segunda-feira, 28 de março de 2011
Bullying piauiense
Não é de hoje que na grande escola que é o Brasil o Piauí vem sofrendo bullying. Sempre aparece um grandão e dá uma chapoletada na orelha do estado. Parece que é engraçado fazer isso. O Piauí, coitado, sofre; sofre, mas não sofre calado. Quanto mais apanha, quanto mais sofre bullying, mais ele se agiganta. O Piauí está de cabeça quente, chateado mesmo.
Da outra vez foi o presidente da Philips que disse a singela frase: “se o Piauí deixasse de existir, ninguém ficaria chateado por isso”. Foi transformado em persona non grata no estado. Mesmo pedindo desculpas uma onda de protestos grassou o tortuoso estado. Agora um ator de teatro – Marauê Carneiro, na véspera de apresentar uma peça, disparou sua sentença de morte numa postagem no Facebook: “estamos em Teresina, do Piauí, se o mundo tem cu, o cu é aqui”. Que beleza. Levou outra saraivada de tapas na orelha (metafóricos, é claro). Saiu ameaçado de fazerem omelete na sua cabeça.
Tem algo de errado com o Piauí que eu não saiba? Todo mundo quer tirar uma onda com o estado? Se fosse pelo tamanho tinha que sacanear Sergipe, o Distrito Federal, Alagoas quem sabe, ou o Acre, esse sim um bom lugar para ser o cu do mundo, não? Longe pacas e ainda lembra uma boca aberta de um desenho animado. Mas não, vira e mexe eis que alguém apronta com eles, os piauienses.
Todo mundo sabe que o bullying é pernicioso para quem o sofre. Pode aquele que passa por isso desenvolver problemas psicológicos, ter sua alto-estima rebaixada pelas sacanagens sofridas. Podemos estar criando um estado que desenvolva tiques nervosos, que passe a demonstrar um ódio excessivo para qualquer pessoa que não seja nativo da região. Por isso proponho que, em retaliação aos sacanas que praticam o bullying contra o estado do Piauí, seja promovido o Dia do Piauí.
Todos terão que prestar sua homenagem ao Piauí, comendo suas comidas típicas, ouvindo suas músicas típicas, e tudo o mais que for típico da região. Nas escolas do Brasil inteiro as aulas serão sobre o Piauí. Em Geografia estudarão, ou melhor, apresentarão trabalhos sobre o relevo do estado, explicação para o estado ser torto parecendo um biscoito caseiro feito por uma criança ou um ectoplasma saído do filme Caça-fantasmas; falarão sobre os rios que cortam o estado. Na aula de História, é óbvio, contar-se-á a formosa história do estado, aproveitando para ver se encontram uma explicação para tanto bullying; será que o estado sofreu bullying quando era criancinha e não aprendeu a enfrentar seus problemas, e agora todo mundo aproveita para tirar uma casquinha? Na aula de Português os alunos aprenderão o piauiês, a variante lingüística do português na região, que como todos sabemos, não está certo nem errado, pois isso não existe mais, o importante é que o falante se comunique. Na aula de Literatura estudaremos Mário Faustino, Assis Brasil, Torquato Neto, Abdias Neves, Alvina Gameiro, Ovídio Saraiva, Licurgo Paiva, Hermínio Castelo Branco, Francisco Gil Castelo Branco, Da Costa e Silva, Abdias Neves, entre outros.
Quem sabe depois desse castigo severo, o Brasil não se emende e compreenda de uma vez por todas que bullying é crime. Deixem o Piauí em paz, senão o próximo passo é dar a independência para o estado, que passará a se chamar Oeiras, para poder esquecer seu passado de sofrimento com o bullying, e isso poderá ser o fim do Brasil como o conhecemos, logo depois teremos o país dos Farroupilhas, o país dos Barrigas Verdes, o dos Loiros de Olhos Azuis e em sendo assim, é óbvio que clamarei pela independência da Nhecolândia que foi onde nasci.
s.e.s
Yes, nós temos Bananas!
Na Europa a banana é, hoje, o símbolo máximo do racismo. Coitada da fruta. Decadência total. Já foi chapéu e não saía da cabeça da Carmem Miranda; era comida preferida do Guga entre um set e outro, quando ele dominava o circuito mundial, agora é uma forma metafórica de dizer: macaco e por extensão negro ou gringo. Países que produzem bananas deviam se juntar e exigir reparação urgente, estão denegrindo a banana, essa fruta saborosa e cuja antiguidade merecia um respeito maior.
A banana já foi chamada pelo romano Plínio de "a fruta dos sábios". Dizem até que a fruta que desgraçou Adão e Eva foi a banana e não a maçã, mas por ela ter esse sentido fálico optou-se pela maçã, vermelha, despudorada, para assim criar uma métafora consistente de pecado. Também contribuiu para o erro as traduções erradas para o latim do hebreu, na vulgata de São Jerônimo ele optou pela palavra "malum", que quereria dizer "malicioso", mas "malum" siginificava maçã em latim, assim adeus banana da Bíblia. Outro erro crasso de tradução seria a já famosa roupa do casal depois de expulsos do paraíso, segundo consta eles vestiriam folhas de figueira para cobrirem seus corpos nus, mas todos sabemos que folha de figueira não cobre nada, e isso seria outro erro de tradução, pois banana durante um bom período era chamado de figo. Logo Adão e Eva vestiam isso sim vastas folhas de bananeiras, ou então teriam criado os primeiros biquinis que setem notícia com as minúsculas folhas de parreiras.
O tempo e a história têm sidos péssimos amigos da banana. Desde Pápua-Nova Guiné, 5000 a.C., passando pela África, Oriente Médio, Europa, até chegar às Américas a banana teve uma vida muito atribulada. O nome banana foi dado pelos negociantes árabes, pois eles a chamavam de banan, que quer dizer dedo em árabe. A fruta uma vez aqui nas Américas sentiu-se em casa e proliferou à vontade. Mas uma vez na América nunca antes uma fruta havia mexido tanto com os poderosos. O homem já havia feito loucuras por ouro, prata, seda, temperos, açúcar, café e então passa a ser a banana a bola da vez. A Unidet Fruit em 1920 é uma megacorporação e manda e desmanda nos países em que tem terras e bananas. É uma época negra em que as empresas com todo o apoio da Casa Branca transformam seus territórios em verdadeiros países e criam o que se chamou de "Repúblicas das Bananas" para nações cujos governantes construíram-se e mantiveram-se orbitando entre as companhias e o governo americano.
Ora, se a banana não teve uma vida muito virtuosa não é por culpa dela. Fruta facilmente cultivável, aqui no Brasil vários quintais tem seus próprios bananais para consumo. Nos mercados uma vastidão de tipos para todos os gostos: nanica, prata, ouro, da terra, d'água. É preciso que se diga ao mundo que nós, brasileiros e porque não latino-americanos em geral não admitimos que uma fruta como a banana tenha seu nome atado a casos de racismo. Precisamos limpar o nome da banana, quem sabe agora os jogadores entrem em campo com cachos de bananas que seriam doados para instituições de caridade depois do jogo. Ou então no lugar das estrelas que indicam quantos títulos mundiais temos, colocarmos singelas bananas, numa edição limitada que tenho certeza venderá muito.
Quanto ao racismo não há muito o que fazer, descobrir quem são esses dementes, banir dos estádios isso já basta, pois um racista dificilmente deixará de ser racista por alguma didática qualquer, isso é questão de educação. Jogadores de futebol podem e devem se defender continuando seu trabalho dentro de campo, marcando gols, jogando bonito, já a coitada da banana essa precisa que a defendamos. A banana exige uma reparação.
w.a.
Diálogos sobre diálogos
Sabe como enfrentar o medo? Tendo medo de ter medo. Montaigne dizia isso: "a coisa que mais tenho medo é de ter medo", concordo. Mesmo que em momentos extremos eu não saiba como evitar que minhas pernas tremam, que minha voz não saia, que meus gestos percam-se na tentativa e no não acontecer.
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"Eu que tantos fui", Borges começa assim um dos seus inumeráveis poemas. Sempre me pego perguntando se essa monomania borgiana, essa obsessão pela repetição temática não está na raiz do seu sucesso. Repetir, repetir, repetir, até isso se tornar um estilo, foi Manoel de Barros quem escreveu isso ou algo parecido; Borges escrevia diversas vezes o mesmo conto, o mesmo poema, olhando para eles por um ângulo diferente e o resultado é que sempre parecia que estava falando algo novo, mas nada mais era que repetição.
*
Pergunta ingênua: qual a razão das televisões brasileiras nunca passarem na sessão da tarde um filme argentino? Um filme chileno, uruguaio, mexicano, paraguaio (no Paraguai fazem filmes?); pois é, vou dar um chute, filmes latinos trazem uma realidade próxima a da brasileira, pobreza, lugares ermos e feios, corrupção, pessoas que fogem ao estereótipo dos filmecos americanos, logo, não existe o menor interesse de ninguém para que esses filmes sejam vistos. Por uma sessão da tarde menos idiota poderíamos criar uma campanha assim. Será que rolaria? Nunca vi ninguém defender nem o cinema brasileiro, quanto mais os dos hermanos de desgraça.
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O Brasil vive um momento de ufanismo total. Ser brasileiro está na moda, estamos surfando na crista da onda. Aqueles que ousam apontar defeitos, qualquer defeito que seja, são apedrejados até a morte da voz, como foi Madalena em alguma realidade alternativa. Mesmo assim, em meio a tanta coisa superlativa acontecendo, não consigo entender a razão da educação continuar um lixo. Sendo tratada com pão-de-ló estragado da publicidade, com professores desanimados e loucos para abandonar o barco antes que a insanidade os alcance, ou que algum aluno aponte para eles dedos de Judas ou pais os ameacem de morte por não passarem o filhinho querido do coração, mesmo que esse filhinho seja o pior aluno da sala, quiçá do mundo.
*
O silêncio pudoroso de Dilma vem sendo confundido com talento. Os jornalistas - esses seres emblemáticos - vivem a tecer loas ao "estilo" criado por ela. Toda uma estratégia de marketing pra colar nela a imagem de uma pessoa que fala pouco e faz muito, justamente para ser uma oposição ao estilo Lula que falava demais e segundo a lenda fazia demais também. O importante é que acreditem que ela seja diferente onde tem que ser diferente e igual onde deve ser igual, afinal ambos são grãos de soja colhidos no mesmo campo, o do populismo. Em sendo assim ela só fala de vez em quando, em conversas e discursos escolhidos a dedo, mesmo assim, nesses momentos, transparece aquela mulher de pensamento e fala tortuosos e complicados de se entender; algo de bom nisso, está para ser criado uma profissão do futuro: tradutor e intérprete do dilmês que ela fala. Professores de Letras à postos, vamos mergulhar nesse lodaçal - ops - nesse mar de informações e colocar mãos à obra:
s.e.s.
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"Eu que tantos fui", Borges começa assim um dos seus inumeráveis poemas. Sempre me pego perguntando se essa monomania borgiana, essa obsessão pela repetição temática não está na raiz do seu sucesso. Repetir, repetir, repetir, até isso se tornar um estilo, foi Manoel de Barros quem escreveu isso ou algo parecido; Borges escrevia diversas vezes o mesmo conto, o mesmo poema, olhando para eles por um ângulo diferente e o resultado é que sempre parecia que estava falando algo novo, mas nada mais era que repetição.
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Pergunta ingênua: qual a razão das televisões brasileiras nunca passarem na sessão da tarde um filme argentino? Um filme chileno, uruguaio, mexicano, paraguaio (no Paraguai fazem filmes?); pois é, vou dar um chute, filmes latinos trazem uma realidade próxima a da brasileira, pobreza, lugares ermos e feios, corrupção, pessoas que fogem ao estereótipo dos filmecos americanos, logo, não existe o menor interesse de ninguém para que esses filmes sejam vistos. Por uma sessão da tarde menos idiota poderíamos criar uma campanha assim. Será que rolaria? Nunca vi ninguém defender nem o cinema brasileiro, quanto mais os dos hermanos de desgraça.
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O Brasil vive um momento de ufanismo total. Ser brasileiro está na moda, estamos surfando na crista da onda. Aqueles que ousam apontar defeitos, qualquer defeito que seja, são apedrejados até a morte da voz, como foi Madalena em alguma realidade alternativa. Mesmo assim, em meio a tanta coisa superlativa acontecendo, não consigo entender a razão da educação continuar um lixo. Sendo tratada com pão-de-ló estragado da publicidade, com professores desanimados e loucos para abandonar o barco antes que a insanidade os alcance, ou que algum aluno aponte para eles dedos de Judas ou pais os ameacem de morte por não passarem o filhinho querido do coração, mesmo que esse filhinho seja o pior aluno da sala, quiçá do mundo.
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O silêncio pudoroso de Dilma vem sendo confundido com talento. Os jornalistas - esses seres emblemáticos - vivem a tecer loas ao "estilo" criado por ela. Toda uma estratégia de marketing pra colar nela a imagem de uma pessoa que fala pouco e faz muito, justamente para ser uma oposição ao estilo Lula que falava demais e segundo a lenda fazia demais também. O importante é que acreditem que ela seja diferente onde tem que ser diferente e igual onde deve ser igual, afinal ambos são grãos de soja colhidos no mesmo campo, o do populismo. Em sendo assim ela só fala de vez em quando, em conversas e discursos escolhidos a dedo, mesmo assim, nesses momentos, transparece aquela mulher de pensamento e fala tortuosos e complicados de se entender; algo de bom nisso, está para ser criado uma profissão do futuro: tradutor e intérprete do dilmês que ela fala. Professores de Letras à postos, vamos mergulhar nesse lodaçal - ops - nesse mar de informações e colocar mãos à obra:
“Aqui, senhor presidente Obama, sucedo a um homem do povo, meu querido companheiro Luiz Inácio Lula da Silva, com quem tive a honra de trabalhar. Seu legado mais nobre, Presidente, foi trazer à cena política e social milhões de homens e mulheres que viviam à margem dos mais alimentares (sic) direitos de cidadania”. (Dilma discursando na visita do Obamis)
“Na minha humildade, né, no meu chinelo da minha humildade, eu gostaria muito de ver o Neymar e o Ganso. Porque eu acho que 11 entre 10 brasileiros gostariam. Porque deu alegria ao futebol. Porque, a gente… Eu vi. Cê veja, eu já vi. Parei de vê, voltei a vê. E acho que o Neymar e o Ganso têm essa capacidade. Fazê a gente olhá.. Porque é uma coisa que, né, mexe com a gente. Tem esse lado brincalhão e alegre”. (Dilma batendo uma bolinha com a língua mátria)
“Na minha humildade, né, no meu chinelo da minha humildade, eu gostaria muito de ver o Neymar e o Ganso. Porque eu acho que 11 entre 10 brasileiros gostariam. Porque deu alegria ao futebol. Porque, a gente… Eu vi. Cê veja, eu já vi. Parei de vê, voltei a vê. E acho que o Neymar e o Ganso têm essa capacidade. Fazê a gente olhá.. Porque é uma coisa que, né, mexe com a gente. Tem esse lado brincalhão e alegre”. (Dilma batendo uma bolinha com a língua mátria)
s.e.s.
Manual do crente: a guerra entre-mundos
O maior desejo dos crentes é o de se separarem do mundo dos não-crentes. E as estratégias são variadas e metódicas. Há uma obrigação na interação, crentes precisam trabalhar, assim como os não-crentes. Crentes precisam de todas as coisas que os não-crentes. É uma concessão apenas. Conviver no mundano universo dos não-crentes é para eles pesaroso e complicado, para descomplicar eles erguem catedrais babélicas, organizam festas gospel, montam bandas gospel, adoram até o heavy metal dos não-crentes, mas o chamam de white metal. Em suma, como diz Borges criam uma cópia do espelho que chamam mundo e nele se regozijam. Há justiça aí? É óbvio que para todos cabe a possibilidade de escolher entre um dos mundos e nele tentar da melhor maneira se sentir bem. Mas existirá um tempo em que os mercados, os açougues, as padarias, o tio do churros, todos serão crentes e nesse dia espero que pelo menos as lojas de conveniências escapem desse surto, senão compraremos cerveja sem álcool e o troco será cartela de adesivo do smilingüido.
O grande problema é que se contrapor ao mundo não evita que tenham que viver no mundo. Não há concessão possível que evite o mundo. Crentes e não-crentes precisam do maior dos pesadelos do mundo: o dinheiro. Crentes e não-crentes são moídos pela grande máquina do mundo indistintamente. As empresas não perguntam sua religião, pelo contrário, para que os funcionários sintam-se bem dentro da empresa, toleram as grandes reuniões em que não se discute trabalho, os famigerados grupos de oração ecumênicos, enquanto isso acendem, os proprietários, vela para qualquer deus que faça que ao fim do dia, do mês e do ano, com que os cofres da empresa estejam mais abarrotados.
Nada melhor para exemplificar esse embate sangrento entre crentes e não-crentes do que o universo da música religiosa. Padres, pastores, ex-drogados, ex-atrizes, ex-sambista do diabo, ex-cantor de axé do capeta, 'ex-tudos' se misturam nessa algaravia chamada música gospel. Erguem as mãos, dão glória a Deus, fazem o mais refinado pagode do senhor, fazem o mais dramático rock n'roll, fazem até o bonde do senhor ou o 'gospelnejo' universitário. Segregam-se para melhor poderem viver a sua fé, sem que os outros, os não-crentes venham se misturar ao bando, não que não possam, mas para isso é necessário a conversão. Vivem no fim, num mundo de mentira em que imitam todos os conceitos criados pelos não-crentes e ainda acham que são melhores, pois, aparentemente, não bebem, não fumam, não fazem sexo indiscriminadamente, como se no mundo dos não-crentes fosse feito só isso, o tempo inteiro.
Os crentes se subdividem em crentes moderninhos e crentes arcaicos. Os moderninhos estão à frente ou misturado a toda gama de novidades implantadas nas igrejas, templos e outros. Deles emana os padres pop-stars; os bispos que pregam através de curas milagrosas, os exorcismos ao vivo. Esses são minorias dentro do seu próprio universo, essa vontade de ser moderno, atual, faz com que transformem e ampliem o sentido de crença, angariando novos crentes, tão crentes quanto os crentes arcaicos, que são aqueles tradicionais. Por eles missa voltaria a ser em latim, padre seria só padre e em cultos não haveria tantos gritos catárticos. Uma verdadeira babel entre os crentes, que mesmo que não se entendam entre si mesmo, preferem olhar para o outro lado e apontar o dedo para os não-crentes e dizer apontando esse mesmo dedo para o céu que “Ele vai voltar”. Os não-crentes, independente da volta D'ele, seguem sua rotina de beber, fumar, fazer sexo, e pactos com o capeta, que é o que os crentes acham que os não-crentes fazem o tempo inteiro, enquanto o mundo segue moendo os dois, separados, grupos.
a.p.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Manual do crente: o nosso mundo e o mundo deles
A maior divisão entre pessoas na face da terra é a separação entre os crentes e os não-crentes. Existe uma cratera separando esses mundos e a comunicação entre eles se dá mais por espiões que transitam entre essas duas construções, ou arrependidos de um ou de outro lado que migram para a fronteira inimiga e assim passam a conhecer ambos os mundos. Para os crentes existe um mundo espiritual, que seria a verdadeira realidade da vida. Aqui, passamos por uma fase, a vida mesmo acontece depois; quem não tem fé está fadado ao ostracismo do inferno. Logo, não crer é não ser deste mundo.
A diferença é que produz a beleza deste mundo. Se todos fossem iguais, viveríamos num “Admirável Mundo Novo” e aquela visão excruciante de um mundo de castas e cores pré-definidas dói só de ser pensada. Mesmo assim o mundo é apolíneo por definição. A religiosidade é vivida num universo impregnado de falsas ideias. Construir uma nova divisão, num mundo que já é completamente dividido em várias outras áreas do viver, é ponderar com o impossível. Para o crente o mundo deles é o melhor dos mundos, e o que subsiste nesse hipotético mundo, são questões sobre como podem os outros não fazerem parte dele.
Os crentes creem habitar um universo diferente dos não-crentes; mesmo inexistindo uma certeza racional para a existência desse mundo encantado, esse reino metafísico que enche a cabeça e esvazia o corpo. Qual seria a localização exata desse mundo? Como encontrá-lo? Quem sabe alguém possa, como Galileu que fez os cálculos exatos da localização do Inferno, indicar esse reino espiritual; se olhamos para o céu vemos nuvens, e não um soberano de barbas brancas sentado nele com uma imensidão de almas boas vagando felizes e prazenteiros.
A grande realidade é que se você é daqueles que responde questionários dizendo-se sem religião, você, aos olhos dos crentes, torna-se um pária. Para eles não é possível que você não queira ter essa dupla cidadania: a terra e o reino dos céus. Invariavelmente o tratamento dispensado para você, um não-crente, será o mesmo dispensado para o lixeiro, para o pedinte, você ou se tornará um ser invisível ou será agraciado com toda a atenção do mundo, por se transformará numa obsessão do outro; o crente ou te abandona às traças ou quer ter converter à força se der, pois acham que é só sair repetindo trechos e trechos da Bíblia que você se comoverá.
Mas é claro que existem amizades entre crentes e não-crentes, mas será sempre uma amizade receosa. Essa barreira existencial advém da dificuldade de compreensão, mais dos crentes do que dos não-crentes, pois para o crente qualquer brincadeira envolvendo, mesmo que de maneira distante, religião, logo termina em calorosas discussões. Para os crentes se você não crê, logo não pode, em hipótese nenhuma, emitir pareceres sobre o mundo livre de amarras como você quer. Isso pode ser ouvido e futuros crentes podem ser tocados em sua incipiente fé e abandonarem o futuro barco.
O problema maior é como conseguir penetrar no mundo do crente, geralmente isso se dá de uma maneira bem simples, o não-crente abandona o seu mundo e passa a professar alguma fé, de maneira nenhuma são admitidos turistas naquele mundo. Ou se entra inteiro ou fica de fora dessa grande festa possível. Agora se você não quer se converter resta a você visitas extemporâneas. Como para o não-crente tanto faz como tanto fez o modo que o crente leva sua vida, desde que ele não tente de maneira ostensiva furar essa fronteira entre-mundos, com pregações vãs, logo é possível a convivência pacífica. O mesmo não pode ser dito dos crentes que acreditam piamente ser impossível que alguém não creia em céu, Deus, Pai, Filho, Espírito Santo e santos, e andam sempre a apontar o dedo para os problemas terrenos dos não-crentes e dizendo: “viu, fulano morreu de tal doença pois não acreditava em Deus”. Pode? Não pode.
a.p.
quinta-feira, 24 de março de 2011
Serviço de (in)utilidade pública
1. A multinacional do comércio de bananas Chiquita Brands está sendo processada pela morte de 931 pessoas numa zona bananeira na Colômbia. Foi só eu ou mais alguém pensou: "a vida imita a arte?", pois quem leu "Cem Anos de Solidão" recorda-se da sequência em que os trabalhadores de uma multinacional em Macondo são mortos e os corpos jogados no mar, para desespero de um dos Buendía que sobrevive, mas acaba passando é por louco...
2. "Eu sempre digo, e ouço, que não seria estranho se tivesse existido uma civilização em Marte, mas talvez o capitalismo tenha chegado lá, o imperialismo chegou e acabou com o planeta" (Hugo Chávez) (???), pois é, em alguns países, que antes eram chamados de subdesenvolvidos, e agora chamam de em-desenvolvimento, parece que a única coisa que não se desenvolve é o cérebro dos que comandam os países. É uma aptidão para a estupidez que seria engraçada se não fosse trágica...
3. No meio da confusão com o blog da Bethânia quem ficou quietinho foi o Nando Reis, ele emplacou lá o seu "Bailão do Ruivão", vai levantar a grana e sair fazendo seus shows; ah tá, então tá. Mas se me perguntassem se eu queria que meu dinheiro fosse usado pelo ruivão, eu diria, "never, never, never", pelo amor de God. Ninguém merece.
4. Elizabeth Taylor morreu. Quem? Liz Taylor. Quem? Pois é, como atriz só os cinéfilos lembram-se dela. O resto vai lembrar dela pelos 'enes' casamentos; por ela ser a melhor amiga de Michael, mas alguma coisa? Jóias? Pela tragédia que foi o filme Cleópatra. Aqui no Brasil morre atriz muito melhor todo anos às pencas; morre pessoas muito melhores e ninguém fala nada, mas como durante a nossa vida inteira sempre topamos com o glamour de Hollywood nas nossas vidas, quando morre alguém de lá, algumas pessoas daqui sentem como se tivessem perdido um irmão. Não era, vai ser mais uma que será imortalizada em fotos geniais em preto e branco, nada mais. Pra grande maioria ela era mais um inacreditável nada.
5. O Sarney lançou uma biografia autorizada. Deve se inscrever naquela categoria de livros que compram por obrigação e logo lotam as prateleiras dos sebos desse meu Brasil varonil. É um bom livro pra se fazer tiro ao alvo, sabe com aquelas espingardas de chumbinho, com que se matam passarinhos por aí? O quê? Ficaram horrorizados em saber que se matam passarinhos aos montes por aí com espingarda de chumbinho? Então comprem o livro do Sarney e aí vão ver "o horror, o horror".
6. O bullying foi um dos temas da semana. A cena do gordinho levantando o magrinho chato e jogando ele com força no chão foi hilária, e logo ele tinha uma legião de fãs. Os frascos e comprimidos sempre se unem na dor e desgraça alheia. Mas quem nunca sofreu bullying na vida aperta aqui. O bullying tinha que ser institucionalizado isso sim, tirar um dia só para bullingzar o outro, tal qual a ideia de legalizar as drogas para diminuir o consumo, se com droga pode, porque não com o bullying? Seria uma beleza, eu poderia me vingar daqueles que me enchiam o saco todo santo dia, seria o dia da forra.
7. Bruna Surfistinha o filme chegou aos dois milhões de espectadores. Eu tenho umas teorias. a) as pessoas adoram ver como as outras pessoas lidam com o sexo. b) a prostituição de luxo é um fetiche entre homens e mulheres, todo mundo queria fazer sexo e ainda ganhar a vida. c) as pessoas queriam ver a Débora Seco nua. d) foi no cinema quem comprou o livro da Raquel ou leu emprestado por vergonha de comprar. e) todas as respostas anteriores e também que é só olhar para os ridículos filmes americanos que estão passando nos cinemões, só merda, merda por merda, melhor uma merda nacional, ainda mais se rolar sacanagem.
w.a.
quarta-feira, 23 de março de 2011
Roleta russa
Respiro. Minha vez. Pego a gélida arma, giro o tambor, encosto na têmpora...
Contemplo o espasmo das minhas poucas ideias. O vazio sorri de mim? Não há mais tempo a ganhar. Não há mais chance. Ao menor ruído minha coragem treme-se toda: basta de esperas. Quando descobrimos que existimos, experimentamos a sensação de um louco maravilhado que surpreende sua própria demência e procura no oco do cérebro um nome em meio ao vazio. Só a rotina nos salva da derrocada que é existir, nos habituamos a viver e vivemos sem questionar nada nem ninguém, o garfo, a faca, a caneta, o copo e todos os outros objetos nos salvam do buraco negro (e por que não buraco branco?) dos nossos dias. Os objetos existem para que possamos ser.
Conformado, finjo viver, imito bem a maioria, respeito as regras do jogo, tenho horror a tudo que é original. Resignado como um robô: simulo fervor e dou risada de tudo secretamente; submeto-me às convenções e odeio às escondidas; estou em todos os registros, mas não tenho casa no tempo; salvar o corpo, o único e verdadeiro lado da moeda, quando todos juram que perdê-lo é abrir um caminho para o paraíso. Desprezar tudo é assumir um ar de dignidade perfeita, ser aquele que leva as ovelhas para o precipício e se joga também, cumprindo sua tarefa de falso vivente. Camuflar a ruína fingindo prosperidade? O inferno não tem boas maneiras, o inferno vive-se diariamente, sem elegância, e isso quem disse foi Camus.
Aceito a vida por cortesia, no bolso sempre uma revolta perpétua, sublime fonte de ilusão. As fases da nossa ruína ao sistema: aos vinte anos somos todo revolta; depois isso cansa: "a pose trágica só corresponde à puberdade prolongada e ridícula". Logo descobrimos o falso bem-estar da conquista. Nos preparamos para que no espaço que brilha num átimo de tempo explodirmos num não-ser. Não-somos e achamos que temos todo o mundo. Desse poder às avessas prendemos correntes em nossos tornozelos e precisamos acatar às ordens de cima, pronto, somos agora um arquétipo do infortúnio; felizes desgraçados. Todo o tempo que nos resta depois passamos tentando corrigir nosso pecado original, o de deixarmos de acreditar no poder da diferença. A igualdade nos joga no fosso úmido da ordem. Unidos seguimos para o grande moedor de corpos, crendo piamente que fazendo assim salvamos a alma (a metafísica é o maior vilão do nosso tempo).
Para tolerar o falso da vida, necessitamos de uma dose gigantesca de mistificação. Somos todos impostores e nos suportamos, estoicamente, uns aos outros. Quem não aceita mentir vê a terra fugir sob seus pés, e por isso mentimos com método; nossa genética obriga a falsidade, pois a verdade se oculta na negação, na graça da veneração pública e da difamação camuflada. Se nossos semelhantes pudessem constatar nossas verdadeiras opiniões sobre eles, todas as grandes falsidades do mundo seriam riscados para sempre dos dicionários; e se tivéssemos a coragem de olhar cara a cara as dúvidas que concebemos silenciosamente sobre nós mesmos, a vergonha tomaria conta de nós. O dissimular arrasta tudo o que vive. Só o respeito das aparências nos separa dos cadáveres. Não há como precisar o real das coisas, o real arde no cérebro, por isso o conforto que traz um nada agradável: nossa constituição só tolera uma certa dose de verdade…
Respiro, minha vez outra vez, giro o tambor, tremo, cerro os olhos...
# releitura de: e. m. cioran
a.p.
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