segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Diga sim ao preconceito!

Roberto DaMatta diz que “o brasileiro tem preconceito de ter preconceito”. Isso é incontestável. Dificilmente, você vai encontrar alguém que diga com palavras claras que odeia e quer matar todos os negros e homossexuais. O preconceito está implícito. Ele aparecerá quando você cruzar com um negro mal vestido, em alguma rua deserta, ou quando um homossexual simpático vier puxar assunto com você, em algum ponto de ônibus.

Preconceitos assim são abomináveis e dignos de repúdio.

Mas nessa luta contra o preconceito, somos levados a identificar como preconceito aquilo que não é preconceito, e sim, apenas bom senso. Bom gosto. Cria-se a ilusão de que todos têm direito de se expressar. Não faltam caetanos para propagar essa falácia. Em nome de uma patética fraternidade intelectual, somos influenciados a aceitar de tudo, para que não sejamos tidos com preconceituosos. Temos a obrigação de ser tolos. Devemos aceitar como literatura o que não é literatura. Devemos aceitar como música o que não é música. Devemos aceitar como arte o que não é arte. Isso quando não somos importunados por um estúpido provincianismo. Gente que diz estar em busca de manter culturas regionais, e deturpa origens criando frankensteins artísticos. Diariamente, rádios repetem hipnoticamente deprimentes seqüências. Ouvidos desatentos as absorvem e línguas descansadas as repetem infindavelmente.

Vivemos tempos de perversão. Instrumentos musicais se pervertem. As palavras se pervertem na disposição do papel. Ouvidos e línguas se pervertem. Opiniões de pessoas dantes ditas como sérias idem.

Quem vai de encontro a esse processo melancólico não age de forma preconceituosa, e sim, sensata. Só existe preconceito quando conceituamos o que desconhecemos. Não é o caso. Só odiamos porque conhecemos demais. Vivemos num mundo que o que desgostamos é o que mais conhecemos. Sempre estamos vendo e ouvindo o que não queremos, sempre estão dissertando sobre o que odiamos e vemos com clareza os efeitos catastróficos disso tudo. Dessa forma, temos propriedade suficiente para opinar sobre tudo o que nos irrita. Não podemos negar isso a nós. Aos olhos alheios seremos sempre preconceituosos. Sejamos preconceituosos então! O que não podemos, em hipótese alguma, é ser coniventes com a obtusidade que impera em mentes cada dia mais maleáveis.

t.c.s.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

“A essência da arte é o inesperado” ou cinco contos de Babel


Volto a Isaac Babel, é como um retorno ao sagrado que existe na literatura. Os contos de A Cavalaria Vermelha sobrevivem em mim com uma insistência fascinante. Lionel Trilling pondera acerca da epifania a que autores como Babel incorrem, “percebemos a intenção do escritor de criar uma forma que seja em si mesma bem feita e autônoma e, ao mesmo tempo, extremamente compatível com a verdade externa, a verdade das coisas e dos acontecimentos”. Babel considerava-se “o mestre do gênero do silêncio”, e advogava “o direito de escrever mal”, em clara afronta às decisões do Partido e do Governo soviéticos; ‘obedientemente’ deram-lhe esse direito, pois Babel morreu num campo de concentração entre 1939 e 1940. Escolher cinco contos na profusão de excelência deles é tarefa inglória, mas a lista tem os que mais me encantaram, nesta ou na outra vez que li o livro:

Gedali: conto impregnado de uma “densa melancolia de recordações”, percebe-se isso, pois “nessas noites, meu coração infantil balouçava como um pequeno navio”. Vive-se o início da Revolução Socialista, todos acreditam que ela vai mudar a vida das pessoas – para melhor -, mas de repente o que se vê é destruição, acaba-se a “alma da abastança, da fartura”. O desespero desiludido que dá a tônica do ambiente é sentido nas “paredes amarelas e indiferentes”; nos “farrapos trágicos” e nos “cadeados mudos”; Essa evocação a um passado não tão longínquo é algo doloroso, ocorre uma parada do tempo, uma saudade inalcançável, e as pessoas que sobram ficam tirando “poeira de flores mortas”. A Revolução não havia acontecido para melhorar a vida de todo mundo? Essa perplexidade diante do estado de degeneração é contundente “a Revolução? Nós lhe dizemos ‘sim’, mas por isso temos de dizer não ao Sabá?”; e continua o velho judeu Gedali diante de tanta mudança “sim, clamo pela Revolução, sim, clamo por ela, porém a Revolução oculta seu rosto a Gedali e nada envia, senão tiros...”. Esse caminhar por entre a ambigüidade de situações é que faz de Babel o clássico que é, e se de repente ele clama: “onde estaria a tua bondosa sombra naquela noite, oh, Dickens?”, e pede um “copo de chá judeu, e um pouco desse Deus aposentado num copo de chá?”, somos nós, os leitores, que ficamos perplexos.

O Caminho de Brody: “tive pena das abelhas”, assim começa esse pequeno conto. Em meio à guerra que travavam os cossacos contra os poloneses, na qual Isaac Babel era do exército cossaco, as abelhas são um ponto de fuga ou a fé que subsiste. Gosto dessa narrativa pela sua simplicidade de intenções. Diante da violência das batalhas, pois “na véspera, fora o primeiro dia da carnificina de Brody”, é das abelhas que se sente dó. E quando relembra a história das abelhas na crucificação de Cristo, pode-se notar o universo estranho que se vivia à época, a Revolução pregava o ateísmo, mas como matar Deus no inconsciente coletivo? “Se houve gente que ofendeu Cristo ou não, chegaremos a saber, um dia. Porém as mulheres dos acampamentos contam que quando Cristo sofria na Cruz, mosquitos de toda espécie o rodeavam, atormentando-o. Então ele olhou os mosquitos e desanimou. Mas a multidão dos mosquitos não via os seus olhos. Uma abelha também voejava em torno de Cristo. “Pica-o”, gritavam os mosquitos para a abelha, “pica-o, e nós nos responsabilizaremos”. “Não posso”, diz a abelha, voando acima da cabeça de Cristo, “não posso. É um carpinteiro como nós”.

A Vingança de Prishchepa: nós que sabemos de guerras o que nos contam a televisão, ou manchetes de jornais, jamais saberemos da violência real que ela gera. Tudo bem, todo mundo viu as fotos dos judeus mortos, ou os vídeos inacreditáveis onde montes de seres humanos eram arrastados para valas comuns como lixo, mas mesmo assim essas imagens se misturam a outras e logo se perdem, ou quem sabe, escondê-las de nós mesmos seja um aprendizado para manter a sanidade. Assim quando lemos a narrativa de Prishchepa ficamos incomodados, após ter sua família assassinada e todas os bens divididos entre diversos habitantes da cidade onde morava, a vingança imaginada e efetivada por ele, ainda assim, consegue surpreender. “Nas palhoças onde encontrou utensílios que pertenceram a sua mãe, um cachimbo que fora de seu pai, esfaqueou impiedosamente mulheres velhas, pendurou cães sobre poços, conspurcou ícones, sujando-os de excrementos”. Por esse breve relato pode-se ter uma pálida idéia do que a guerra faz com a humanidade, em princípios, amedronta, para logo em seguido animalizar.

Sal: todo mundo sabe do tratamento dado a estupradores nas prisões, mas e os tratamentos dispensados às mulheres numa guerra, imaginam ao menos? Acredito que não. Em Sal pode-se até sorrir diante do bom tratamento dado a uma delas, uma mãe carregando um filho no colo, que pede para que a deixem viajar junto com eles “nessas estações temos passado por grandes dificuldades”; esta se livra do estupro, pois “lembrem-se de suas mães, e assim compreenderão que não devem falar desta maneira”. “A instalaram no carro, competindo uns com os outros nas atenções que lhe prestavam”. Essa bucólica cena colocando num mesmo compartimento lobos e o alimento deles logo desaba, pois “permita-me descrever-lhe aqui a inconsciência das mulheres, que não estão nos ajudando em nada”. Quando os cossacos descobrem-se traídos pela mulher, que carregava um saco de sal e não um bebê, “mas veja os cossacos, minha boa mulher, os rapazes que a puseram num pedestal, por ser uma mãe que trabalhou pela república. Veja essas duas moças que choram agora pelo que lhes fizemos esta noite. Pense nas esposas, que nos trigais de Kuban gastam suas forças sem seus maridos, e eles também sozinhos, vendo-se na dura necessidade de violar as jovens que encontram”. Veja vocês a dura realidade para a mulher. Lembram-se da guerra na antiga Iuguslávia? Milhares de mulheres muçulmanas foram estupradas pelos sérvios numa verdadeira faxina étnica? No conto a sorte da mulher foi outra: “assim, tirei o meu fiel rifle, preso à parede do carro, e lavei aquela mancha da face da terra dos trabalhadores e da república”.

Guy de Maupassant: nessa pequena obra-prima ainda não existe a Revolução, vive-se um 1916, a cidade é São Petersburgo. Acompanhamos nosso mestre de cerimônias, que mesmo sem dinheiro evita empregos “já naquela época, aos vinte anos disssera a mim mesmo: é preferível passar fome, ir para a prisão ou ser um vagabundo, a permanecer dez horas do dia a uma mesa de escritório”. Uma característica de Isaac Babel é não desperdiçar tempo descrevendo ambientes, seu texto prima por uma concisão tchekoviana, assim ele nos passa a contundente impressão que tem da empregada: “a empregada de seios empinados movia-se silenciosamente. Tinha uma bonita figura, era míope e de ar um tanto orgulhoso. Em seus olhos cinzentos, muito abertos, notava-se uma expressão de lascívia petrificada”. Traduzir contos de Maupassant é um dos caminhos desta narrativa, percebe-se toda a paixão de Babel pelo autor francês “vinte e nove livros, vinte e nove bombas repletas de sentimento, gênio e paixão”. Nota-se também uma intertextualidade com o fazer literário, “falei-lhe então de estilo, do exército de palavras, exército no qual toda espécie de arma pode ter atividade”; e segue dizendo que “nenhum aço pode penetrar no coração e apunhalá-lo com tanta força como um ponto final no lugar justo”. O ponto final que é o acompanhamento perfeito para contos curtos como os que produz Babel. Esta narrativa segue até o momento da tradução de A Confissão, com as belíssimas seqüências entre o texto do francês e o de Isaac Babel, e conclui-se com uma leitura sobre a vida do grande autor francês, com um fim melancólico e perfeito: “O nevoeiro aproximava-se da janela: o mundo ocultou-se aos meus olhos. Meu coração contraiu-se, pois o presságio de alguma verdade essencial tocara-me de leve os dedos”.



s.o.

sábado, 30 de agosto de 2008

O Sétimo Selo


Bergman carrega o incômodo selo de chato pregado pelos propagadores do kistch. É que no Brasil vivemos, hoje em dia, o triunfo do patrulhamento intelectual. A vitória da companheirada, que é só a ponta do iceberg; oculto temos aqueles que dão o suporte à banalização de tudo que é belo e em que é necessário desprender uma energia a mais para à compreensão. Se não é passível de uma deglutição rápida, simples; se exige um pouco das ligações neuronais, logo é inútil e desprezível. Spielberg, um astro pop por excelência não corre esse risco, entre um e outro filme 'sério', derrama os filmões por excelência, que lotam as salas e não necessitam de muita esperteza para sair de lá muito feliz. Mas é com pessoas como Bergman e Woody Allen que a crítica tosca gosta de se preocupar, essa cruzada anti-inteligência e pró-povão é como diria um dos personagens deste filme “uma tolice que só um idealista inventaria”.

Estamos na época das Cruzadas, um cavaleiro e seu escudeiro voltam depois de dez anos lutando; aquele retorna para empreender uma busca de alguma prova, uma confirmação de sua fé; esse pretende só viver seus dias esperando a morte, pois não acredita em nada mesmo. E é ela, a Morte, que surge para buscar o cavaleiro e assim dar início à uma das seqüências mais famosas do cinema, me arrisco a dizer tanto quanto o vento na saia de Marilyn; o reflexo das crianças de bicicleta passando pela lua; Carlitos indo embora nos seus filmes; a cena do chuveiro de Hitchcock. A cena do jogo de xadrez com a Morte é bela e simbólica e marcou toda uma geração.

Bergman é um estilísta, fez o Sétimo Selo com pouco recursos, e ainda assim embebe o filme com diversas influências culturais: os acrobatas de Picasso, Carmina Burana, o Apocalipse de São João, quadros renascentistas. Essa luta contra “uma vida sem sentido”, onde “o vazio é um espelho que reflete meu rosto”, mostram um roteiro teatral. A velocidade das cenas, a clareza dos diálogos, os cenários rústicos e simples, dando o realismo necessário para uma história que parece, vamos recontando até hoje, onde a “fé é uma aflição dolorosa”.

Transformando o cinema, levando para ele a substância de um livro, Bergman, para horror dos ineptos de plantão, distribui reflexão onde antes era só diversão. Mas em Sétimo Selo não podemos dizer que falta humor, ele está no escudeiro e seu ateísmo nietzschiano, está na Morte cerrando uma árvore para levar mais um para seu reino (reino?). Nada das paródias escrachadas e emburrecedoras de hoje. O tormento do cavaleiro, a angústia de uma vida destituída de sentido, esse o caminho pedregoso que somos levados a seguir.

Se a “Morte Negra” está à solta, viver passa a ser um questionar-se eterno; enquanto aguardam (ou fogem d) a peste, um clima de dúvida perpassa o ar, e a Igreja que não podia deixar de ser, é mostrada em toda sua estupidez medieval. Grandes procissões, inquisições, caça e morte às “bruxas”, levando a Morte perguntar para o cavaleiro: “Nunca pára de questionar?”. O contra ponto à tanta dor está em Jof e Mia o casal do circo e seu filho. É nessa família que o cavaleiro encontrará o que buscava. Uma tarde, um breve instante de reencontro com a alegria, o que para ele já basta. Logo, salvar essa família das garras da Morte passa a ser seu único objetivo, pois ele quer “levar uma lembrança com cuidado como se fosse uma tigela de leite”.

Podemos dizer que a Morte triunfou, na seqüência da Dança da Morte, mas que ao mesmo tempo perdeu, pois se “o amor é perfeito em sua imperfeição” a vida dos acrobatas cheio de felicidade e amor por si como eles vivem, passa a sensação de que a troca para a Morte foi mal negócio. Levou consigo seres que haviam perdido a alegria de viver, pois viram de tudo e não se encontraram com Deus e nem mesmo consigo mesmo e deixou uma família que buscava estender a sua alegria e simplicidade a mais pessoas, sem nem querer muito em troca.


s.o.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Manoel de Barros Begins


Temos, hoje em dia, que Manoel de Barros é um dos maiores poetas do país. Justo, muito justo. Mas na maior parte das vezes, essa crítica se refere à sua obra atual, esse desvario inominado em que se transformaram suas criações do quarto livro em diante. Assim abandonamos às traças três pérolas, livros que ficaram perdidos em estantes de colecionadores, amigos ou de quem comprou sua primeira antologia: Gramática Expositiva do Chão - Poesia Quase Toda. Poemas Concebidos Sem Pecados (1937), Face Imóvel (1942) e Poesias (1956), se inserem no que foi feito de melhor em poesia no Brasil, por uma poeta que viveu um tempo de profundas mudanças e fez do ato poético um grito de revolta contra o mundo que o cercava. Devíamos trazer à tona esses livros, fazer com que fossem estudados, admirados, pesquisados.

Em 1937 vivíamos já o pós-pós-Semana de Arte Moderna de São Paulo, eram tempos de consolidar a revolução dos "moços de 22", e a poesia tinha perdido os ares parnasianos, rima e métrica haviam sido viradas do avesso, tínhamos novos heróis buscando seu lugar ao sol. Manuel Bandeira, os Andrades, Drummond, Raul Bopp e tantos outros. Nesse meio de gigantes, ele ousou colocar seu tímido ovo de Colombo. Passou despercebido, eram tantos e tão maiores os polemistas da época que o Manequinho não foi considerado. Em 1942, com o mundo em meio à 2ª Grande Guerra, ele tentou de novo, voltou para falar do silêncio da dor, foi ignorado novamente. Manoel que depois seria (re)conhecido por sua mutação constante, em 1956, publica o terceiro livro, onde parece se despedir do meio em que não viveu. Quando o homem Manoel de Barros leva o poeta para o campo, ocorre a mudança final, agora ele vive no mato, para o mato, do mato, mas sempre sendo universal. Inegável dizer o quanto isso fez bem para a carreira de Manoel enquanto poeta (desnecessário dizer que para ele isso não queria dizer nada), aumentou seus horizontes, desbravou novas realidades e, enfim, quando nada mais fazia tanta mossa, alcançou o céu, deixando para trás essas três pérolas, diamantes brutos aguardando lapidadores.

Ele sempre foi grande, os olhos de então que não estavam treinados para sua poética que caminhava em direção à contradição. Insurgia-se contra os princípios norteadores do pensar, "por não se ajustar ao raciocinar retilíneo clama por um retorno ao originário do pensar", conforme nos diz o pesquisador Prioste. O Poeta apreende a realidade como um cenário construído a partir do alicerce verbal. E nessa desconstrução por que passa alcança um idioma quase próprio, que nada mais é que um misto de variações das novidades de vanguarda (fonte constante), com a simplicidade de um eu-poético em busca de um mundo adâmico. Foi ele quem melhor descreveu a representação poética do desfragmentado ser humano que restou das crises e novidades da sociedade moderna.

Em Poemas Concebidos Sem Pecados, o poeta ataca "a questão do humano a partir do confronto com uma civilização dominada pela técnica racional que delibera sobre a utilidade da produção e transforma os sujeitos em sujeitados a um modo de pensar delimitado ao objetivo, ao racional, ao exato, ao legível e ao inteligível".

"Sou bugre mesmo
me explica mesmo
me ensina modos de gente
me ensina a acompanhar um enterro de cabeça baixa
me explica por que que um olhar de piedade
cravado na condição humana
não brilha mais do que anúncio luminoso?"

Barros realça o avesso do mundo, mira seu olhar no rejeitado desvalorizado "por uma sociedade produtiva de bens consumíveis tanto duráveis como descartáveis". A razão "condena ao ostracismo o poeta por declamar palavras sem sentido por serem contrárias tanto ao senso comum como à distinção das idéias".

No livro de 1942, a guerra atroz afeta o poeta: "a fala impossibilita-se, pois o homem encontra-se diante de contingências históricas graves: uma guerra mundial. Como então reagir diante do pesadelo da história? Frente ao ecoar de sirenes e explosões distantes, prevalece o silêncio".

"Hoje eu vi homens ao crepúsculo
Recebendo o amor no peito.
Hoje eu vi homens recebendo a guerra
Recebendo o pranto como balas no peito"

Vemos o quanto, em alguns momentos, sua obra está impregnada dessa dor universal, mas misturada ao seu “fusionismo” habitual; temos que "a instância primordial da poesia de Barros, no entanto, preserva-se intacta, pois tanto ao valorizar a fala dos segmentos marginalizados da sociedade como ao enunciar o emudecimento e a consternação diante de um mundo em conflito, a preocupação fundamental é com o outro".

Em 1956, percebemos um poeta vivenciando a modernidade mais profundamente, aqui lemos poemas vigorosos e centrados no seu olhar único: "a boca do poeta frente a um mundo desigual não se permite compactuar com uma estética subscritora do vazio da neutralidade asséptica de um postal, mas vira a construção cenográfica pelo avesso para denunciar o humano que ainda pulsa".

"Por mim passavas
- a água mais pura -
e eu sofri sede."

Mostrando ser um poeta consistente, em busca de quebrar o cotidiano normal da poesia, se reinventando, e nunca abandonando a sua maior arma, a consciência perante a sociedade em que vive: "Frente à degradação humana o poeta não silencia e afronta o moralismo provinciano por uma intervenção que sobrevém através da palavra".

São esses os livros, guardados que estão nas estantes, belíssimas obras, um treino de luxo para as obras que surgiriam depois. Um poeta que viu esse mundo urgente surgir e diante do caudal de novas idéias que iam aparecendo, ia emprestando aqui, renovando ali, nunca se prendendo a nenhuma escola pré-fixada, mas sempre utilizando-se dessas inovações para se tornar esse poeta singular, muito singular que hoje conhecemos:

“Singular, tão singular
Ó passar-se invisível pela alma da alameda de casas
espaçosas —
Imaginando a feição ideal dentro de cada uma!
Ir recebendo um pouco de poesia no peito
Sem lembranças do mundo, sem começo...
Chegar ao fim sem saber que passou
Tranqüilo como as casas,
Cheio de aroma como os jardins.
Desaparecer.
Não contar nada a ninguém.
Não tentar um poema.
Nem olhar o nome na placa
Esquecer.
Invisível, deixar apenas que a emoção perdure
Fique na nossa vida fresca e incompreensível
Um mistério suave alisando para sempre o coração.
Singular, tão singular..."


Poemas:
Barros, Manoel. Gramática Expositiva do Chão (poesia quase toda). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990.


E-book:
PRIOSTE, José Carlos Pinheiro. A Unidade Dual: Manoel de Barros e a Poesia. Tese de Doutorado. UFRJ, 2006.



Imagem: A Moça com Bandolim - Pablo Picasso



s.o.

sábado, 12 de julho de 2008

Poetas Mediocres

Todo cuidado é pouco. Não há como escapar deles: os puxadores de assunto. Eles estão por toda parte. Escondem-se sob os mais diversos disfarces. Normalmente surgem nas mais impróprias, nas horas da tua maior pressa. Um deles é perigosíssimo, usa a já até manjada armadura de velhinho aposentado. Ele chega ao teu ponto de ônibus, como quem não quer nada, olha em volta, te olha. Até quem vem a primeira pergunta. Sempre alguma exclamação relacionada com o tempo, como “que calor!”, “que frio!”, “que chuva!”, “que tempo feio!”. Daí, não há mais como você fugir, pois independente de qual seja a tua resposta, a tua opinião, você já se tornou uma presa. É irrelevante qual seja e como seja a tua réplica diante do comentário dele. Você pode simplesmente dizer “sim” ou “não”, ou ainda, simplesmente fazer um aceno de cabeça, negativo ou afirmativo. Não há como livrar-se, você já se tornou a próxima vítima. De repente, o assunto seguinte pode até não ter com qualquer relação com o segundo. Ele pode talvez querer comentar a partida de futebol da noite anterior, exalando opiniões sempre com muita propriedade. Faz uma nova escalação para o time, sugere um novo técnico, novos patrocinadores, classifica a torcida como quente ou fria, critica o locutor e comentaristas do jogo, xinga a mãe do juiz. Nesse momento de entusiasmada explanação, a tua recepção pouco importa. Você pode até mesmo ficar no teu cantinho, caladinho, sem dizer um pio. O que é até melhor para ele, porquanto faz o seu show sem interrupções. É melhor que você não tente concordar com o que ele diz e nem tampouco objetá-lo, já que ele não vai deixar você falar de maneira alguma. A única coisa que você tem a fazer, é torcer para que o teu ônibus chegue primeiro que o dele, e torcer para que não seja o mesmo que o dele. Se isso acontecer e o ônibus estiver vazio, procure sentar-se no fundo, normalmente ele vai querer ocupar os da frente. Mas se o teu ônibus estiver lotado e ainda por cima for o mesmo do teu algoz, não tente reagir, entregue os teus ouvidos na hora. Quando for a pontos de ônibus, escolha os que não ficam próximos a supermercados, porque os puxadores de assunto, depois que o papo já começou a rolar, costumam também exigir favores. Se você der o azar de encontrar um deles em dias de quinta-verde, a situação se agrava. Portanto, não se assuste se um deles te pedir que você corra até a seção de verduras e traga uma cebola, uma batata, uma maça que ele esqueceu de trazer enquanto fazia a compra.
Supermercado é também outro lugar bastante perigoso, onde todo cuidado também é pouco. Além do velhinho, existe a versão feminina da velhinha sorridente, que age quase sempre de forma aparentemente inofensiva. A princípio, ela chega pedindo apenas que você olhe para ela qual é o preço no pacote de café. Depois, ela sai agradecida, demonstrando que nunca mais vai te encontrar. Porém, ela sempre retorna e te reencontra na seção ao lado. Nesse momento, vocês dois já se tornaram íntimos, de maneira que ela já pode te dizer todas as opiniões políticas e econômicas dela. Então ela te despeja uma série de revoltas: “os preços estão absurdos”, “o atendimento no supermercado está péssimo”, “os produtos estão vencidos”, “os folhetos são mentirosos”, “a propaganda na televisão é mentirosa”, “ a novela está sem-graça”, “o governo é corrupto”, “tudo era melhor na época do Sarney”. Não obstante, a coisa não para por aí, logo ela passa a interferir nas tuas escolhas, dando palpite em quais produtos você deve levar; o mais barato, o de melhor qualidade, a melhor marca, qual marca mais tradicional, qual rende mais, etc. Lembre-se: o melhor que você tem a fazer é ficar sempre calado. E cumprir direitinho o seu serviço de ouvidoria. Ainda no supermercado, outro momento de alta periculosidade é quando você vai ao banheiro. Pois lá sempre existe uma versão mirim dos puxadores de assunto. O menininho perdido. Aquela velha história, do filho pequeno que diz à mãe que ele quer ir ao banheiro, a mãe o leva e diz: “fica aqui, que daqui dois minutos eu já volto!”. A mãe nunca volta em dois minutos. O menino acaba de fazer o que tem para fazer e volta com as calças ainda arriadas à procura de sua mãe. Logo ele arma o berreiro em frente às portas. Você sempre se penaliza, se sensibiliza com o caso. Entretanto daí em diante você terá que lidar com um dos casos mais graves de puxador de assunto, porque na verdade, ele não chega a ser um puxador de assunto, é apenas um puxador de choro. É você quem tem que puxar assunto. É uma árdua tarefa, pois a cada pergunta que você faz para ajudá-lo, ele dá apenas um novo acorde de choro, afinal você está lidando com puxador de assunto que é treinado para não dar assunto para ninguém. Das duas uma: ou você corre e deixa o garotinho em desespero, ou se vinga nele de todos os puxadores de assunto que você encontrou na tua vida, fazendo todas as formas de interrogatório possíveis, fazendo de tudo para ser ouvido por quem não quer te ouvir de jeito nenhum. Ainda no supermercado, no estacionamento, você pode ser abordado por outra forma ainda mais nociva de puxadores de assunto, os flanelinhas ou trombadinhas. Eles chegam contando histórias mirabolantes de que a mãe está doente, o pai está doente, que estão com fome, que precisam inteirar para pagar o passe de ônibus. Tudo para arrancar alguma moedinha de você. Os puxadores de assunto sempre querem alguma coisa de você. Por isso talvez, as meninas devam sofrer mais com milhares de manés que surgem por aí contando as asneiras.
Outro lugar que você deve evitar o máximo possível é o banco. Nele, os puxadores de assunto, acham que todos que estão na fila, são analistas ou podem resolver a desconfortante situação. E vêm esparramando lamúrias a torto e direito: “salários baixos”, “os juros abusivos”, “a fila que não anda”, “só tem um caixa atendendo”. E por aí vai... Outro personagem bastante comum é o office-boy. Existem dois tipos dele. O primeiro é aquele que quer parecer advogado ou executivo da firma em que trabalha. Esse chega todo engomadinho, de roupinha social, perfumado (embora já suado), cabelinho com gel. Daí a pouco, ele começa a reclamar que tem que andar rápido o atendimento porque ele “tem ainda uma série de compromissos pelo resto da tarde”. Na verdade, o que ele tem é uma porção de carnês e boletos para pagar nas lojas do centro da cidade, e vem com esse papinho de “compromissos”, insinuando que tem uma infinidade de reuniões importantíssimas e inadiáveis. O outro office-boy é o tipo mais desprendido que existe. Esse faz questão de mostrar que é adolescente. Chega vestido de roupa moderninha, brinco na orelha, bonezinho pra traz. Ele sempre dá uma de pegador. Ele sempre acha que tem um na fila que é truta dele. Daí ele começa a contar dos embalos de sábado à noite, como se o seu interlocutor realmente estivesse muito interessado na conversa. À medida que a fila vai diminuindo, tanto o office-boy moderninho, como o social, fazem novas amizades, procuram novas pessoas com que dialogar. Será tua sorte se você tiver muito à frente, ou muito atrás deles, e se livre de uma vez por todas do banco e dos puxadores de assunto.
Às altas horas da noite, os puxadores de assunto também estão à solta, de plantão, ainda por cima mais sensíveis, dispostos a conversar com qualquer um. O corriqueiro bêbado pode ser inevitável nessas horas. Ou ainda o viajante. É isso, sobretudo se mais uma vez você estiver em ponto de ônibus. O puxador de assunto viajante chega meio desnorteado, te perguntas que horas são, senta e de repente, não mais que de repente, solta: “acabei de chegar de viagem”. Não tente ser estúpido e simplesmente lhe responder: “e eu com isso?”. Ele pode ainda ser mais agressivo ou mais dramático e melancólico. Lembre mais uma vez: tudo que você tem a fazer é ficar quieto! Agressivo jamais! Deixe que o viajante conte de sua viagem. Ele vai te dar em detalhes toda a viagem que fez. Os lugares que visitou, as coisas que comprou, as pessoas que conheceu, os parentes que reviu, etc. É claro que é inevitável que ele faça comparações com o lugar que ele visitou e a tua cidade. O que você tem a fazer é escutar, já que pelo visto você tem mesmo vocação para atendente do CVV.
Saiba: conversas de puxador de assunto jamais serão agradáveis. Se ele está se dispondo a conversar com você que é um estranho, é porque todas as pessoas que ele conhece já não agüentam o papo dele, o cara pode ser realmente insuportável. Ou simplesmente carente. E outra, as pessoas com quem você gostaria de conversar, dificilmente virão falar com você. Elas já têm gente demais para falar, não vão querer falar com um estranho. Sendo assim, o jeito é você se tornar um puxador de assunto de vez em quando. Então é sempre bom que você tenha toda a paciência do mundo com os puxadores de assunto. Afinal ninguém sabe o dia de amanhã, você pode se tornar um deles. Seja mais compreensivo. Para muitos a rua é um abrigo, juntamente com supermercados e bancos. Na verdade não é a inconveniência que cria puxadores de assunto. É a solidão, a carência, a vontade de falar com alguém, a vontade de ser ouvido, de ouvir a voz de alguém, ainda que seja um desconhecido. Os puxadores de assunto por mais chatos que possam parecer, não são chatos, são mendigos, mendigam sentimentos, compaixão, diálogos. Mendigam palavras, como poetas medíocres em busca do verso. Por isso os assuntos são desagradáveis. Mas no fundo só querem registrar sua existência, a vontade de alguma coisa que querem, mas não sabem o que é, ou não querem dizer, ou não sabem como dizer, como poetas medíocres. Não há como fugir dos puxadores de assunto, eles são muitos.





t.c.s.










segunda-feira, 9 de junho de 2008

Kawabata e as prisões do ser humano


Yasunari Kawabata fez muito mais que livros, sua concepção de como contar uma história ia sempre além de incluir significados na espuma leve do texto; a busca dessas vivências para o leitor deveria ocorrer no corpo cavernoso dos detalhes. A Casa das Belas Adormecidas é assim, muito mais que só um texto sobre ninfetas dormindo para o deleite de "velhos decrépitos", e sim um mergulho na grande luta do ser humano, tentando conviver e sobreviver às prisões que a vida lhe impõe.

Toda a delicadeza com que conseguia forjar "insólitas associações e metáforas táteis, visuais e auditivas que surpreendem por revelar os processos de fragilização do ser humano diante do cotidiano", ainda não diz tudo sobre essa intensa luta que o velho Eguchi trava nas noites mal (mesmo que bem acompanhado) dormidas, com esses entraves quase invisíveis da nossa vida.
O nosso dia a dia é um dos vilões, cheio de nuances, possibilidades, ambigüidades. Em vigília criamos barreiras para não deixar transparecer os nossos pequenos infernos pessoais, o corpo é um exemplo disso, sendo um invólucro que envelhece e se enfraquece e lidamos com essa e outras complicações da nossa vida muito mal; as recordações movidas pelas livres associações, onde como dizia Freud "o inconsciente é o próprio psíquico e a sua realidade essencial" é outra dificuldade; a atmosfera de sonhos onde "há um conteúdo manifesto que recordamos e contamos quando acordamos, que nada mais é do que pura fachada, máscara" também. São nesses universos que circulamos, num misto de concretudes e abstrações. São essas as pontes que Kawabata levanta ou demole na passagem do seu texto.

O livro conta a história de um velho que descobre, através de outro idoso, um local onde ele poderia passar a noite ao lado de uma jovem virgem, nua, adormecida quimicamente, fato que acende na nossa personagem um último resquício de desejo e talvez os últimos de moralidade, mas uma vez instalado na cama o que vemos é ele ser remetido ao reino das lembranças e também do onírico. Uma vez dentro desse quarto, ao lado de sua "bela adormecida", transborda o duelo entre o real e o irreal, ou como dizia Breton: "tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde", talvez seja para não perder essa crença na vida real que o velho Eguchi procure o local; uma vez nele, é como se penetrássemos numa via de várias possibilidades.

O que existe de concreto e pode ser tocado, a "chave comum", o cigarro, as cortinas que "pendiam nos quatro lados do aposento", a porta, a garota com a "mão direita até o punho para fora da coberta", se mistura à atmosfera de irrealidade que se instala diante da "surpresa de ser conduzido de repente para fora do real de sua vida cotidiana". Pronto a cena, o que vamos assistir então é essa mistura de sensações, de mundos. O corpo nu, morno ao seu lado, é a porta de entrada para recordações pungentes, logo Eguchi se perde entre o presente, tão irreal quanto os agora fatos passados, "bem modesto é agora o seu quinhão: sabe as mulheres que possuiu, as ridículas aventuras em que se meteu", já falava Breton no Manifesto Surrealista. "Nos seus 67 anos de vida, o velho Eguchi com certeza conhecera noites deploráveis. E essas noites lhe deixaram marcas das mais inesquecíveis. O deplorável não provinha da falta de beleza física das mulheres, mas de suas tragédias, suas vidas infelizes", o caminho para dentro de si, pode ser a salvação, e logo "recordações secretas" o alcançam.

Essa metáfora do quarto como sendo a nossa memória é comum na literatura, Kawabata não foge dela mas a amplia no limite pois as ações são mescladas e quase podemos vê-las ocorrendo ao mesmo tempo, embevecido com um seio jovem (que tem para ele um “formato tão belo”), deitado numa cama aconchegante, tendo, entrado numa viagem de reminiscências, quem sabe a sua última viagem e quem sabe “a última mulher da minha vida?”. Surgem cidades, Kyoto, com a “ferrovia de Hokuriku”, as “camélias despetaladas em plena floração”, um hotel em Kobe com uma amante.

São nesses momentos que podemos entender o que separa um grande autor dos outros reles mortais ou aprendizes de feiticeiros, um bom livro fica tanto quanto melhor, conforme a quantidade de caminhos que temos que trilhar para entendê-lo. A decrepitude do corpo, onde “já que a menina não acordava, o cliente idoso não precisa envergonhar-se do complexo de senilidade, e ganhava permissão de perseguir livremente suas fantasias a respeito das mulheres e mergulhar em recordações”, é onde nasce o reino das lembranças, amargas para quem não pode fazer mais do que ver e sentir “um êxtase inconsciente”; sendo o próximo passo o sonho “e o velho Eguchi sonhou”. Reinos misturados onde conforme Breton “alucinações, ilusões etc são fonte de gozo nada desprezível”.

Aparentemente a pequena história, com um quê de romântico pervertido; um velhinho nos últimos dias da vida, uma jovem adormecida que não sabe o que acontece enquanto dorme; logo tudo transcende, a velhice não é o melhor dos mundos, e é no mundo da imaginação, das memórias que todos nós nos refugiamos durante a vida toda, mas o fazemos pelo puro prazer de sonhar coisas belas, momentos de preparação para alcançar o sublime, concretizar planos. Só que é para esse reino que nos mudamos na terceira idade, agora presos ao invólucro do corpo, as lembranças não são mais só uma fuga prazerosa e sim um calabouço onde sonhos e pesadelos se misturam ao concreto e ao impossível da vida; vida essa, que nessa etapa, não tem nada de “melhor idade”, e quase sempre é de faltas e não de sobras, onde podemos vislumbrar só “uma luz misteriosa na profundidade das trevas”. E quais são as prisões do homem? O corpo e a mente...o concreto e o abstrato, vivemos entre esses universos diariamente mas na velhice ele não é mais uma janela prazenteira e sim com grades e alarmes nos lembrando que o tempo passou e nos enroscamos desastradamente nos fios da vida.

s.o.

sábado, 7 de junho de 2008

Grandes Esperanças - Resumo da ópera


Grandes Esperanças é o segundo dos romances de Dickens em que o herói conta sua própria história, e parece uma tentativa de preencher o que não foi dito em David Copperfield. Conta a história de Philip Pirrip, ou só Pip, como ele mesmo se contenta em chamar. Órfão de pai e mãe, mora com a irmã que é casada com Joe Gargery, o ferreiro. Pip tem por acaso a oportunidade de se tornar fidalgo, e se transforma num pequeno e desprezível esnobe. Começa com o pequeno Pip visitando o túmulo de seus pais e irmãos, mas essa bucólica cena, pelas mãos de Dickens, já é transtornada por um fugitivo d galé-prisão, que ataca violentamente o menino e, com ameaças, o obriga a jurar que voltará no outro dia com comida e uma serra. Nesse pequeno capítulo já percebemos toda força da narrativa dickensiana.

Passado esse medo inicial, que o atormentará por toda sua vida, Pip é mandado por sua irmã e seu tio Pumblechook, para visitas periódicas à Srta. Hawisham, velha e rica que foi abandonada no altar e por conta desse fato parece que sua vida parou no tempo e na determinação de, através de sua sobrinha Estelle, se vingar de todos homens. É nesse ambiente que Pip se apaixona por Estelle, é nesse lugar que tecerá algumas de suas “esperanças”. O relacionamento da Srta. Hawisham e de Estelle é como o de uma professora e uma aluna aplicada e Pip é um mero brinquedo nas mãos das duas. Sem a malícia necessária em tal situação, suas idas nessa casa, durante um bom período, não parece mudar em nada sua situação, temos um Pip puro, ingênuo e bom. Quando alcança a idade de 14 anos, tem que começar a trabalhar como aprendiz na oficina de Joe Gargery, o faz, mas não é com muito prazer. Até que sua sorte muda e recebe misteriosamente uma renda mensal de um doador desconhecido, que Pip crê ser a Srta. Hawisham, em um dos seus surtos esperançosos, sendo, acredita ele também, tudo uma preparação para que futuramente possa se casar com Estelle. Mas Dickens não entrega assim de mão beijada sua criação, seus heróis tem que passar pelo purgatório para merecerem o céu.

Pip deve sua renda misteriosa ao condenado com quem, na sua infância, fizera “amizade” nos charcos. O próprio Abel Magwitch (o forçado agora chamado de Provis) era filho de um pobre funileiro que, “desde quando se entendeu por gente roubava nabos para viver”. Mais tarde ele fora explorado por um patife da nobreza (por acaso o mesmo que abandonou Srta. Havisham no altar) que se tornara escroque e que deixou Magwitch ser surrado quando ambos caíram nas mãos da lei. O pobre plebeu ficara impressionado com as vantagens que a condição social de seu companheiro - fora mandado para uma escola pública – lhe conferira aos olhos do tribunal. E, quando mais tarde Magwitch prosperou em Nova Gales (onde se encontrava banido pela lei inglesa), decidiu fazer de Pip um fidalgo. Desse modo Pip se viu numa situação em que o dinheiro que o prendia a Magwitch se não o associava a uma pobreza e ignorância mais abjetas do que aquela da qual escapara, o colocara sob as ordens de um indivíduo que representava para ele a escória do submundo, um homem com um preço sobre sua cabeça. Não apenas isso, mas a orgulhosa lady – que conheceu Pip na sua primeira fase e o desprezava tendo-o em conta de um simples menino de aldeia – é apresentada como sendo a filha de Magwitch e de uma mulher que tinha sido julgada por assassinato e que ora está empregada na condição humilde de governanta na casa do advogado que a defendeu.

O símbolo aqui são as “grandes esperanças” que tanto Pip como Estela alimentam: eles são a imagem do otimismo vitoriano do meio do século. Estela e Pip acreditaram ambos que poderiam contar com uma rica patroa, a herdeira de uma fábrica de cerveja então parada, para lhes assegurar contra a vulgaridade e as privações. Mas a patroa desaparece como um fantasma e eles ficam com os costumes de lazer da classe, sem as rendas suficientes para mantê-los. Eles tinham a princípio de se perderem um do outro também, Estela devia se casar por dinheiro com um gentil-homem do interior e Pip nunca mais a veria senão por breve instante em Londres. Eis a última esperança de Pip, que acompanhamos com interesse, pois vemos ele passar por todo um ciclo psicológico. No início, ele é simpático, em seguida, por um processo mais ou menos natural, ele se torna antipático, tornando-se depois de novo simpático. Ali os efeitos tanto da pobreza como da riqueza são vistos de dentro de uma só pessoa.

Nesse processo de transformação pelo qual passa acompanhamos então sua vida numa Londres próspera, e dentro dessa sociedade Pip alcança o céu e o inferno. Sempre suas “grandes esperanças” são demolidas, Estella se casa com uma pessoa simples, porém, desprezível, somente pelo dinheiro; Srta. Havisham se mata e não é sua benfeitora; Joe se casa com Biddy, professora que era apaixonada por Pip, antes dele sair da sua cidadezinha; Magwitch, o forçado se apresenta como seu protetor o que lhe causa extremo horror e vergonha. É nesse processo de perder, ganhar, viver num patamar bem maior que poderia, enfrentar seu passado, tanto diante da Srta. Havisham, Estelle ou Magwich que podemos perceber o amadurecimento de Pip, sua transformação se dá de maneira completa através do sofrimento.



s.o.