na medida em que a narração é construída do presente do adulto, ela continua um “sem voz” que tem sua vocalização possibilitada por um adulto que a conta, no desejo de revivê-la. Ainda que o desejo desse 'eu-atual' seja voltar àquele momento passado distante, ele só pode fazê-lo através da fabulação do que já foi, mas não é mais, pois como escreve Barros no posfácio de Memórias Inventadas, “se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore”.

Ele busca fazer a comunhão entre a criança que foi com o adulto que é, mas sem conseguir desvencilhar-se da visão que nesse um conjugam-se dois. Essa simbiose, de um 'eu eventual' e um 'eu-do-passado' como um diverso que se deseja mesmo, irmana-se com a que foi sofrida pelo pente e a natureza, na qual há a fusão de elementos dispersos, mas não totalmente heterogêneos.

4. REARRANJO SEMÂNTICO – ILOGISMO

Na poesia de Manoel de Barros, o enfoque não está na palavra, ou melhor dizendo, na significação. Existe maior preocupação com a construção, o visual obtido com o arranjo inusitado de palavras. A preciosidade de seus poemas reside na improvisação de formas ou combinações de uma maneira insólita, pela qual se descobrem mundos desconhecidos ou se exploram zonas ignoradas no conhecido. Ao enveredarmos na literatura barreana temos a impressão de que, por um instante, o mundo tal como o percebemos deixa de existir.

Ocorre na sua poética uma quebra do paralelismo sintático e semântico causando a agramaticalidade da frase. O esfacelamento da gramática apaga as marcações e referencialidades que asseguravam uma leitura objetiva e inteligível. Esse tipo de construção ensaia o descompasso entre as palavras e fluxo do pensamento, devolvendo ao pensamento a liberdade vertiginosa com que nos surpreende.

O desenvolvimento de sua obra simula uma escrita labiríntica: não há como seguir reto por ausência da linearidade; há uma sucessão de fragmentos que se inter-cortam e improvisam diferentes aberturas, por onde se inicia o movimento paradoxal de perder-se para melhor conhecer, sair do curso e experienciar.

Ler deixou de ser visto como simples tarefa de passar os olhos para reconhecer alguns símbolos gráficos. Ultrapassando essa primeira etapa a qual poderíamos chamar de mecânica ou superficial, o exercício da leitura constitui uma seleção e reunião de impressões que nos inquietaram, a fim de serem conjugadas com os conhecimentos previamente adquiridos. Logo as construções não se regulam pelas normas gramaticais, uma vez que sobressai o trabalho do poeta para encontrar outras maneiras de combinar de palavras, diferente do convencional. Cabe ao poeta explorar as possibilidades dispostas no código linguístico; perceber todas as possibilidades que a língua oferece.

O que para muitos é visto como absurdo e despropósito, no modo “torto” pelo qual o poeta pantaneiro concebe as coisas, aparece como exercício de linguagem, para explorar a língua nos níveis fônico, sintático e semântico. Dessa experimentação, surgem imagens como: “carregar água na peneira”, “guardador de águas”, “catar espinhos n’água”, entre outras. Classificar de absurdo tais composições assinala os limites do mundo delineado pela razão. Por que a poesia não pode ser alegre, provocar o riso?

Nos habituamos a olhar imagens prontas e, consequentemente, perdemos a desenvoltura do olhar curioso que percorre as superfícies para descobrir novidades. Temos constantemente o olho desviado para letreiros luminosos, símbolos chamativos, cartazes de cores-vivas, todos esses artifícios empregados ao mesmo tempo numa confecção para persuadir o espectador.

5. METAPOESIA

A pergunta que a poesia faz sobre si mesma, revelando as suas formas, caracteriza-a como metapoesia, marca específica de um dos impulsos da literatura da modernidade. Toda poesia sobre poesia é uma tentativa de conhecimento do ser que ela é. Há um redimensionamento da arte na realização de tal processo, porque a concepção metalinguística de construção e consciência existe para marcar oposição à concepção de arte como sentimento e expressão.

A função metalinguística na arte literária indica a dessacralização do mito da criação, ao expor o processo de criação artística ao leitor que, hoje, não mais a contempla como “algo inatingível”, algo insondável e inspirado pelo poeta, porta-voz de um objeto de privilegiados. Nesse sentido a poesia torna-se crítica da linguagem e, no nível da recepção, condiciona o leitor ao engajamento dando-lhe a condição de co-autor. A poesia não é mais um produto final; é articulação de um processo.

Outra essencial marca da poética de Manoel de Barros é a defesa da necessidade de abandonar a inteligência para o entendimento através do ser as coisas a fim de torná-las matéria de poesia. Assim é a poesia para o eu-lírico: ela tem a capacidade de atrair e encantar os homens, de fazê-los maravilharem-se com o mundo e com o que nele há, de instigar a imaginação e a criatividade, de lhes ensinar a procurar o lado não visto das coisas, de nunca se contentar com o pronto e acabado. O poema trabalha com todas as coisas de formas infinitas, nunca esgotando a capacidade de inovação da linguagem. Como no poema “Uso as palavras para compor os meus silêncios”:

Não gosto das palavras

Cansadas de informar.

Dou mais respeito

as que vivem de barriga para o chão

tipo água pedra sapo.

Entendo bem o sotaque das águas.

Dou respeito às coisas desimportantes.

Prezo insetos mais do que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas mais do que dos mísseis.

Tenho em mim um atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior que o mundo.

Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos

como as boas moscas.

Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.

Porque eu não sou da informática:

Sou da invencionática.

Só uso as palavras para compor meus silêncios.

(O apanhador de desperdícios, IX)


6. CONCLUSÃO:

Memórias Inventadas: a infância é um belo livro embalado para presente. Com sua fita azul, folhas soltas, uma infinidade de detalhes que absorvem o leitor. Tudo pensado para criar um pacto com o leitor. Propiciar uma atmosfera lúdica em que seu impacto vá se ampliando, crescendo, como uma boa lembrança sempre causa. Manoel de Barros usa e abusa de uma fórmula por ele mesmo consagrada, uma mistura de metalinguagem, retorno ao passado, linguagem infantil, ilogismo, buscando uma desconstrução e posterior recriação do universo que o circunda. Refundação aparentemente necessária para quem percebe o mundo que o cerca de maneira tão lúdica. Essa fuga do mundo presente, essa recriação dele em novas bases é como uma ponte que tenta salvar a si mesmo e a quem se propõe a pactuar desse novo universo.

7. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA E ÁS VEZES CRTL C+CRTL VEZADA:

BARROS, Manoel. Memórias Inventadas: A infância.

LINHARES, Andrea Regina Fernandes. Memórias Inventadas: Figurações do Sujeito na Escrita Autobiográfica de Manoel de Barros.

SÁ, Maria da Glória, et alli. Memória da Arte em Mato Grosso do Sul.



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sábado, 19 de dezembro de 2009

Utopia de um homem que está cansado


Vivemos o tempo dos fenômenos anabolizados pela Internet, uma era torpedeada via Google. Novos Michaels estão sendo gestados em fábricas de fundo de quintal. Só não serão melhores, que o péssimo original, pois estrelas precisam de lendas e mitos pessoais para os engrandecer e isso demanda tempo. Tempo é o que não temos hoje. Vivemos para ser bombardeado pela próxima grande atração que durará o suficiente até que outra a supere. E assim ocorre uma substituição sem fim, numa redundância sufocante. Como músicas que baixamos aos montes e nem nos damos ao trabalho de prestar atenção de verdade, pois sempre tem uma novidade novinha em folha clamando por atenção. A voracidade e o péssimo gosto dos fregueses de novidades impressiona. Se é para ficar linkado em algo, que seja sempre aquele que se expõe mais e se joga sem medo: uma princesa Diana entre ferros retorcidos; um Bush desviando de sapatos. Nosso desejo pelo volátil é imenso. Adoramos vozes belas em invólucros esquisitos, é contra tudo o que crescemos vendo, e é o novo da estação que nós sempre queremos. Sendo estação o sucesso do dia, quiçá, da semana. Balões prateados flutuando ao encontro dos nossos desejos (ou os desejos da mídia e dos seus vampiros).


Mas sempre existirá os rebeldes. Sorrio para esses minúsculos agrupamentos de plantão. Nossos neo-hippies-passadistas. Sempre teremos em meio a toda unanimidade, focos de resistência inermes. Niilistas de fachada, fingindo ser contra tudo e todos. Nada mais fake que grupelhos que usam cabelos mau penteados propositadamente; tatuagens; a roupa que não está na moda; a camiseta do Che. Novos bandos para substituir os de antes: punks, góticos, hippies, nerds, indies, metaleiros. São a resistência ao irreversível. São os anti-tudo da nova era. Abandonados no seu córner, sem adversário para lutar: quem liga pra eles?. "Não, eu não tenho orkut, nem facebook, e odeio msn", significa dizer como em um ontem não tão longínquo: "eu odeio a sociedade, por isso moramos aqui, nessa comunidade, integrados com a natureza, livres da opressão do sistema". Bela inutilidade.

O mundo dá mais voltas que conseguimos acompanhar. Celular sem bateria; um dia sem msn; uns minutos sem trocar e-mails ou torpedos; impossibilidade de baixar mp3s; melhor o Inferno de Dante, diriam não só os jovens, mas também as crianças, os de meia-idade; os idosos. Como imaginar a vida sem internet? Minha mãe esperando na janela meu pai chegar, enquanto cuidava das roupas, dos filhos pequenos, matava uma galinha, arrancava uma cenoura do chão. Minha mãe não conheceu a internet, feliz dela? Creio que não. Imagino ela hoje, ainda esperando meu pai chegar, conversando com seus filhos e netos em São Paulo, com seus filhos e netos em Cuiabá, com seus filhos, netos, bisnetos, irmãs em Campo Grande, ela, com certeza, se sentiria bem mais completa se tivesse tido a oportunidade de algo tão futurista.

Uma vida bucólica como era da minha mãe, será, num futuro próximo, um grande hit. Fazendas ecológicas, em que o contato com a natureza, liberdade, vagarosidade, será o tradicional em voga. Serão as sacristias da modernidade galopante. Templos em que se oficiará as novas missas. Computadores ultra-high-techs, laptops mega-powers, celulares-câmeras 24 horas online, mp20, tudo desligado. Rede, só as que dormirão sonos reparadores os visitantes ilustres, ou melhor, os viciados da modernidade, ou seja, quase todo mundo.

Outra tradição de um futuro próximo será o se doar. Ser ou estar em ONGs fará toda a diferença. Dos bagres mandis do rio Paraguai aos moradores do mangue da Polinésia. Das Genis dos becos ou as de luxo às pessoas que nunca passaram num concurso público. Dos gnomos e fadas aos políticos anônimos. Todo mundo terá alguém pra chamar de seu. Algo como um bolsa-família monumental. Doar R$ 7,00 para o Criança Esperança que nada. Um mundo mais glorioso será quando todos, tradicionalmente, além da sua jornada de trabalho, partilharem de leituras de livros para cegos analfabetos. Oh, o mundo estará melhor assim? É claro, mas quem não gostará muito serão os totalitários de esquerda que perderão um nicho do seu mercado, no vale-tudo pelo social.

O Carnaval vai sobreviver. Ele, que não é mais o tradicional que conhecemos, mas vai viver e mostrar mulatas ainda rebolando quase sem roupas; celebridades com a pele pintada; comunidades em transe. O carnaval ainda vai ser algo que chamará a atenção do mundo, pois, nós somos o país do futuro, do samba, do futebol, da banana, do pré-sal e de todos os clichês possíveis, não seria justo a maior festa pagã que temos sucumbir assim assim. Que acabe o futebol, essa farra de obtusos desmilinguidos, correndo atrás de uma bola em arenas de concreto e gramados verdes como um pasto, tá, melhor não também, precisamos de toda distração possível para o povo (esse ente infeliz que sofre e sorri ao mesmo tempo que tem seus sentimentos usados pelo bando da hora).

Manteremos outras tradições. Aqui não aprenderemos a tomar o chá das cinco londrino, mas salvaremos as que mais nos representam. Pão com mortadela. Casamento na Igreja. Sentar num bar para jogar conversa fora. Festa de debutantes. Café com pão de queijo. Churrasco no fim de semana. Show caipira em festa agro. Pudim de padaria. Trote aos calouros. Banda de escola. Assistir novelas. Postar o novíssimo e revolucionário texto, que não vai ser lido por quase ninguém. Manteremos muitas das nossas tradições: da cidade, do estado, do país, pois somos saudosistas de plantão e nada como uma festa junina pra alegrar um espírito.

Já dizia um ilustre escritor: "modernos são móveis velhos e neuroses novas", e clássico o que é? Hoje é tudo que tenha um mix de velho com um élan irrepreensível de novidade. Livros velhos, fotos velhas, fatos velhos, filmes velhos. Mortos famosos. Mortes antigas. Gênios reais e do marketing pessoal. Coisas não tão vistas mas que se materializam e assombram a todos; isso é o clássico de hoje. Mas clássico mesmo num futuro próximo será tudo aquilo que conseguir burlar o tempo atual - eis o grande senhor do mundo: o Tempo, será ele o Deus tão procurado? Aquele que sobreviver à ditadura do já será o clássico do futuro. Quem sobreviverá? Twitter? Kaká? Fast food? Kuat Eco? Obama? U2? Susan Boyle? Faustão? Naruto? Paulo Coelho? Fotografia digital? Clássico, será sempre aquilo que surge e muda tudo ao redor; quebra barreiras, é imitado, e o simples fato de sabermos que existe ou existiu, nos transforma ou transformará. Como um filme do Carlitos. Como Homero e Shakespeare. Como ver Mané Garrincha colocando pra sambar um bando de joões. Hitchcock. Beatles e Ramones. All Star. Arroz feijão bife batata frita e salada. Coco Chanel. Jeans. Como Machado, Kafka e Borges, que aliás empresta o nome de um conto seu para o texto todo.



* Texto publicado no http://picidaribeiro.blog.terra.com.br/ - na verdade feito de encomenda para ela, que queria saber o que eu achava que no futuro seria clássico ou tradicional. Quase uma armadilha, pois eu, boca aberta, podia ter sido conciso e dito tudo de maneira mais simples, mas não, e tome texto enorme, para o desgosto dos fregueses.



s.o.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Faz-me rir!

Domingo à noite, um dia mórbido. Ao sairmos de casa ou embarcarmos num ônibus, o que vemos é um cenário desolador. Os mais puritanos se revestem com a engomada roupa social, fazem o melhor ar de moço bom e carregam como um tesouro a bíblia debaixo dos braços. Mães desavisadas e pais embriagados equilibram sacolas e a coleção de filhos pequenos. Nesses rostos, o que se vê é a exaustão, a catarse de quem leva uma semana árdua de trabalho e tem como único lazer o fugaz fim de semana para levar os filhos para ver a avó, a qual talvez não os receba sempre com a mesma receptividade. Os bebês nos colos manifestam seu cansaço em lágrimas torrenciais e um berro incessante. Os emos púberes acham que a vida pode realmente ser mais colorida se encherem-se de piercings e trajarem o preto cotidianamente. Os bares, lotados de homens vazios, como lembraria Vinicius, todos diante de telões gigantes que exibem um futebol que inspira palavrões e o sarcasmo com o amigo que torce pelo time que está perdendo. Os que não assistem, praticam. As ruas esburacadas transformam-se em palco para a pelada dos amadores. Senhoras desperdiçam conversas nas calçadas. Outros e outras são mais acomodados ainda e se refestelam diante de domingos que eram ão e agora caminham para inho. É difícil acreditar que possa haver vida inteligente diante de tanto marasmo, tanta insalubridade. É quase impossível crer numa salvação. Mas ela existe. E existiu no último domingo.

O santo milagroso chama-se Fulano di tal. E o milagre produzido chama-se Faz-me rir. É claro que nem todos têm a chance de ser agraciado quando eventos assim acontecem. A peça aconteceu no Palácio Popular da Cultura. Que de popular só tem mesmo o nome. O pomposo teatro fica no meio do nada, ou melhor, no meio do Parque dos Poderes. Piada de mau gosto e herança maldita de Pedro Pedrossian; todos os órgãos públicos perto um do outro. Tudo perto. Mas longe do resto da população. Pra lá os ônibus rastejam levando uma multidão de funcionários públicos e cidadãos vitimados pela burocracia. Porém, só podemos desfrutar de tal infortúnio durante a semana. Nos finais de semana, só os bem-aventurados que dispõem de carros próprios ou de meios para custear os temperamentais taxímetros é que podem lá chegar. A “gente humilde” de Chico fica fadada ao nada da televisão. Na verdade, a “gente humilde”, muita das ocasiões, passa a ser também a ser gente invisível. Que importa saber se a maioria das pessoas não podem chegar lá, uma vez que elas também não vão ter como comprar os ingressos? O Palácio é palco das grandes produções, das estrelas globais e de vez vem em quando também frívolas. E o único meio é cobrar caro para bancar os gastos. No entanto, no último domingo não foi assim com Faz-me rir. A peça de produção local teve preços populares, mas o empecilho de se chegar lá persistiu. Os que conseguiram vencê-lo amanheceram em segundas-feiras encantadas.

A peça começa com um casal fazendo uma espécie de publicidade do grupo. Contando de como ele surgiu e as piadas e confusões que sempre surgem com o curioso nome de Fulano di tal. Nessa conversa a três com público, tomamos conhecimento de forma divertida de como é a dura realidade do artista que precisa buscar patrocínio. É verdade que essa introdução nem sempre traz piadas felizes e pode por vezes desanimar o público. Mas o espetáculo vai sempre ganhando vida num ritmo crescente a cada troca de personagem, o espetáculo é feito em esquetes.

A primeira é de um casal que se conhece pela internet e marca um encontro inusitado num restaurante. O computador é o cupido ideal para juntar personalidades que se atraem e se repelem. A menina é toda colorida, toda fashion como ela mesma diz, e ele parecer ter fugido da violada mais próxima; bota, calça apertada, camisa e boné. Não faltam tipos por aí assim. Sendo assim também não faltaram doces alfinetadas à música sertaneja que impera por aqui. Isso é o mais incrível da peça: humor local. Estamos carentes disso por aqui em todas as áreas. Na música, dança, teatro, poesia, sempre que queremos falar de nós lembramos de tuiuiús, jacarés, onças e afins como se fôssemos todos descendentes de Robson Crusoé. A segunda vem falar de política criando também tipos curiosos; o laranja, a secretária atraente e ambiciosa, o assessor corruptível e no centro de tudo, o deputado que não saber lidar com as próprias tramoias e alusões à política local também são meras coincidências. Risos também com as amigas que no meio da balada começam a pensar em casamento, em escolhas, em como lidar com os homens, se compensa mais ser uma princesinha ou uma amélia. O gaúcho de profissão não-revelada no início que começa a contar de seu cotidiano de trabalho criando uma série de trocadilhos de conotação sexual. A hilaridade única da noiva embriagada que foge do noivo e trava um diálogo ébrio com o público. Os nossos olhos também saem a dançar para acompanhar os movimentos do ator que percorre uns vinte de anos de dança para mostrar o quanto evoluímos nesse quesito. Música que já tínhamos esquecido, músicas que ouvimos sem querer, outras que já ouvimos e até sabemos a coreografia apenas por odiá-las. Mas engraçado mesmo é entramos no universo infantil e assistirmos com leveza temas como a pedofilia, a sexualidade em si e todas as noias e preocupações sérias e válidas dos adultos que afligem o pequeno mundinho de nossas crianças. Enfim, é impossível não sair extasiado depois de vivermos uma noite assim.

Morra! Mas não morra antes de ver essa peça. Talvez a única ressalva se faça é quanto ao uso de microfones que talvez pudessem ser dispensados dando mais liberdade aos atores e acabando com o problema de chiados ocasionais, embora quase imperceptíveis ao público. Com pouco cenário e não muito figurino fez-se um belo espetáculo. Vale a pena gastar dinheiro com táxi para vermos algo realmente fantástico.






 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
t.c.s.

sábado, 24 de outubro de 2009

Um silêncio provisório




Misteriosamente eles adotaram o silêncio. Em nenhum momento debateram que, o silêncio, seria a solução dos, não poucos, problemas. Era um acordo de olhares preguiçosos. De backspace apagando frases inteiras. Talvez achassem que no pós-discussão o melhor a fazer era pensar em coisas amenas, talvez nem pensar. Melhor o 'tergiversatio'. Acreditar que o desconhecido é um companheiro tão fiel quanto um cão. E eles se esmeravam em imaginar-se longe das crises por eles mesmos inventadas. Até faziam planos. Pensavam o futuro como se o passado não tivesse existido. Como se fosse possível que feridas tão recentes, milagrosamente, desaparecessem. Ah, os milagres, esses feitos gloriosos que sumiram da face da terra. Ninguém mais escapou vivo das covas dos leões, esquecemos o idioma deles e eles o nosso. E os dias correram por vielas até alegres. Passaram por alguns momentos que eles mesmos não acreditavam ser mais possíveis. Em alguns instantes até acreditaram que eles estavam certos. Portas novas se abrindo. E as outras, as portas de antigas dores, trancadas à sete, extraviadas, chaves. Mas todos sabemos como são essas coisas. Fica sempre um rancor armado no espírito... facas sendo afiadas... armas de destruição em massa compradas no mercado paralelo... a próxima batalha, se houver, será mais dramática ainda... mas, enquanto ela não chega, recuperam-se da última, um nos braços do outro...


s.o.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Jorge

I

Sozinho ao volante do Voyage, vendo surgir e desaparecer curvas, mal conseguindo acreditar na quantidade de buracos da rodovia, indefinidos e surpreendentes, que teimavam em brotar, como armadilhas engenhosamente calculadas, Jorge pensava em sua vida como quem visita um parente distante no cemitério: levemente compungido e bastante incomodado. Seria sempre assim, ele achava, desde pequeno fazia a si a mesma pergunta: “por que tudo era tão difícil pra ele?”. Sentado em bancos de igrejas, apenas ficava mais confuso, jogavam-no de versículo em versículo, de parábola em parábola, mas nunca lhe diziam claramente: “é por isso!”. A escola completou seu quadro de desespero, pois os professores estavam ocupados demais mandando que decorassem isto ou aquilo, e a resposta não estava em nove vezes nove, mesmo ele sabendo que era oitenta e um à custa de muitos cascudos de sua mãe analfabeta e cintadas do pai bêbado.

Assim, quando o exército o abraçou, para honrar a pátria, ele quase foi feliz. Os novos companheiros, que dividiam tudo, de um copo de cachaça com molho de pimenta, aos gigantescos cigarros proibidos, dividiam igualmente socos e pontapés quando alguém decepcionava a maioria, mas eram a melhor família que já conhecera. Ele podia sentir tremores consistentes na boca do estômago quando montava e desmontava seu FAL em menos de um minuto ou quando conseguia fazer mais de 300 abdominais. Mesmo quando sentia horror nas madrugadas insones em que cumpria seu quarto de hora no mesmo dia em que estava de serviço o tenente Arantes, um maluco que chegara da escola de para-quedistas e aplicava os maiores castigos se pegasse um soldado dormindo ou desatento que fosse, “ah, sua malditas senhas e contra-senhas”. Tudo era tão real e sincero que até gostava. E os acampamentos eram o mais próximo da sensação de perigo real que já sentira, com seus exercícios estranhos, seus rigores descompensados, como se estivessem realmente se preparando para uma grande guerra que nunca chegou. Caminhar pelas trilhas à noite é bem parecido com o cortar o breu da estrada de carro, lá a luz vinha dos camaradas, aqui dos faróis – pena que fosse uma luz muda. Mesmo com todas as dificuldades vividas ali, no 17º Batalhão de Caçadores, ele foi feliz, e, longe dos camaradas sempre prontos para tudo da sua 2ª Companhia o medo lhe corroía a alma.

II

Agora, como que agarrado às suas memórias, um náufrago tentando encontrar pegadas na praia da sua vida, um Sexta-Feira qualquer que fosse, para assim não pensar no que estava fazendo. Essa viagem maldita, com sua carga maldita, com o maldito dinheiro que já havia recebido metade, e tudo por que seu olho esquerdo agora só via nuvens brancas entremeadas de cores inusitadas e mentirosas. Foi isso que ocorrera naquele dia. Só quando sentiu a pancada é que se lembrou que não enxergava quase nada e que o retrovisor esquerdo, para ele, era uma peça inútil; mas percebeu isso tarde o suficiente para toda sua vida mudar naquele fatídico momento. A empresa não se recusou a pagar os reparos, nem mesmo quando o proprietário do Honda Civic levou-o para a autorizada da rua Bahia – cujos proprietários eram notórios rábulas do conserto. Jorge nem teve tempo de descobrir a razão disso, foi demitido dois dias depois, sem justa causa, mas com todos os motivos aparentes: o estrago era grande o suficiente pra que ele ficasse sem salários por quase um ano; a empresa descobriu enfim aquela cegueira parcial; fora a terceira vez que ele se envolvia em algum tipo de acidente, terceira e última.

Depois de uma certa idade o desemprego é como uma doença contagiosa, todos o olhavam com desconfiança, ainda mais quando percebiam que a única coisa que ele havia feito a vida inteira fora dirigir veículos grandes: Expresso Mira; Viação Mota; Viação Cidade Morena e tantas outras empresas. Mesmo assim ele tentou. Enquanto tinha o seguro-desemprego ia fazendo uns bicos, pedreiro, descarregador de caminhões, segurança. Mas, quando a última parcela foi retirada na boca do caixa, e o Detran só lhe concedeu a carteira B, um frio esquisito passou pela sua nuca: como iria fazer agora? E quando tudo ia faltando perigosamente, inclusive os parentes, que esses são como gatos que pressentem a morte de algum morador da casa, Jorge resolveu viajar pra Corumbá e tentar por lá uma sorte que nunca teve.

III

“Seu Jorge” - disse um senhor atarracado, que estava próximo o suficiente pra que sentisse o cheiro de peixe e cerveja que ele exalava – “nós confiamos no senhor”. “Aqui está o endereço onde você tem que levar o carro, entra, deixa as chaves e os documentos e me liga”. “Lembre-se, se a polícia te parar que não sabia o que estava carregando e nunca me viu nem mais gordo nem mais magro...a sua família agradece”; falava e voltava-se para seu prato de costelas de pacu fritas, arroz e mandioca branca. Jorge sorriu amarelo com seu garfo a poucos centímetros da boca e só conseguiu balbuciar: “Sim Senhor, pode ficar tranquilo”. “Eu só fico tranquilo na hora que o carro estiver lá em Dourados, isso sim”. “Mas, por hora, pega essa grana aqui, e manda pra sua família; a outra parte o senhor recebe lá” e atacava o pacu despedaçando-o, retirando as espinhas e colocando-as em cima da mesa. A quantia era a mesma de três meses de trabalho duro como motorista de ônibus, aguentando aposentados que insistiam em tomar o coletivo na hora de pico; pessoas fedidas; mal-educadas; mal-encaradas; infelizes; estudantes estúpidos; ou aquelas pessoas que faça chuva ou sol, sempre dão um bom dia gorduroso; aqueles tagarelas que nunca se tocam. E ainda teria mais na hora que chegasse. Correu para o banco e na hora que pegou o comprovante sentiu que havia vendido sua alma definitivamente e teve vontade de fugir. “Olha, paga todas as dívidas mais velhas, e faz uma compra bem grande pra casa, entendeu?”; “Pai, onde o senhor tá? Tô morrendo de saudades, você vai ‘voltá’ logo? O Fábio quebrou minha boneca”...

IV

O sorriso de seu filho, as pequenas mãos da sua filha não lhe saiam da lembrança. Foi por eles, só por eles que havia se metido nesta enrascada, insistia para ele mesmo acreditar. Não poderia suportar vê-los passando necessidades, sem ter o que vestir, sem terem o que comer. A deficiência do menino já era um fardo por demais grande, e ele nunca havia reclamado nenhuma só vez disso. Nunca cobrou do hospital onde ele havia nascido perfeito e sido derrubado, por uma enfermeira desastrada, logo no seu primeiro banho. Não tinha dado um pio quando a sua pequena menina teve, pela primeira vez, que fazer uma cirurgia gigantesca na perna para retirar um tumor; nem reclamou na segunda, pois a primeira não foi bem sucedida. Apenas queria saber a razão de tanto sofrimento. Esses terrores voltavam agora, a cada posto da Polícia Rodoviária; toda vez que percebia que os carros estavam andando mais devagar à sua frente, que aleatoriamente eles estavam sendo escolhidos, como numa roleta russa com duas balas no tambor. Sabia o que significava ser uma mula, mas temia que fosse mesmo é boi-de-piranha, que seria entregue por quem o agenciara, para que um carregamento maior passasse em outro lugar.

Há poucos quilômetros de Dourados, livre das barreiras odiosas, conseguiu sentir fome, e, em Itaporã, num restaurante inusitado do lado de um fogão à lenha, se serviu da melhor comida caseira que já tinha visto, comeu de verdade pela primeira vez, desde que se sentara no banco daquele malfadado carro. Foram generosos pedaços de carne, quiabo, feijão, costela, frango; sorria por ter conseguido chegar e já não evitava pensar em Vânia, a mãe dos seus filhos. Sorria quando pensava como a havia conhecido, nos encontros na sala ou no portão da casa, quando tinha que comprar a ausência dos irmãos dela com doces. A gravidez inesperada, a fuga alucinada, aproveitando-se de uma viagem do pai dela. Os casebres em que moraram, um quadrado de madeira, ás vezes com chão de terra batida, mas sempre com uma cama, e era lá que eles foram mais felizes. Trepavam o dia inteiro, até que a barriga começou a incomodar. Depois do primeiro filho tudo havia mudado, pouco, mas ainda assim o suficiente para não ser mais aquilo que ele queria. Mesmo assim, logo depois veio a menina e, com a família, a responsabilidade de ser o homem da casa, como cobrava a vida.

V

Numa garagem, o local indicado, entregou o carro, e pegou o dinheiro - a segunda parte do trato. Comprou uma passagem pra Campo Grande que sairia às 20 horas, depositou quase tudo, e sentou-se num bar em pleno centro de Dourados, e ficou ali vendo passar as pessoas, enrolando o tempo com umas poucas cervejas. Sentia-se disperso, nem feliz, nem infeliz, apenas cansado. Trabalhadores cruzavam ruas, carteiros voltavam com bolsas vazias; pedreiros sujos de mais um dia de trabalho passavam à sua frente; empresários em seus carrões; mecânicos de mãos imundas, mas com a alma limpa, roçavam sua agonia. Queria chorar, rir, gritar, mas nada desatava o nó da sua garganta. Tinha acabado de entregar um carregamento inteiro de droga? Talvez cocaína? Quem sabe maconha? Ou então era só o carro mesmo? Não sabia, não queria saber, queria só ir embora.

Na manhã seguinte, cansado do terror da viagem, o ônibus em que estava encostou-se à plataforma. Jorge chorava lágrimas desesperadas, havia chegado ao fundo do poço da desilusão. Havia acreditado em todos os deuses possíveis e impossíveis até chegar ali. Agora, enfim em casa, vendo sua família ali, esperando por ele, compreendeu que não havia ido levar uma mercadoria qualquer; descobriu o que já sabia e havia esquecido, sua família estava acima das dúvidas celestiais. O que ele entregou em Dourados fosse o que fosse, não era mais nada, ele não ficou sabendo nunca o que tinha entregue, então mentiu, pra si e para todos, que se tratava de peças para recuperar umas máquinas que estavam asfaltando a via de acesso à fazenda de um político importante da região, cujo nome ele não podia falar – mas todos sabiam - jurara por sua mãe, Dona Alaíde, mortinha.



s.o.

sábado, 12 de setembro de 2009

Violada



Pedaços de comida cairam no chão ao primeiro espasmo que ela sentiu. Torceu o corpo violentamente e, às duras penas, golfadas iam voando aleatoriamente. Impossível evitar respingos nos sapatos. Aqui e ali, uma mistura esbranquiçada e fétida lavaram o piso. Um perito criminal diria com certeza o que ela havia comido e bebido. Sherlok Holmes diria até a razão para que os fatos ocorressem desse ou daquele jeito. O certo é que depois do terceiro vômito, serenado os ânimos, recuperado um pouco da cor, que havia fugido junto com os líquidos e sólidos, ela reparou que estava num banheiro minúsculo e que tinha conseguido emporcalhá-lo um bocado a mais. Fora, batiam insistentemente na porta. Amigos? Desconhecidos? Que se danassem. Ela só precisava de mais um pouco de tempo pra que o seu pequeno mundo parasse de girar, pra que conseguisse lavar o rosto, a boca, a garganta. Pra que seu cérebro pudesse se lembrar.


A roupa que vestia ela reconheceu. Não era dela. Mas ela já havia visto numa amiga, menor que ela, o que já antevia que algo ruim já havia acontecido. Será que ela havia vomitado na sua roupa? Que banheiro era esse? Vencendo seu asco, olhou para os restos do que havia colocado pra fora. Em que lugar ela tinha comido macarrão? Perguntas, perguntas. Sua cabeça que girava, seu estômago enjoado. Um desespero de dúvidas, dúvidas. Lavou-se. Com papel higiênico secou seu rosto, limpou seus tênis. Achou que algumas daquelas marcas não sairiam mais. "Que se foda", pensou. Aprontou-se o melhor possível e, enfim, abriu a porta.

Rostos desconhecidos surgiram. A primeira que entrou no banheiro, recuou enojada: "puta que pariu, que merda, tá imundo essa bosta". Ela livrou-se do pequeno tumultuo e descobriu que estava em uma espécie de baile. Devia ser uma dessas coisas atrozes em que duplas sertanejas tocam e um turbilhão de pessoas dançam e bebem. Um cartaz numa parede explicou o que ela já temia: "Violada da Patroa". Que diabo seria isso? Como, ela que odiava música sertaneja, estava ali naquele lugar? Nenhum rosto conhecido lhe aparecia, ela procurava a saída daquele inferno. Uma mão a tocou no braço, ela virou-se e viu, Gustavo, o cara mais lindo do mundo. Sua obsessão naqueles meses todos. Havia corrido atrás dele com uma disposição de maratonista. Ele a abraçou. "E aí, tá gostando benzinho?". Um novo engulho subiu-lhe até à garganta. Lembrou-se então de tudo. "Caralho", pensou.

Lembrou que tinha chegado cedo na casa da amiga. Que tinham começado bebendo cerveja, dois latões cada uma, que tinham jogado conversa fora enquanto faziam mãos e pés. Elas haviam dado banho de creme nos cabelos. Colocado sacolinhas plásticas na cabeça e tinham secado e, depois, esticado os cabelos com uma prancha. A amiga dizia animada: "meu, você vai sair com o Gu, nem acredito, tem que me contar tudo depois". Quando estavam quase prontas, outras amigas chegaram, trazendo vodkas, muitas vodkas. E enquanto iam experimentando roupas bebiam e riam. A casa em polvorosa. No banheiro uma ainda raspava os pelos com uma lâmina e muito sabonete Lux. Outra, atacava os cabelos com a chapinha. Batons, perfumes, pós. Troca de colares, pulseiras, blusas. Tudo ia ficando revirado, e ela, levemente bebada e ansiosa, achava ainda que iria para algum lugar tranquilo com o Gustavo, que iriam se conhecer enfim.

Antes de sairem dividiram preguiçosos nissins e beberam mais cervejas. A vontade de sair com o Gustavo ia sumindo numa bruma de álcool e barriga cheia. Maria que era quem conhecia o Gustavo e tinha conseguido aquele encontro dizia: "o Gu vai esperar a gente lá na Cantina Mato Grosso". Foi a deixa que ela perdeu. As bebidas talvez. Qualquer pessoa sabe que na Cantina só vai quem gosta de música ruim, como ela não prestou atenção nisso? Uma vez no bar, quando o Gustavo dos seus sonhos enfim surgiu, aos olhos dela, já não estava mais tão atraente. Usava calças justas, camisa xadrez, uma bota com biqueira, e um cinto com uma fivela tão grande que ela morreu de vergonha alheia. Sentado ao lado dela ele exalava um cheiro esquisito que ela descobriu ser fumo, que ele havia mascado antes de chegar. A simples imagem de uma pessoa mordendo e cuspindo algo preto e podre fez seu estômago embrulhar. E ele falava diretamente no seu ouvido e o cheiro de fumo entrava pelo seu nariz e caia como uma pedra no seu ânimo. Pra evitá-lo, voltou a beber. Cerveja e copinhos de tequila, com limão que era espremido dentro da boca.

Ele a beijou ali mesmo na mesa. Ela, que pensava em realizar um sonho, viu tudo se tornar um pesadelo. Era o primeiro beijo deles, mas ele tanto forçou sua boca com a língua e seu bafo horroroso, que ela achou que ia desmaiar. Não de prazer. Pediu licença. Foi ao banheiro e vomitou uma primeira vez. Sujou suas roupas. Uma operação de guerra foi montada pra que ela fosse na casa da amiga trocar de roupas e voltasse, afinal, não era todo dia que se saia com o Gu. Daí por diante ela só recordou espaçadamente de tudo. Foi, trocou, voltou, a camionete do Gustavo, alta, veloz, a mão dele que errava a marcha e tocava-lhe as pernas, era as pernas? A fila na entrada da violada. A violada. Eles dançando chamamé, dando voltas, voltas, voltas.

"Amorzinho, você vai aonde agora?". "Eu? Pra lugar nenhum, você é quem vai pra puta que lhe pariu, seu filho da puta, sertanojo de merda". Ao que ele respondeu: "Vai você sua biscate de merda, vagabunda, some, desinfeta". Ela sorriu, saiu empurrando todos pelo caminho e quando encontrou a porta respirou aliviada e imaginou-se fazendo pra todos um gesto obsceno. Não fez, nem quis saber qual rumo haviam tomado as amigas, com certeza estavam todas empoleiradas em alguns daqueles carros, em algum quarto de motel. Que fossem todas à merda também, não passavam de umas caipiretes de quinta, que só estavam interessadas em se arranjarem na vida. No fundo da sua bolsa tirou seu MP4 e saiu cantarolando madrugada a dentro: "hey ho, lets go!!!"


s.o.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sensações olímpicas

A vida só é vida se cumpre sua cota de surpresas maquiavélicas. Quando menos esperamos estamos sentados confortavelmente em nosso melhor sofá, deixando esvair a alegria de estar. Já não faltamos mais a nenhum compromisso, não molhamos os pés, majestosamente, em poças de chuva. Nos fechamos em nós e só abrimos pequenas frestas. Como isso tudo ocorre e nem percebemos? Qual o instante que nos trancamos em nossa carapaça e perdemos o apetite do olhar? Quando o beijo doce no rosto não arrepia mais? A alegria de viver, perdida em meios aos embrulhos da trapaça. Virtudes desperdiçadas quitando contas que já nem sabemos a razão de tê-las feito. Sacrifícios pueris pra não desagradar ninguém, pois, de resto, só devotamos nossa parca felicidade aos nossos eleitos de sempre. A eles tudo. Como é ardiloso o cálice da ilusão: somos enganados pelo tempo que se esvai; pelos companheiros que não aparecem pra dizer olá, pelo simples prazer de dizer olá; pelas possibilidades que não se cumprem. Desejos indesejáveis. Compromissos inadiáveis. Nos importamos demais. A seriedade é roupa que compramos em brechó, que não cabe bem nas vezes que tentamos vesti-la. Deixar tudo de lado um pouco, nos abandonar à suave beatitude de não nos levarmos tão a sério sempre. Não somos relógios, por isso não precisamos ser tão amargos. Desejo de tocar as estrelas, de sorrir para o idoso, atravessar a rua enfrentando carros mau-humorados, cumprimentar o invisível gari, chegar atrasado ao trabalho pelo simples prazer de ver o dia acontecer numa hora diferente. Estamos cegos, perdidos em meio a uma corrida de obstáculos em que no final, mesmo conseguindo chegar, não ganharemos nada senão o cansaço característico de toda maratona. Mas sempre há de ser tempo, ("Está na hora de saber! Está na hora da pedra começar a florescer, de um coração golpear a inquietude. Está na hora de ser hora. Está na hora” - Paul Celan), pra abandonarmos nossas impenetráveis construções, pelo menos um pouco, e nos vestirmos com as cores da infância, e assim nos abandonarmos às delícias do mundo, pois sim, elas existem, nós é que já não as conseguimos divisar mais em meio ao nevoeiro do dia-a-dia infernal.










s.o.