quinta-feira, 8 de maio de 2008

No caminho da palavra



Houve um tempo, segundo Calvino no seu Cavaleiro Invisível, que "era uma época em que a vontade e a obstinação de existir, de deixar marcas, de provocar atritos com tudo aquilo que existe, não era inteiramente usada, dado que muitos não faziam nada com isso - por miséria ou ignorância[...]"; esse tempo ressurge em Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Considerado pela crítica especializada (ela existe?) como um romance social ou do ciclo da seca, é assim repassado a quem interessar possa. Abandona-se um longo e pedregoso caminho, apequena-se possibilidades que o autor levou às últimas conseqüências. Analisado de modo simplista, os ingredientes estão todos lá, a caatinga, os viventes, as aves de arribação, os animais mortos, urubus que "arrancam olhos". Uma vez ultrapassado esse primeiro contato, um novo mundo se descortina ao leitor; caímos no reino do onírico, das prospecções dos abismos da alma, da incomunicabilidade, do pesadelo, da condição humana como um fardo da existência, e temos uma busca paradoxal no encalço da linguagem, da palavra que falta, que grita, que pode salvar.

As personagens atravessam a narrativa perdidos entre tempos desconexos, são retirantes, vagam atrás de um lugar melhor, mas, principalmente, buscam um espaço onde possam estar nesse mundo. Suas ferramentas são parcas, se comunicam, ou ao menos tentam, guturalmente. O papagaio arremedava a todos, pois os sons eram puramente onomatopéicos. Transbordam de vazios incompreensíveis, se ressentem dessa falta maior: a linguagem. Quando Fabiano descobre que os filhos "têm idéias", se assombra; o crescimento deles, essa possível curiosidade cria "uma perturbação que sente", pois para ele é mais simples ensinar a praticidade do trabalho. Seus pensamentos quase transbordam pois se lembra do amigo Tomás da bolandeira, o "mais arrasado homem do sertão", "porque lia demais". Segundo Fabiano "pessoa como ele não podia aguentar verão puxado". Temos aqui um darwinismo total, no sertão até os fortes tem dificuldades de sobreviver, por isso é preciso ser forte e simples sempre, pois a morte está sempre se "avizinhando a galope".

Através das técnicas freudianas do fluxo da consciência, as personagens travam seus diálogos silenciosos. Tudo se conecta e se perde em instantes. Fabiano diante do soldado amarelo pensa que diz e não fala, quando fala não diz: "Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto etc. É conforme". Graciliano entrecruza o seu texto com conjugações verbais que desnorteiam o leitor, passado, presente e futuro se misturam, criando atmosferas oníricas, de sonhos ou pesadelos. Preso Fabiano na cadeia e na falta de linguagem "queria berrar para a cidade inteira"; a fuga de um drama se dá recordando de outros piores, mas conhecidos, assim logo devaneia com a seca e com suas faltas. Sinhá Vitória sofre com seus pensamentos que flutuam num ir e vir monocórdico, desfragmenta-se, chega a duvidar até do que está pensando: "Encostou o fura-bolos à testa, indecisa. Em que estava pensando?". Como passamos o texto lado a lado com o narrador, nos perdemos nesse descaminho, onde estamos agora? Quem está pensando o quê? É tênue esse limite, só sabemos que o narrador é culto e que nossos heróis são capengas no falar, limitados e flutuantes no pensar. "Nesse ponto as idéias de sinhá Vitória seguiram outro caminho"; é assim como um carro de bois, aos trancos e barrancos, que a história segue. Quando Fabiano diz que sinhá Vitória tinha "pés de papagaio" isso faz com que ela se lembre do papagaio que virou almoço e logo a seguir da seca, pesadelo maior e que sempre volta num eterno retorno.

Graciliano consegue, e talvez seja um dos melhores nisso, introduzir no texto imagens translúcidas, aproveitando para, através delas, alcançar as prospecções dos abismos da alma; suas fraquezas, seus desejos, suas surpresas e indignações. Os meninos quando chegam à cidade se admiram de tudo “Impossível imaginar tantas maravilhas juntas”. Sabemos quando estão desconfortáveis e queremos até ajudar nesse momento ruim, para Fabiano a roupa nova é como a prisão; os pés de sinhá Vitória doem horrivelmente. Estar assim entre tantas sensações reais e outras devaneadas, desnorteia. Leitores e personagens ficam como que perdidos “Impossível readquirir aquele instante de inconsciência” avisa o narrador; Fabiano rebate nesse diálogo que parece só deles “- Como a gente pensa coisas bestas”. De monólogo em monólogo nos assustamos quando Fabiano se pergunta “Quantos anos teria?”, perdido e despersonificado, ele existe mesmo ou é só um sonho?

Mas é na busca da palavra, de uma linguagem que os recrie, que Graciliano se esmera. É uma batalha feroz, todas as personagens sentem falta ou são surpreendidos pela palavra: o menino mais novo quer falar, faltam-lhe esses apetrechos verbais. Admira o pai e não consegue exprimir isso. O menino mais velho aprende a palavra inferno, quer saber o que significa, mas sem ter como lhe explicar “sinhá Vitória aplicou-lhe um cocorote”; ele “tinha um vocabulário tão minguado como o do papagaio”, acha que “todos os lugares conhecidos são bons”; a descoberta da palavra inferno já é uma admiração. Quando se reúnem em volta do fogo no inverno (e assim se assemelham aos homens das cavernas ou até às sombras da caverna de Platão) sentiam necessidade de verem o rosto de Fabiano para tentarem decodificar o que ele falava, pois é como se assim fosse possível domar as palavras que saiam da boca dele.

Nessas histórias contadas à luz de fogo, Fabiano mente, aumenta, reconta com palavras diferentes (como se fosse possível), o filho mais novo não gosta “Teria sido melhor a repetição das palavras” avisa o narrador que diz também que o menino “Brigaria por causa das palavras”. Na festa da cidade, os meninos se maravilham com tudo e “nova dificuldade chegou-lhe ao espírito, soprou-a no ouvido do irmão, provavelmente aquelas coisas tinham nomes”; e assombro maior “Como podiam os homens guardar tantas palavras?”, pois “livres dos nomes, as coisas ficavam distantes, misteriosas”; é a mesma surpresa que teve Cortéz, conquistador do México, que numa carta para o rei da Espanha diz: “eu queria falar de outras coisas da América, mas não tenho a palavra que as define nem o vocabulário necessário”. Quando sinhá Vitória é capaz de pensar lógicamente, cortando caminho: “as aves de arribações matam o gado”, Fabiano se admira, a considera muito esperta e sente-se feliz por tê-la como companheira. E na hora da fuga, quando o sertão está novamente em brasas é devaneando nas palavras de sinhá Vitória que Fabiano encontra forças para continuar: “As palavras de sinhá Vitória encantavam-no”. “E andavam para o Sul, metidos naquele sonho”. Sonhos trazidos pela palavra, ou palavras que levam ao sonho, mas de toda maneira palavra que é a única que salva quer seja na vida ou no devaneio.



s.o.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Fabrício Carpinejar


Fabrício Carpinejar, Poeta, Jornalista, Mestre em Literatura, Gaúcho, 35 anos. Tem doze livros publicados. Seus textos são marcados principalmente pela arte de poetizar o cotidiano, enxergar a beleza oculta nos acontecimentos mais corriqueiros. Em seu mais recente livro, Meu Filho, Minha Filha, decanta as sensações paternas diante do universo infantil. Também traz sempre novidades poéticas em seu blog, no qual publica crônicas quase diariamente. Além disso, viaja por todos os cantos do país liderando palestras nas quais trata da Literatura sempre com o máximo bom humor, deixando os participantes sempre num clima de imprevisibilidade e de riso quando Carpinejar começa contar as histórias dele, supostamente biográficas. Recentemente esteve em Campo Grande, onde presenteou a cidade com mais um módulo de sua Oficina de Construção Poética e nos intervalos desta, nos concedeu uma entrevista-bate-papo

Fabrício, como seus filhos receberam Meu Filho, Minha Filha?

Fabrício Carpinejar: Eles não têm obrigação de receber. A Mariana leu e disse: “- ótimo... exagerou um pouco...”. Eu li alguns poemas pro Vicente, ele tem seis anos agora, ele disse “- vamos jogar futebol agora?”. Eu não escrevi o livro para a minha família, eu escrevi o livro pra sair dela, para tentar reequilibrar a figura do pai, porque é uma figura ainda muito subestimada. O pai não tem realmente os mesmos direitos que a mãe na justiça, o pai, pra ficar com o filho, ou a mãe não quer ou haverá maus tratos, mas se a mãe é boa, como realmente todo mundo quer que seja, não tem igualdade de condições.

Explique “eu deixei de ser teu pai para ser a pensão da tua mãe”...

F.C.: Isso é a coisa mais difícil pela qual um pai pode passar. Eu pagava a pensão pra minha filha, em acordo verbal, e de repente eu recebo: “Mariana Carpi Nejar versus Fabrício Carpi Nejar”, é um baque. É uma violência simbólica. Eu acho legal a pensão, mas é uma violência simbólica você perceber que é real da tua filha. É uma violência simbólica, sem que a criança saiba, porque a criança não tem como pesar isso. Tem de ter um cuidado para o pai não sangrar, porque se o pai sangra o filho sangra junto; da mesma forma, se eu atingir a mãe dela, eu estou atingindo minha filha. Como é que eu vou atacar a casa dela? Colocar a pedra no chão é muito mais difícil que arremessá-la...

Então pisa-se em cacos, sem direito a revidar?

F.C.: Eu acho que é uma mistura trágica da figura do marido e da figura do pai. Muitas mulheres não conseguem distinguir, elas acabam tratando do marido, esquecendo que ele é pai. A criança vai receber o quê, vai receber o pai ou o marido da mãe? O marido. “Ah, ele me abandonou, ele não me amou, ele foi um canalha...”, de repente o cara foi um ótimo pai pra criança, e pra criança ele é tudo de bom. Acaba criando um adepto, correligionário; isso é terrível, e a criança acaba depois na adolescência cobrando do pai.

Fabrício, você acha que a juventude lê pouco? Se sim, que motivos você atribui a isso?

F.C.: Acho que a juventude não lê pouco, lê tanto quanto antes. Talvez ela não leia tanto livro, mas ela lê. Na internet, por exemplo, ela tem mecanismos de leitura: revistas digitais, sites, blogs. Eu acho que ela está perdendo um pouco a seqüência, ela está perdendo o enredo. A gente está transformando a leitura num zap de tevê.

Isso é bom ou ruim?

F.C.: É outra tensão, muito mais dispersiva, mas eu não sei até que ponto isso é ruim. Antes criticavam a minha geração, que é a geração da tevê, dizendo que ela seria totalmente alienada, e a geração do videogame, e descobriram que essa é a geração mais concentrada, pois o videogame ajuda na fixação das imagens. São tabus. O mercado do livro caiu muito, mas eu não sei se diminuiu a leitura. Talvez seja uma época da safra dos romances exóticos: se tem um romance, por exemplo, da Ásia, todo mundo quer ler, o pessoal quer fugir dos seus problemas.

Informação, conhecimento e sabedoria: o jovem ele tem acesso à informação pela internet, mas ele tem de processar essa informação para que ela se transforme em conhecimento, e sempre estar se reciclando, para que esta informação vire sabedoria. O jovem não está tendo um excesso de Informação, sem que consiga alcançar o resto?

Não é um problema só do jovem, também é do adulto. Há uma precocidade no texto, que atinge todas as faixas etárias. O que nos dava um elo eram as histórias da família. A contação de histórias, porque a nossa fonte é a família; a gente confirmava as informações como os pais. Isso está se perdendo, a gente não tende a reconhecer a sabedoria dos mais velhos, porque ficamos distante deles. Se alguém vai contar uma história para nós e fica dando voltas, a gente já sai de casa.

Na lista de livros mais vendidos, chovem Dans Browns, Caçadores de Pipas, Paulos Coelhos. O mundo emburreceu?

F.C.: Não, é exotismo. Porque tu vai ver que tem livros bons ali. A gente não pode dizer que Caçador de Pipas é ruim, bem melhor que Paulo Coelho. A Menina que Roubava Livros é um bom livro, Reparação do Ian McEwan é um romance muito bom, é deprimente no começo, depois é um sufoco voltar para casa e ser feliz, um sufoco!

A literatura hoje parece uma necessidade das pessoas de afirmação, de encontro, é uma busca individual. Seria essa a razão do sucesso desses livros?

F.C.: O grande marketing do livro ainda é o boca a boca. São livros que um recomenda ao outro, uma inveja, “- ah ele tem esse livro? eu quero ter". Reparação entrou na lista, foi lançado há mais de cinco anos. Ele foi relançado, em função do filme, assim como Tropa de Elite, assim como Meu Nome não é Johnny... porque atinge um grande público, sai daquela casta dos iniciados.

É uma literatura mais fácil?

F.C.: Vá lá: Morte e Vida Severina, virou seriado de TV, é um poema dramático, um auto de Natal de João Cabral de Mello Neto. Na época que virou um seriado de TV o livro despontou, é um livro absurdo, mas é um belo livro e teve uma ótima adaptação, assim como Grande Sertão: Veredas. É justamente a adaptação que vai fixar o livro.

Seria uma espécie de popularização, de treinar a deglutição do livro?

F.C.: É exatamente. O importante do livro é ser lido. Aliás, nem sei se os livros da lista são lidos, são comprados, isso eu tenho certeza, comprados são, está na lista.

Muitas vezes, entre o livro e o filme, a pessoa opta pelo filme, e não lê o livro porque ela acha que ali vão estar todos os elementos que tem no livro...

F.C.: Em alguns momentos o cineasta acerta, o Reparação é muito fiel ao livro, Meu Nome é Johnny é também é muito fiel. Não sei...

Desse modo a pessoa não lê o livro.

F.C.: Sim. O pior é que no Reparação eu não li o final do livro, não quis ler o final, aí eu fui ao cinema para assistir, sabe o que aconteceu? Faltando dez minutos falta luz no shopping...

Castigo...

F.C.: Total, vou ter que voltar a ler o livro.

Você acredita que em um autor vida e a obra se misturam?

F.C.: Não pode terminar na vida do autor, mas pode partir dela; Tu quer a vida dele, só que não é biografia, é literatura. Eu tenho medo de encontrar os autores que eu gosto, tenho uma imagem tão bonita e cativante deles, e de repente, o cara não é espirituoso. Muitas vezes tu coloca na obra aquilo que tu não é na sua vida, isso tem que ser levado em conta, é uma saída. Eu faço questão de confundir minha vida com a minha obra, é uma delícia.

Você não tem medo de daqui alguns anos sair uma tese analisando você e sua obra?

F.C.: Eu não sou polícia para reprimir, mas a minha vida é inventada, por isso eu sou biográfico. Nem a minha mãe sabe o que é real ou mentira, eu confundi tanto a minha mãe que tu pode perguntar para ela, que ela não vai ter certeza.

Vamos fazer um exercício de imaginação kafkiana: você vai perder um dos sentidos. Qual o poeta Fabrício Carpinejar escolhe pra ficar sem?

F.C.: O nariz é o meu latifúndio improdutivo. A questão do ouvir para mim é muito importante, ouvir uma música, o ritmo. O tato é minha visão, antes de tudo. Uma mulher, por mais exuberante que seja, precisa ser vista com o dedo, com o toque. A visão não é a fundamental, ainda mais se eu perdesse hoje a visão: eu já teria como encontrar as coisas. O cheiro, assim, ver pelo cheiro... não sei, é uma pergunta islâmica essa....

O que mais te encanta então?

F.C.: O que mais me seduz é a narração, se ela me conta uma história é muito mais que visual, eu sou aficcionado por Mil e uma Noites em função disso, ali eu acho que trabalha essa questão, a fantasia, seduzir, explorar, saber provocar, ter personalidade para fazer isso, senão é “ah não sei”, “ah não quero”, “faz o que tu quiser”, isso é tão chato, “escolhe você”, não ter personalidade nenhuma, uma submissão, seguir o que outro está fazendo, seguir o que ela tá fazendo, não. Você pode escolher, mas eu quero ver a outra pessoa escolhendo, tem que saber errar também.

Suas palestras são sempre muito explosivas, e suas aulas também são assim. Você acha que a monotonia dos professores colabora com a inércia e a falta de interesse dos alunos?

F.C.: Tem que ter a questão do confronto, o aluno ele precisa ser incitado, não é para ser uma amizade fácil, precisa ser uma amizade estimulante. O desejo do escritor e do professor é que o aluno realmente o supere. O aluno precisa se superar, precisa questionar, e ser questionado. Gosto muito de ensiná-los, o que pra eles é apenas mais quatro horas para mim é tudo, aquilo para mim é minha vida. Isso interfere, a diversão também, você tem que se divertir na sala de aula.

Pode haver conteúdo e show numa mesma aula?

F.C.: O conteúdo é o show. Ter um conteúdo que é explosivo é show, mas o professor tem que ter sustentação psicológica, emocional, porque ele encontra resistência, retração. Chegar numa aula e falar coisas que as pessoas não admitem que possam ser ditas numa sala de aula, como sexo, por exemplo, ainda trava as pessoas.

Você leria o texto Involuntariamente Pornográfico - numa sala de aula?

F.C.: Sim, é um texto feito para isso, pra provocação, depois daquele texto, você acaba se sentindo invadido e reequilibra a intimidade. A gente tem vergonha de coisa que a gente não precisa ter, a gente precisa ter vergonha por exemplo da indiferença, da omissão, da competição. A gente precisa ter vergonha de um monte de coisa, vergonha do roubo, não vergonha disso, a gente acaba assumindo uma vergonha que não é pra ter vergonha, é o corpo é a liberdade do corpo.

Sexualidade: como você vê a maneira como as mulheres lidam com ela?

F.C.: As mulheres se cobram demais; elas querem ter respostas, respostas, respostas... A mulher assumiu um espaço que é delas, só que não deixou os espaços que ela tinha antes: continua com a casa, agora tem trabalho, agora tem que gozar, quer ser mãe; é muita coisa! O homem faz o que pode, a mulher quer a unidade, quer o conjunto, quer tudo, quer ser um pouco mais. Uma fome...

De abraçar tudo, de proteger tudo?

F.C.: É uma fome de mundo, de proteger, de se sentir protegida, de ser entendida, de ser explicada, porque para a mulher não basta sentir, ela tem que explicar o que está sentindo, o homem sente e não precisa explicar.

O homem ainda acha que domina o relacionamento?

F.C.: O homem não domina um relacionamento, o amor deve ser o único sentimento que dizima, que deserda. Eu sinto falta da dor de cotovelo, de chorar no bar por uma mulher, isso é bonito, descascar o rótulo de uma garrafa, beber até perder a consciência por uma mulher, sem contar outras situações vexatórias...

É uma falta de dignidade bonita?

F.C.: É luto. O homem é muito cobrado, tem de provar a toda hora que é homem. Passa a vida inteira provando que é homem, para os seus amigos, nas brincadeiras, escola, em casa. Quanto tempo nós demandamos da nossa vida para provar que somos homem? Muitos anos, pode somar, dá muito tempo! Por isso que eu acho que tem a inteligência gay. O gay não precisa provar que é homem, e também não é como a mulher que se cobra. Como tem tempo disponível, ele acaba sendo muito mais sofisticado na música, nas relações, muito mais amigo, muito mais humorado... Acho que os homens tem de aprender com a inteligência gay.

O gay está muito mais próximo da mulher...

F.C.: Mas é evidente. A mulher cobra do homem também masculinidade. Começa o relacionamento ela tá cobrando, e pode ser nas situações mais elementares, abrir a lata de pepino, matar barata, são obrigações de homem, trocar lâmpada, são obrigações de homem, não é? Carregar....ah pára; não, elas confundem homem com estivador.

Quando você encontra um livro seu no sebo, o que sente?

F.C.: Eu não me sinto rejeitado, mas têm poucos livros meus autografados no sebo. O público tem o direito de não gostar do que eu faço, e isso também é uma visão que o escritor precisa aprender, precisa absorver: a humildade. Quando que a gente escreve entramos numa certa paranóia de todo mundo ter de gostar, a gente condena os outros a gostarem da gente, não admitimos nenhum contraponto. De repente sua obra pode ser ruim, tu tem que aceitar isso. Ninguém tem a grandeza de te botar no chão, mas você precisa dar o direito de escolha.

Como você lida com as críticas?

F.C.: Se ela não ataca a vida pessoal, não é sarcástica, eu acho que é bom. Mas se ela não respeita minha vida pessoal, eu fico chateado mesmo. Se for uma crítica legal eu recebo numa boa, ainda mando “-agradeço a leitura do livro”, isso eu aprendi. O Faulkner dizia o seguinte: “escreve uma resposta, vai lá escreve uma resposta, depois lê, lê uma segunda vez, e rasga. Você já respondeu, só não precisa entregar”.

Como o povo gaúcho vê a sua poesia?

F.C.: Tenho uma empatia muito grande com o público gaúcho, a luz de Porto Alegre é uma luz coada, eu sinto falta. Às vezes se eu fico mais de uma semana fora de casa minhas personalidades cindidas começam a se afastar, só minha mulher para reunir minhas personalidades. A amizade ajuda a literatura, a literatura brasileira cresceu em função de grandes amizades, Drummond amigo do Fernando Sabino, que era amigo Rubem Braga, que era amigo do Hélio Pelegrino, que era amigo do Otto Lara Resende; um competindo sadiamente com o outro...

Estão faltando elos na literatura?

F.C.: Ambição, a ambição faz os elos. Na verdade, se uma pessoa é muito boa, você se afasta dela. Nem leu a obra nem nada, diz que é metido e tenta criar fofocas a respeito. Se tu percebes que tem um baita talento na tua época, o que não é uma coisa fácil, tu não vai dar força? Não vai chegar perto? É um crime!

Qual a coisa mais absurda que você já vivenciou como poeta?

F.C.: Tem uma história engraçada: eu fui convidado para celebrar um casamento, agora, no final de março. Já fui padrinho, já fui o marido, agora eu vou celebrar um casamento. Um casal de leitores da minha poesia parte do princípio que nada melhor que um poeta para celebrar o amor. Vou ser padre!

Qual a maior qualidade de Campo Grande?

A maior virtude de Campo Grande é a contação de histórias, então as pessoas elas são contadoras de histórias mas não lêem, isso é um paradoxo. Porque aqui acontece diferente de outros estados, no Rio Grande do Sul, se você é um contador de histórias, você lê, a contação de histórias leva pro livro, o livro leva pra contação de história, aqui a contação de história só leva para a contação de histórias, a pessoa não sente necessidade do livro, o livro é dispensável. Não sei se é pela ausência de bibliotecas familiares, não sei, pode ser. Porque se você forma uma biblioteca, você sabe que ali tem uma história pra ser contada. Eu não entendo porque aqui a literatura é vista como literatura não é como vida. Teu melhor dos relacionamentos é com a literatura. É que as pessoas não entendem a literatura como reflexo de uma atitude, como reflexo de uma vida, como reflexo de uma escolha. Você pode ser médico é a leitura que vai te tornar um médico melhor , se for psicólogo é a leitura que vai te tornar um psicólogo melhor, latifundiário, é a leitura que vai te tornar melhor. É o trato com as pessoas; só que eles percebem a literatura com se fosse...

Um universo paralelo?

F.C.: Um universo paralelo, é isso. Acham que não é necessário, que não é fundamental, que parece conversa de louco. Talvez o grande papel de todo o país seja formar leitores, não escritores, leitores sem a ânsia de publicação. Leitores jornalistas, funcionários públicos. Que lê o livro pelo prazer de ler, não por querer escrever.

É possível um leitor que não queira escrever?

F.C.: Claro que é! Grandes escritores são feitos desses leitores. Se a gente escrever para escritores, nosso público é muito limitado.

Um grande escritor não é antes de tudo um grande leitor?

F.C.: O grande escritor é um grande leitor, mas um grande país é feito de grandes leitores que não precisam escrever. Nós somos apaixonados pela literatura e a gente não consegue pensar nisso de forma diferente. Mas se tu pode apenas ler só pelo seu prazer e isso é que vai fazer a lista dos mais vendidos.

O que fica de Campo Grande pra você?

F.C.: Eu gosto muito daqui. Talvez sejam as pessoas de quem eu me aproximo, eu não sinto fingimento. Mas algumas coisas que acontecem aqui me incomodam: a falta de editoras, a ligação da literatura com a coluna social, a pouca sintonia entre a música e a literatura, a ausência de literatura urbana. Literatura urbana, cidade, cadê? Parece que tu não tá no Pantanal tchê,..... As pessoas falam: “eu estou escrevendo em Campo Grande, então eu tenho que escrever à moda Manoel de Barros”. E quem disse que Manoel de Barros reproduz a obra de Campo Grande? De repente não. É uma coisa que tem que se saber. Quem é nossa voz genuína? Mas no Rio Grande do Sul se você vai pegar tem uma literatura iminentemente urbana, já teve toda uma literatura que preservava o passado, uma literatura mais aguerrida, o romance histórico, assim por diante; depois teve outros avatares; mas hoje se você vai pegar, literatura urbana, tem um sentimento político, Paulo Scott tu sente a cidade, Daniel Galera tu sente a cidade, a cidade é personagem, Amílcar Bêttega, Porto Alegre tá lá, o cais tá lá, o morro tá lá, tudo tá lá. É maravilhoso deslizar por descrições das tuas ruas, e dizer: “eu passo por esse livro todo dia”, ver um filme e assistir a tua cidade ali. Acho que a partir disso tudo se abre.


* Entrevista concedida dia 14/02/08, no Hotel Jandaia em Campo Grande/MS.


Thanks 1: Fabrício pela hora de conversa "totalmente excelente" que tivemos, mais do que uma entrevista foi um bate-papo que podia se estender indefinidamente que, pelo menos nós, não reclamaríamos.


Thanks 2: Aline pelo MP3.


Thanks 3: Para a equipe de produção, ou seja, nós mesmos: s.o./t.c./g.y.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

A primeira vez num sebo


Confesso um pecado intelectual: nunca tinha visitado com tranqüilidade um sebo. Mas sempre tem a primeira vez. Acabo de sair de um. Ao me encaminhar para o ponto de ônibus fui meio zonzo ainda meio extasiado por tanta magia.
Ver as infinitas lombadas de livro é como ver uma multidão de mulheres maravilhosas de perfil, enfileiradas como dominós em pé. Agora inventaram o tal Estante Virtual, uma economia que nos rouba um prazer. Nada como o prazer de molestar os livros, folhear suas páginas, violar suas páginas, como se faz com o vestido da mulher amada. Aí que raiva, encontrei tudo que queria! E é justamente esse o problema. Encontrei tudo o que queria, só me falta encontrar todo o dinheiro que queria. Por mais que os sebos se apresentem com preços módicos, mas são tantas emoções! Dá vontade de levar tudo para a casa.
Nessas horas que reconheço a importância dos analfabetos funcionais. O que seria de nós se não existissem aqueles que não gostam de livros, que não os entendem? O que seria de nós se simplesmente não existissem aqueles que odeiam ler? Sebo é um orfanato de sonhos. Arrepio-me quando vejo páginas amareladas olhando para mim, dedicatórias que nunca me foram feitas. Uma sucessão de rabiscos que me enchem os olhos. Encontrar rabiscos em livros me faz me sentir menos só, pois há um diálogo entre mim e o leitor anterior e me dá certeza de que a leitura não é um prazer solitário. Quando leio meus cinco sentidos se despertam. Afago o papel, sinto o cheiro envelhecido ou o frescor da celulose, saboreio as palavras, vejo as palavras minuciosamente desenhadas como o sistema solar, ouço o tilintar da virada de cada página como uma lenta melodia.
Definitivamente a leitura faz as pessoas mais interessantes. Homens e mulheres não são mais os mesmos. As conversas são cada dia mais requintadas. Para muitos sempre seremos chatos, nerds, e ignorarão a nossa existência, a nossa convivência. Perdoe a eles senhor, não sabem o que fazem!
t.c.s.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Orfeu

Na hora da divisão das tarefas celestiais um anjo que adorava fazer nada fugiu do céu, vagou aqui e ali, um passarinho encantado brincando entre nuvens e crianças. Descobriram-no, cortaram-lhe as asas, ganhou nome e endereço pouco fixo, Cássia Eller. Do seu tempo divino restou a voz; ela era uma das sereias que cantou quando Ulisses voltava para casa. Pensava nisso quando ia para o show dela na tenda do parque das Nações, era a véspera do lançamento do Acústico, era a oportunidade de ouvir os gritos mais famosos desde que Cazuza tinha ido embora. Era a chance, e não sabíamos, de vê-la pela última vez ao vivo, viva. Ela que descobriu esconderijos na garganta, que tinha uma timidez espalhafatosa, ela que no palco se transmutava, como se tivesse nascido nele ou para viver dele.

Quando ela surge e, nós já enfrentamos o enorme vai-e-vém das pessoas procurando e desprocurando o melhor lugar, é como se o mundo ficasse no ar. Não seria sua voz quem segurava os Jardins da Babilônia? Sua banda é o melhor acompanhamento possível para o apocalipse que se forma dentro do circo. Aos primeiros acordes de Partido Alto somos acariciados por um elefante, estupidificamos nossas sensações, somos joguetes nas suas mãos de unhas roídas. É como se o céu abrisse e de lá viesse uma voz dizendo: "essa é minha filha preferida", seu canto quase nos arranca da arquibancada, nos sustentamos como podemos e a cada pausa não conseguimos sequer saber o que nos atropelou, mas ela logo pega nossa mão e nos coloca no caminho errado de novo.

Ela bebe algo, lembro que também estou com sede, hipnotizado não saio do lugar, ou melhor não páro de pular no meu lugar; começam os acordes de Segundo Sol e lá vamos todos saborear o que restou da ambrosia que ela se deliciava quando morava no céu. Ela não canta Malandragem e ninguém se lembra de pedir, ela ressuscita Kurt Cobain e nós seguimos nosso mestre de cerimônias. Ela sorri, brinca, sua carótida quase explode, "Hoomeem-Pássaroo"; Cássia é a, como dizia Cortázar sobre Louis Armstrong: "alegria dos homens que te merecem". No fim restam milhares de pessoas que procuram lentamente e sem vontade a saída, cada um perdido nos seus monólogos interiores, que segue repetindo, como se estivessemos dentro das ruínas circulares de Borges, e no meio dessa conversa (ab)surda Cássia ainda está ecoando tal qual Orfeu diante do trono de Plutão e Prosérpina, tentando levar Eurídice com ele.

É NOCHE DE VERANO

Pulsas, palpas el cuerpo de la noche,
verano que te bañas en los ríos,
soplo en el que se abogan las estrellas,
aliento de una boca,de unos labios de tierra.

Terra de labios, boca
donde un infierno agónico jadea,
labios en donde el cielo llueve
y el agua canta y nacen paraísos.

Se incendia el árbol de la noche
y sus astillas son estrellas,
son pupilas, son pájaros.
Fluyen ríos sonámbulos,
lenguas de sal incandescente
contra una playa obscura.

Todo respira, vive, fluye:
la luz en su temblor,
el ojo en el espacio,
el corazón en su latido,
la noche en su infinito.

Un nacimiento obscuro, sin orillas,
nace en la noche de verano.
Y en tu pupila nace todo el cielo.

OCTAVIO PAZ

PS: Show realizado em Campo Grande/MS, no ano de 2000 - acho eu - num Circo montado do Parque das Nações Indígenas, com ingressos a R$ 6,00, parte do projeto Temporadas Populares que trouxe durante três anos shows sensacionais como esse e Ira!; O Rappa com Yuka ainda; Lenine (que não tocou pois acabou a luz); Zeca Baleiro; Chico César; Los Hermanos quando recém tinham recém-lançado o Bloco do Eu Sozinho. Projeto que acabou pois diziam que quem morava na periferia não podia ir ao shows, sendo trocado pelo Festival de Inverno de Bonito onde os periféricos, agora sim, não tem acesso nenhum.

s.o.

sábado, 1 de março de 2008

Juno


O assunto é sério, realmente sério. No nosso país ele assume ares de problema de saúde pública. Adolescentes grávidas é o que há por aqui, nesse ponto o filme acerta em cheio, o sexo é uma realidade entre os adolescentes e cada vez mais precocemente essa barreira antes quase intransponível vai se tornando banal. Corpos ainda não completamente formados. Psicologicamente longe da maturidade necessária para se criar um filho; criança que chega mudando tudo na vida da menina, o corpo, as sensações tão diversas como deixar de ser filha para se tornar responsável por uma vida. Como encontrar tempo depois para continuar a curtir as delícias da adolescência? Onde se localizar no mundo depois de ter um filho aos quatorze, quinze anos? Respostas que o filme não dá.

O roteiro do filme, premiado merecidamente com o Oscar, é sensacional, os diálogos são atuais, leves, irônicos, sarcásticos, a realidade é que foi adaptada ao paladar americano de ver o mundo. Temos, nós que conhecemos as dificuldades e surpresas que sentimos ao encontrar uma mãe-filha, no máximo que ver o filme como um entretenimento, de primeira qualidade, mas completamente longe da nossa dura verdade. Quantas jovens não são abandonadas pela família quando um fato desse ocorre? Pais intolerantes, revoltados com a "perda da honra", seja lá o que isso for, existem aos montes ainda aqui. Claro que também temos famílias que aceitam o desafio, enfrentam o fato com galhardia e aprumo, mas mesmo assim a vida de todos está irremediavelmente mudada. É questão social, isso é muito claro, meninas pobres engravidam muito mais, falta de se enfrentar esse problema de frente, conscientizar pais, mães, tocar nessa ferida já na escola, demonstrar o quanto um filho quando ainda se é tão criança não beneficia em nada nem a mãe-nova nem o novo-filho.

Mas o entretenimente é garantido, na sessão que fui notei muitos adolescentes, excitados antes, compenetrados durante, felizes ao terminar. Será que perceberam mesmo as nuances do filme? Espero que sim, a visão da Ellen Page grávida, andando como se carregasse na barriga não um filho, mas todo o peso do mundo fala muito mais que as ações tomadas por ela na ficção. Como é cativante os detalhes, como o telefone hambúrguer, a surpresa de todos na escola, a trilha sonora indie total, belezas da telona. Mas ser mãe jovem não é só fazer o sexo em si, é também depois vestir ares de fortaleza, força essa que sozinha uma adolescente ainda não tem, entra em ação a importância da família, do meio em que a pessoa convive. No filme tudo se resolve com o bom humor do texto, na vida real tudo está longe de ser assim. O filme então é excelente opção para todo mundo, até mesmo uma chave para muitos pais e mães penetrarem no hermético mundo dessas jovens esfinges modernas que nos rodeiam, ou ao menos para que pais e mães tirem dos olhos a venda da hipocrisia que vestem quando o assunto em questão são atitudes dos seus filhos.


s.o.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Parabólico Raduan;


A primeira vez que ouvi falar de Raduan Nassar foi num pré-vestibular, Lavoura Arcaica era livro obrigatório e foi dissecado pela professora de óculos branco. Sim ela falou da Sudanesa, da Ana e do André, do pai, da família, insistiu que todos tivessem especial atenção com o final, a posição de todos na mesa, o pai morrendo, a loucura da irmã. Isso tudo ela disse. Eu mesmo não li o livro, já sabia dele o necessário para uma prova que não fiz. Até porque na outra aula ela já esmiuçava o Esaú e Jacó, falando logo do "ab-ovo"...

Na segunda vez que cruzei com o Raduan, o livro era obrigatório noutro vestibular, agora o da minha filha, comprei. Para ajudar na compreensão dela, li primeiro. Mas conforme ia lendo, o resumão da professora chegava primeiro nas conclusões que não vim a ter. Lemos e não entendemos a essência, resultado? Peguei minhas anotações daquela aula que tive e emprestei para ela. Dois a zero para o livro. Onde moram esses resumos que circulam por aí? Qual a paternidade ou maternidade deles? É inconcebível que isso ainda ocorra, a facilidade de um filme ou de partes do livro no lugar da leitura, leitura essa que realmente fiz agora, pois lemos e LEMOS um livro.

Lavoura Arcaica transcende tudo o que se vê numa primeira olhada, culpa do autor, mestre em limar ásperezas da palavra. Se utilizando de um sinal de pontuação à beira da falência por falta de uso, o ponto e vírgula, ele muda o rumo da prosa, acrescenta inventividade e fruidez ao texto. É talvez o ritmo que falta para muita gente por aí. O livro que mais fala de sexo sem que ninguém fique exageradamente chocado. Zoofilia, incestos(?), masturbação e tudo dentro de uma arrumação do verbo; símbolos esperando serem decifrados.

Desagregação familiar é tema universal, perder a confiança em quem nos governa também, ser assaltado por desejos em alguma fase da vida acontece em todas as casas, choques de gerações, a descoberta do sexo. Mas é na surpresa que a história cresce. O filho pródigo não contou a razão de ter ido embora, e assim as parábolas cruzam errantes no lugar certo: a da semente em terra ruim, os porcos possuídos pelos demônios, etc. Em mãos menos laboriosas tudo iria se perder, Raduan faz o contrário, o interesse aumenta; ele esconde na ambigüidade das frases sentidos, direção. Alucina o ritmo vertiginoso com que tudo é contado, uma caixa de Pandora vazia.

"Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;"
Foto: Raduan Nassar/O Globo/divulgação

s.o.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Idílios escondidos na Ilíada


Aquiles chorando no colo da mãe
Quem procura o Aquiles do filme já aviso, no livro não tem. Aqui ele parece, durante a maior parte do tempo, o Kurtz do Conrad; no Canto I, ele não se parece nem mesmo com ele, chorando a perda da escrava Briseide no colo da mãe Tétis: "Qual a razão de teu choro, meu filho?". Mal ouvia isso e ele se punha a reclamar do rei Agamenóne.

O covarde Páris corre da luta contra Menelau e...
Vai se deliciar com Helena, enquanto lá embaixo o pau tora: "Ora, concordes, gozemos do amor as carícias, no leito, pois nunca tive os sentidos tomados por tanta ebriedade[...]"; covardia dá tesão?

As pedras jogadas
Pedregulhos enormes, quase sempre com o aviso de não ser qualquer um capaz de levantar, são atirados à torto e à direito: "O grande Ajaz, enquanto ele recuava, atirou-lhe uma pedra, das numerosas que havia no campo e serviam de calço para os navios." Então tá...

Espiritismo na Íliada
Deve ser desse livro a inspiração inicial do espiritismo. Sempre tem alguém tomado por um deus, falando sem sentir, soltando altos brados, incentivando a luta: "Ares as filas troianas penetra, visando a excitá-las, sob a figura do chefe dos Trácios, o forte Acamante." Vade retro satanás.

O muro? o fosso? que raio de obra é essa?
Onde Homero tava com a cabeça ao incluir esse raio de obra megalomaníaca no meio da guerra? Foi feito licitação? Construíram numa noite? Poseidon destruiu depois, eu sei, mas quando os troianos chegam pertos dos navios gregos no Canto XII, parece um samba do crioulo doido.

Príamo o garanhão ou Príamo and sons
Tentei várias vezes até a conta fechar, lá pelo fim do livro Homero entrega, 50 filhos, sim 50. Príamo não era um homem qualquer, era uma máquina sexual, um reprodutor; pena que o único que prestava morreu nas mãos de Aquiles; Heitor, o do penacho. É a maior mortandade de filhos de um pai só, ou é a maior união de inúteis na face da terra. Pedrada, furado por lança, espada? Chama o rabecão; menos um filho de Príamo no mundo.

Zeus dá uma rapidinha
Sabe esses filmes de ação, onde o mundo está acabando mas o herói arruma um tempo para uma rapidinha? Tudo culpa de Homero; numa cena quentíssima, vemos Hera se banhar com ambrosia, passando na cútis um óleo divino, tudo para enganar o 'The Boss'. Zeus é claro pode perder a guerra mas não a oportunidade e...záz: "Hera, ora subamos ao leito e os prazeres do amor desfrutemos. Nunca uma deusa ou mulher fez nascer-me paixão tão violenta." Ora ele dizia isso para todas.

Onde está Odisseu?
Eu não gosto da Odisséia, na verdade não gosto de Odisseu, acho ele uma farsa. Na maior parte da Íliada ele passa no seu barco 'ferido'. Tudo bem depois tem o cavalo de Tróia, mas a gente sabe que foi um deus que soprou para ele a idéia. Espero que a Penélope não tenha esperado a sua volta com tanta parcimônia que querem nos passar, e que sim tenha aproveitado o ímpeto dos visitantes da sua casa. Essa idéia de que ela fazia de noite e desfazia de manhã é só uma vontade muito grande de que todas as mulheres sejam assim virtuosas, enquanto o homem vai pegando todas pelo caminho.

Agamenone mentiu para Aquiles
Na frente de todo mundo o rei jurou que não havia tocado na escrava Briseide e diz que se estivesse mentindo que os deuses o punissem. O que acontece com ele ao fim da guerra? Desgraça, desgraça. Ou seja, mentiroso safado. Por isso Aquiles o odiava.



s.o.