
s.o.
"Não procura nos meus lábios tua boca,/não diante da porta o forasteiro,/não no olho a lágrima./Sete noites acima caminha o vermelho ao vermelho,/sete corações abaixo bate a mão à porta,/sete rosas mais tarde rumoreja a fonte./Paul Celan

Internet é um lugar para todo gosto e todo mau gosto. Para quem quer porcaria, opções não faltam. Mas para quem quer qualidade, sobram aos montes. Como a raridade que acabo de encontrar, um lugar maravilhoso onde se pode encontrar tudo o que a inesquecível, inoxidável Elis Regina já lançou, tudo com apenas alguns cliques
Nessas horas surgem os mais diversos interessados preocupados com o bem estar de todos. Os que são desfavoráveis ao aborto passam a enumerar uma infinidade de soluções para uma gravidez indesejada. Camisinha masculina e feminina, pílula anticoncepcional, pílula do dia seguinte, laqueadura, vasectomia e, se duvidar até tabelinha e coito recolhido. Muito fácil chegar com o balde d’água depois que o incêndio já destruiu todo o patrimônio histórico. Pelo visto é impossível lembrar os acontecimentos que antecedem uma gravidez, ou até mesmo o próprio ato sexual que é muito prático de ser feito e bem menos exigente, uma das poucas coisas praticadas em todas as classes sociais.
Para as mais desfavorecidas onde se encontram diversos problemas; a baixa escolaridade, o emprego ruim ou até a ausência de nenhum, péssimas moradias em péssimos lugares e obviamente sem nenhum lazer, a única diversão que lhes resta é sexo. Por isso teorizá-lo não é a melhor saída. Deve ser feito livremente, sem burocracia, sem parâmetros, se assim não for vai parecer mais um requerimento em repartição pública do que um ato de amor ou de prazer que seja. Por isso surgem olhos atarantados, discursos moralistas, jurisprudenciais, sobre o futuro da família possuidora da penca de filhos. Não pensa na hora de fazer? É claro que não. E quem pensa? Quem se previne já é praticamente movido por automatismos, estigmas sociais. Mas pensar... Julgar é muito simples.
Continua...

Idosos, debilitados ou não, são vistos todos os dias com suas vidas insistentes pelas ruas. Amargurados
Políticas baratas é a única coisa que o desgoverno faz para homenagear os patriarcas e matriarcas de quem já levaram tudo, até a dignidade. É muito cômodo apontar a falta de escolaridade dessas pessoas como o fator responsável pelos seus Estados de miséria. Eles não estudaram porque usaram esse tempo para enriquecer calhordas que só têm o poder de usurpar até a alma dos humildes com a desculpa de que o trabalho dignifica o homem. Onde está a dignidade de pais, mães, avós e avôs, quando precisam dos postos de saúde? Por que é que precisam implorar a piedade da burocracia para conseguir uma aposentadoria de fome? Nessas horas já não importa a força braçal desses seres. Já ninguém lembra se hoje a agricultura rende milhões nos bolsos de alguns é porque alguém lá atrás plantou sementes que eram quase como moedinhas de ouro. Mas que importância isso tem né?
Agora apenas a velhice aparente desses homens e mulheres é o que os envolve numa compaixão, numa bondade alheia, que se resume no máximo à gentileza quase obrigatória do jovem que cede o lugar à senhorinha que cambaleia dentro da condução lotada que mais parece uma cela de penitenciária em dia de rebelião e, a preocupação social desse jovem se finda apenas num sorriso forçado depois da sua boa ação do dia. Rugas, ossos fragilizados, mãos trêmulas, visões e audições inexistentes, tosses, espirros, são os únicos troféus, as medalhas de honra ao mérito que os nossos heróis derrotados podem ostentar quando continuam no suposto convívio familiar, pois toda a vida que outrora dava indícios de um futuro glorioso se dissipou dando margem à impaciência dos filhos e netos que se cansam de ouvir as velhas histórias, não passam de estorvos para os seus descendentes e para o poder público. Os feitos dos idosos não os levaram a lugar algum, precisam agora transpor suas reminiscências às atividades próprias para a idade e saúde. O que podia existir de melhor na abordagem tradicional das escolas se perdeu, o culto ao passado, a vontade de valorizar as grandes obras da humanidade. Valorizar obras, feitos! E não formas físicas decadentes que todos nós estamos arriscados a ter um dia.
Parece que só os idosos comuns, anônimos, são lembrados pela idade que têm e não pelas façanhas gloriosas da juventude. Ninguém se solidariza com a idade avançada de Fernanda Montenegro, Jô Soares, Laura Cardoso, Ariano Suassuna, Bibi Ferreira, Paulo Autran e tantos que assim como muitos outros brasileiros também estão em plena atividade, ainda que desconhecidos. O que é arte nessas horas? Será que insistir pela vida no meio de tanta miséria, de tanta humilhação e ainda conseguir escancarar sorrisos e simpatia no meio de todo esse inferno urbano também não é uma forma de arte digna de mídia, de admiração de todos os intelectuais e todas as possíveis homenagens?
Só desordem e retrocesso no meio das vinte e sete estrelinhas que cada dia brilham menos...

“No cinema você pode fazer o que você quiser”, essa é uma das falas do personagem do inoxidável Matheus Nachtergaele. Pode realmente fazer o que quiser, principalmente enganar o espectador na maior cara-de-pau. (já explico!) O filme é de uma realidade cruel, que sangra os olhos de quem vê. Tem tudo o que não presta. Pedofilia, prostituição em prostíbulos de quinta categoria, drogas, bebedeira, violência, insensatez, má fé. Enfim uma coletânea de catástrofes.
Tudo se passa num cenário de um aparente pacato vilarejo da Zona da Mata de Pernambuco. Heitor, um idoso taciturno e moralista (Fernando Teixeira), se vale das vantagens do velho ditado que diz que a desculpa do aleijado é a muleta. Impossibilitado de trabalhar vê a neta Auxiliadora (Mariah Teixeira) - li em resenhas que na verdade também é sua filha - como sua galinha de ovos de ouros. Obriga-a trabalhar de lavadeira e para reforçar o orçamento leva a menina todas as noites para um posto de gasolina e lá a expõe nua, como uma estátua sexual viva, para o deleite de caminhoneiros e outros homens acéfalos, ninfomaníacos e pedófilos. Não havia sexo, pois o velhote e veiaco sabia que se isso acontecesse, a jovem poderia fugir dele e seguir o caminho da prostituição por si própria. A interpretação da estreante Mariah Teixeira é singular, fulgurante, marcada por cenas quase sempre silenciosas, impregnam-se os gestos, os olhares, as expressões melancólicas, angustiantes que surgem em seu rosto e dão um quê de desespero, de fuga.
Em um outro ambiente, liderado por Everardo (Matheus Nachtergaele) e Cícero (Caio Blat ) tudo é regado com muita bebedeira, drogas e messalinas, mulheres que são tratadas como animais de fazer sexo, entre elas destaca-se a brilhante interpretação de Dira Paes, uma biscatinha que consegue marcar como ninguém sua presença na trama. Nesse axioma infernal paralelo à história de Auxiliadora, passa a se desenhar qual será o futuro da heroína derrotada, isso se ela continuar viva.
Uma realidade monstruosa que escapou dos interiores do brasil- afinal não é só no massacrado Nordeste que isso acontece- e veio para na tela dos cinema para açoitar os olhos de quem está acostumado com finais finalizes, com verdades aproximadas, eufemezidas. Não! Em Baixio das bestas é tudo cru. Uma denúncia de impunidade, de passividade de um país que se fecha para um crime hediondo que acontece todos os dias.
Cláudio Assis, o mesmo diretor de Amarelo manga, vem mais uma vez para causar polêmica e pregar peças. Saí da sessão indignado, crente de que a protagonista se tratasse de uma criancinha de seus 11,12 anos, quando na verdade tem 22. Algo no mínimo impressionante! São os milagres da atuação! Se queria mostrar realidade, conseguiu! Para os incrédulos de tal façanha, que tiveram o mesmo pensamento que eu, aí vai o link, o site é da globo, que não é fonte muito fidedigna, mas vamos dar um voto de confiança, só dessa vez!
Para quem diz que o filme é chocante, eu assino. Não é indicado para pessoas sensíveis emotivas, estas estarão fadadas ao vomito ou choro. Além de tudo é feio, horroroso, além de toda a problemática dos mais variados submundos, de quebra ainda tem a nudez magerrissima de Matheus Nachtergaele e Caio Blat para comprovar o quão medonho ele é.
t.c.s.
