sexta-feira, 18 de março de 2011

O mundo precisa de poesia?


Na Folha Online: Minc justifica aprovação de projeto de 1.3 milhão para Maria Bethânia


Queria poder dizer que o mundo precisa de poesia. Seria tão simples mentir e dizer: o mundo precisa de poesia, e voilá, a poesia se fizesse e salvasse o mundo. Mas pensei em mim primeiro, antes de pensar se o mundo precisa, indaguei-me se eu preciso de poesia, uma vez que faço parte do mundo, ou pelo menos acho que sim. Antes de poesia eu necessito de tantas coisas. Eu, que sou um leitor até razoável para os padrões brasileiros, que é pífio em relação a vários outros países do mundo, até leio muita poesia. Mas a poesia que a Maria Bethânia pretende fazer, declamada, com vídeo bem feito, essa eu nunca tive a menor paciência para ver e ouvir, mesmo sabendo que a poesia, nos seus primórdios, fosse feita exclusivamente para a leitura em voz alta e em púlbico, mas os tempos mudaram.

Seria incrível que as pessoas pudessem levar uma vida mais poética. Escapando da sordidez diária, para um universo cheio de alegorias, enfeites, encantamentos. No projeto consta que a idéia é: "abrir possibilidades a acessibilidade irrestrita à cultura a todos que tão pouco acesso têm?", e por isso a pergunta que não pode calar: será que as pessoas que tem tão pouco acesso, quando o tiverem não irão fazer como a maioria e se perder nos orkuts-facebooks da vida? Sim, a periferia (os que não tem acesso) talvez precise de mais poesia. É que nós, seres periféricos acabamos inventando poesia de nossas complicadas relações com o mundo. Ah, esse mundo tão avesso ao bom senso. Tão incompetente para apreender nossas vontades, para nos oferecer belezas diárias. O mundo, esse não precisa de poesia, precisa ser domesticado. O mundo é complicado e temos muito mais a perder do que a ganhar nessas trocas que fazemos diariamente. A poesia como evasão do mundo era algo que os românticos faziam muito bem, mas aquele romantismo que está em tudo e não está em lugar nenhum, está morto e sepultado.

Como ver beleza em gôndolas de supermercado? No motoqueiro esticado na esquina? Nos coletivos cheios? Nas escolas em que diariamente muita criança vai atrás do pão e não do aprendizado? Nas pessoas ainda abduzidas pelas novelas, pelo futebol nosso de cada dia? Como suprir esse mundo indolente com algo tão bom que faça as pessoas esquecerem suas dificuldades diárias? Por que Maria Bethânia seria capaz de fazer-nos esquecer das dores da vida, com pílulas tão amenas que produzisse em nós um sorriso? Sei não. Grandes ideias são às vezes simples que sem querer até nos assustam. Coisas grandiosas, com intenções grandiosas, são, no mais das vezes, megamolanias vazias.

Se o intuito é gravar uma poesia por dia, para tornar nossa vida melhor, qual a razão de não utilizar todas as mídias gratuitas que tantos se utilizam por aí? Quantos vídeos que conhecemos não foram gravados em modestos celulares e de lá ganharam o mundo? Se a ideia é dar pílulas de beleza diárias, que nem as "folhinhas de calendários" antigos (como está no projeto), qual a razão de não fazer disso, no início de maneira artesanal, contando com o apoio de amigos, e depois, conforme forem aparecendo patrocinadores ir inclementando aos poucos o blog até alcançar o objetivo final? Penso que a Maria Bethânia ou alguém da sua futura equipe deva ter em casa um computador potente, uma câmara legal, máquinas digitais, e isso tudo basta para vídeos quase profissionais hoje em dia.

Não pode a poesia ser utilizada como um mote, como um subterfúgio. Quem ama a poesia como eu, sabe que ela é tão individual é tão mais valiosa justamente por ser na individualidade de cada leitura que ela chega a fazer sentido. Transformar a poesia num produto, com preço na capa (sim, preço, nós, o povo, pagaremos a empreitada), com invólucro chique, é deixá-la menor e mais elitizada. Quantas pessoas estariam preparadas para assistir uma cantora declamando poesias diariamente, ao seu bel-prazer? Eu, talvez, de vez em quando daria uma olhada, como são as coisas na internet que hoje é um grande hit e de repente perdemos o link, esquecemos até sobre o que falava.

A pergunta no fim é, "o mundo precisa de poesia?". Pode até ser que sim. Mas eu continuo acreditando que o mundo precise mais de tantas outras coisas e que poesia é algo tão pessoal, tão intransferível, que mesmo que nesse repertório todo ela declame todos os clássicos da poesia antiga, moderna, pós-moderna, ainda assim serão os clássicos dela e sempre ficará de fora um outro tanto, que não pode ser aquinhoada com a benção da nossa declamadora oficial. Se ela quisesse fazer isso sem um centavo de dinheiro público, isso já seria outra coisa, e nem estaríamos perdendo tempo com essa discussão besta. Sim, o mundo precisa de poesia, mas eu não queria gastar nenhum centavo por isso. Por isso eu vou a bibliotecas públicas, baixo livros em pdf, por isso eu só compro o que realmente quero e vá ler, empresto de amigos, por isso eu sou favorável que nenhum centavo de dinheiro público participe deste projeto. Simples assim.


s.e.s.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Um silêncio provisório 2


Invariavelmente eles adotavam o silêncio. Em nenhum momento debatiam se, o silêncio, seria a solução dos seus, não poucos, problemas. Era um acordo de olhares preguiçosos. De backspace apagando frases inteiras. Talvez achassem que para não discutirem o melhor a fazer era pensar em coisas amenas, talvez nem pensar. Melhor o 'tergiversatio'. Acreditar que o desconhecido é um companheiro tão fiel quanto um cão. E eles se esmeravam em imaginar-se longe das crises por eles mesmos inventadas. Até faziam planos. Pensavam o futuro como se o passado não tivesse existido. Como se fosse possível que feridas tão recentes, milagrosamente, desaparecessem. Ah, os milagres, esses feitos gloriosos que sumiram da face da terra. Ninguém mais escapou vivo das covas dos leões, esquecemos o idioma deles e eles o nosso. Eles até conseguiam conviver com o preconceito, tentavam desesperadamente seguir a vida com a indiferença de quem se acha com razão, e sim, eles tinha razão. Andavam sempre juntos, roçavam-se num carinho camuflado. Iam a bares lúgubres, onde nas sombras podiam sucumbir ao desejo que brotava da verdadeira face de ambos. E os dias corriam por vielas até alegres, ás vezes. Passavam por alguns momentos que eles mesmos não acreditavam ser mais possíveis. Em alguns instantes até acreditavam que eles, enfim, os aceitavam como eram. Portas novas se abrindo. E as outras, as portas de antigas dores, será que podiam ser trancadas à sete, extraviadas, chaves? Mas todos sabemos como são essas coisas, quando tudo parece ir bem, quando baixamos a guarda, é que as coisas acontecem. Fica sempre um rancor armado no espírito... facas sendo afiadas... armas de destruição em massa compradas no mercado paralelo... a próxima batalha sempre vinha mais forte e eles não suportavam mais tantos olhares quando andavam abraçados dentro do ônibus. Alguns fingiam não vê-los. Outros disfarçavam o pavor da cena simples. Mas em todos uma mal disfarçada vontade de desfazer o enlace, de estapear as faces jovens, de separar o inseparável. Eles tentavam com todas as forças sobreviver ao tempo, à falta de dinheiro que a tudo perdoa e faz aceitar. Ser gay e pobre ainda é sofrimento dobrado. Aos gays endinheirados, o mundo abre as portas, o mercado tem a oferecer produtos especiais, e o preconceito é mais mental. Aos gays pobres, resta esconder-se em si, negar-se a si, fingir para si. Eles não queriam mais isso e aquele abraço cerrado dentro do coletivo era mais que um vontade de ser, era uma necessidade de que todos vissem e comprovassem que eles assumindo-se como eram, não eram em nada diferentes de todos os outros, casais ditos normais. Quando desciam de mais uma curta viagem dentro de sua própria cidade, saltavam aliviados por sobreviverem, enquanto dentro do ônibus, muitos suspiravam também aliviados pela ausência deles. O preconceito é o pior dos males, por ser o mais fingido e omitido de todos.


 
s.e.s.

Dickens - o primeiro astro pop



Charles John Huffan Dickens nasceu em Portsmouth, Inglaterra, a 7 de fevereiro de 1812, era filho de Mr. John Dickens, modesto empregado da Tesouraria da Frota. Seu pai era a um tempo encantador e temível; encantador porque era alegre, porque contava bem histórias, porque recebia amavelmente aos seus amigos; temível porque gastava sempre mais do que ganhava e submergia com uma curiosa mescla de indiferença, desespero e leviandade, em um oceano de dívidas. A mãe (Elizabeth Barrow) parece que foi um ser medíocre, uma dessas mulheres cujos pensamentos ruidosos e vãos, voam em todas as direções, como zangões aloucados. O filho não tardou a julgá-la severamente. O casal Dickens tinha oito filhos, sua vida não era fácil. Sem embargo, as pequenas impressões do menino Charles foram deliciosas. As histórias contadas por um pai tão divertido, gravaram-se na cera assombrosamente maleável desse espírito. Era uma bela criança de cabelos ondulados, olhos azuis e, além disso, um comediante nato. Possuía um talento extraordinário para cantar e recitar. O pai sabia transformar o menor acontecimento familiar em uma festa, para a qual preparava, assobiando, um ponche admirável à base de casca de limão. Com frequência levava o filho em excursões pelo campo; contava-lhe lendas, as quais entusiasmavam o menino.


Charles nasceu em 1812, e tinha nove anos quando o confiaram a um professor, a quem logo encantaram os progressos de seu aluno. Mas os verdadeiros mestres estavam noutra parte. Na água-furtada da casa de John Dickens, havia um montão de livros que ninguém lia. Charles deslizava sobre os telhados e devorava "Robinson Crusoé", Gil Blas, Fielding, "As Mil e uma Noites", coleções inteiras de periódicos e, sobretudo, "Dom Quixote", que lhe agradava de um modo particular. Desgraçadamente, as dívidas do pai iam subindo. Foi preciso deixar Chathan, e transladar-se para Londres. Mas Londres não foi favorável aos Dickens. Faltou o pão. As crianças choravam. Na casa não se viam mais que credores, carregando os últimos móveis. Por fim, Mr. Dickens foi detido e levado, por dívidas, para a prisão de Marshalsea. Charles sente-se a um tempo assustado, comovido e envergonhado, terrivelmente envergonhado. Só em casa, com uma mãe incapaz de ajudá-lo, deve fazer tudo; engraxa os sapatos de toda a família, cuida de seus irmãos e irmãs, faz as compras da casa, trata de vender os poucos objetos que restam e, quando tem um momento livre, vai à prisão ver o pai. Agora é o dono da casa, deve procurar ganhar a vida e, aos onze anos, entra de aprendiz na loja de uns parentes afastados, os Lamert, fabricantes de betume. Seu trabalho consiste em cobrir os postes de betume com papel parafinado, logo com papel azul, atá-los e pregar etiquetas em cada um deles. Trabalha em um sótão, com rapazes ignorantes, vulgares, e ganha seis shillings semanais. Depois de algum tempo, muito hábil no trabalho, seus patrões julgam oportuno exibi-lo aos transeuntes. Põem-no em uma vitrine, e as meninas e os rapazotes do bairro, comendo fatias de pão com geléia, acodem a colar seus narizes contra o vidro, para verem-no trabalhar.

Foram estes, tempos de humilhação; as feridas que lhe causaram jamais cicatrizaram. Mas logo faltou com que pagar o senhorio, e então, toda a família – mãe e filhos – foi viver na prisão por dívidas, pois nessa extraordinária prisão podia-se alugar quartos para neles alojar a família. Charles foi o único que não viveu nela, a fim de obter alguns recursos para os seus. Morava num minúsculo quarto, trabalha na fábrica de betume; no domingo, ia passar o dia com sua família na prisão. John Dickens recebe uma pequena herança que lhe permitiu sair da prisão, e o menino Charles explicou para o pai como lhe era penoso passar a infância num trabalho estúpido, com companheiros grosseiros, e o quanto ele gostaria de se instruir. Mr. Dickens mandou o filho à casa de Mr. Jones, diretor da Wellington House Academy. Mas Mr. Jones era, por sua vez, ignorante e bruto; durante todo o dia batia violentamente em seus alunos com uma grande bengala. Aí Dickens conheceu outro aspecto da miséria em que estava submersa a infância inglesa, as horríveis escolas. Ficou pouco tempo na escola, pois o dinheiro faltava de novo em casa e foi necessário tornar a empregar-se. Tinha, agora, uma letra excelente e boa ortografia; fizeram-no entrar de aprendiz na casa de um procurador judicial. Ali viu mil facetas da vida; um desfile contínuo de litigantes, e por ser mensageiro, isso o obrigava a andar por todas as ruas de Londres. Em dois anos, adquiriu dessas ruas, de sua miséria e de sua beleza, um prodigioso conhecimento.

John Dickens, vendo a herança esgotar, encontrou trabalho de repórter na Câmara dos Comuns, o que muito agradou Charles, e por 10 shillings e 6 pennies - todas suas economias – comprou um velho tratado de taquigrafia Como Charles era um rapaz de vontade firme e que julgava que “tudo que merece ser feito merece ser bem feito”, logo chegou a excelente taquígrafo. O periódico The True Sun, o contratou como redator parlamentar, função pela qual, recebia cinco guinéus. Para completar sua formação com a qual estaria apto para escrever faltava apenas um amor, e ele veio na forma de Mary Beadnell, filha de um dos banqueiros de Lombard Street, burgueses mais ricos e, provavelmente, mais distintos que os Dickens. Mary era uma coquete, jamais havia pensado em casamento, assim como sua família, mas permitiu-lhe flertar com ela. Os pais confiavam na filha e sabiam que ela era bastante razoável para suspender o jogo a tempo. Não se enganavam. Dickens sofreu muito quando suas visitas à casa dela já não era mais desejadas, ficou infeliz, humilhou-se, mas não pode evitar a ruptura. Mary casou-se e durante vinte anos desapareceu da vida de Dickens. Agora sua grande ambição era escrever, e é esse Charles Dickens, de olhos de aço, que a vida, aos vinte anos entrega às letras.

Aos vinte e dois anos, Dickens escreveu uma breve narrativa, e a depositou na caixa de uma revista. Na semana seguinte, ao comprar o número, teve a satisfação de encontrar nele seu ensaio. Logo publicava uma série em um jornal, o Evening Chronicle, mediante uma retribuição de sete guinéus semanais. São os “sketches”, quadros da vida provinciana e de Londres, que obteve êxito imediato (lançado depois como "Esboços feitos por Boz"). Com o sucesso dos sketches, decidiu escrever livros e abandonar a taquigrafia. Começa a escrever "As aventuras de Mr. Pickwick", em episódios, pois suas novelas publicam-se em capítulos que devem aparecer regularmente cada mês. Nenhum novelista havia trabalhado jamais em tal condição. Quando começou Pickwick, não tinha a menor idéia de como prosseguiria essa obra, e ainda menos, como concluiria. Não havia traçado planos; criava personagens, lançava-os ao mundo e caminhava atrás deles. O primeiro episódio não alcançou grande êxito, o desenhista suicidou-se e, como a venda não fosse muita, pensaram em suspender a publicação. Logo contrataram outro desenhista e decidiram continuá-la. Um reduzido público começou a se dar conta de como eram divertidos Mr. Pickwick e seus amigos, até que no sexto número, Dickens criou um Sancho Pança para Mr. Pickwick, o criado Sam Weller. O êxito foi instantâneo, fulminante. Do primeiro número vendeu-se 400 exemplares; no número 15 e já dele solicitavam 40.000 exemplares. Era um êxito nacional.

Um êxito tão rápido, tão extenso, tem, para um escritor, vantagens e inconvenientes. Uma vantagem é que o homem assim formado evita o humor atroz, o artista irritado; outra vantagem é que, adquirindo confiança em si mesmo, escreve com encantadora liberdade, que, talvez, seja um dos segredos de sua beleza. O inconveniente é que a popularidade proporciona gozos tão deliciosos, que logo o escritor não sacrifica sem dificuldades. Agradar a uma massa de leitores exige uma simplificação tanto mais elementar, quanto mais essa massa cresce. O autor excessivamente lido, pode sentir a tentação de escrever para os piores leitores.

Dickens casou-se durante a publicação de Pickwick. Ele foi convidado para ir na casa de um dos redatores do Morning Chlonicle, Hogarth, que tinha três filhas: a primogênita, Catherine, 20 anos; a segunda, Mary, 16; a terceira, Georgina, era uma menina. Dickens achava-se à vontade nessa família, onde era admirado. Casa-se com Catherine, mas muito se tem dito que Dickens, amava mesmo era Mary, que morre jovem, desgraça ocorrida meses depois do casamento. Morta foi mais perigosa para o lar dos Dickens, do que o fora viva. Dickens serviu-se dela para descrever suas personagens mais comovedoras. Os Dickens reorganizaram a vida, outra irmã de Catherine, Georgina foi viver com eles. Escreve "Oliver Twist" (1836), história de um pequeno órfão, educado primeiramente nessa horrível “work house”, esta Bastilha de indigentes que a nova lei dos pobres havia instituído. As classes populares odiavam as “work house”, e Oliver Twist fez muito para atrair a atenção para os defeitos dessa instituição. Este segundo livro instalou definitivamente Dickens na glória, tinha então 26 anos.

Dickens tinha, então, necessidade de estar continuamente em movimento. Sempre perseguido de perto por um impressor que aguardava seu original, trabalhava pela manhã, do café ao almoço. Pela tarde, eram-lhe necessários prolongados passeios, a pé ou a cavalo, para aliviar a fadiga intelectual e para tornar a tomar contato com esta realidade inglesa que era sua substância. Mas acima de tudo Dickens tinha necessidade de seus passeios noturnos pelas ruas de Londres; era um hábito que conservava desde a infância e que parecia necessário para a continuidade de sua inspiração. Pouco importava o tempo que fizesse, perambulava pelos bairros mais estranhos, captando à passagem uma frase, que anotava, escutava à porta de uma loja, lançando seu olhar sobre o estranho mobiliário de outra, seguindo um par de moleques. Fazendo isso à noite, pela manhã, seu trabalho, era fácil.

Em 1842, com trinta anos, é um dos homens mais célebres do seu tempo, é lido na América tanto quanto na Inglaterra, mas nessa época não havia nenhum tratado para salvaguarda dos direitos autorais, decide assim tentar resolver essa situação. Sua recepção foi entusiástica, aclamaram-no no cais; recebeu tão grande quantidade de cartas que se viu obrigado a contratar um secretário, e os convites foram tão numerosos que foi forçado a anunciar que não aceitaria nenhum. Os admiradores o perseguiam até no quarto e nem na cama podia livrar-se deles. Acabaram por aborrecê-los. Chocavam-no os costumes americanos. Ali, como na Inglaterra, havia observado abusos; a escravidão o indignara; acreditou ser seu dever protestar; Se na conservadora Inglaterra podia-se falar livremente em reformas, na América, país democrático, a liberdade de opinião não existia. Quanto às negociações para a defesa dos direitos autorais, não iam adiante. Respondiam-lhe que era absolutamente impossível para uma editora americana tratar com um autor inglês, pois se o fizesse, já não poderia adaptar as novelas inglesas ao gosto do público americano. Dois meses depois, Dickens volta para a Inglaterra, e publica "Notas Americanas", livro que os americanos acolheram muito mal.

Segue publicando livros, e decide escrever todo ano um conto de Natal. O livro "Martin Chuzzlewit" (1843/44) é um relativo fracasso de vendagem, o que leva Dickens a se mudar da Inglaterra, vai para a Itália e logo depois à França, país de vida barata. Dessa longa permanência no estrangeiro, Dickens trará vários livros, mas livros sobre a Inglaterra. O êxito de "Dombey e Filho" (1847) determinou o regresso de Dickens a Londres. Logo estava comprometido com numerosas ocupações, como sempre lhe atraíra o teatro, começa a fazer representações beneficentes, fazendo tudo, e como obteve grande sucesso, outras sociedades beneficentes solicitaram que ele repetisse a obra em benefício delas. Essa febril agitação quebrantou a sua saúde, sofreu violentas enxaquecas, adoeceu da vista. Mas mesmo assim fundou um jornal o Daily News, que ao fim de três meses abandonou para publicar apenas num suplemento semanal chamado "As Palavras do Lar". Por essa época escreve o primeiro livro em 1ª pessoa, "David Copperfield" (1849), uma clara biografia sua. Esse é o livro mais vendido por Dickens, depois desse livro Dickens é mais que um grande escritor, e ele se entrega às apresentações e a escrever ininterruptamente, "A Casa Soturna" (1852), "A Pequena Dorrit", "Tempos Difíceis". Esse excesso de trabalho malbarata sua força, Dickens agora escreve com menos facilidade, sua impaciência que nunca foi grande, torna-se terrível; não pode estar quieto. Para escrever agora toma notas, faz fichas, coisa que nunca suportou. E o casamento vai de mal a pior, sua mulher não o compreendia, não fora feita para ele; ela por sua vez não era mais feliz que ele. Tiveram dez filhos e viveram 22 anos juntos, e Dickens com belas qualidades e uma grande bondade, era egoísta e nervoso. O artista é um ser o qual é difícil de conviver. Separaram-se em 1858, e enfim, e Dickens sentiu sua vida renascer então e teve um período de paz.

Mas o espírito da agitação não o abandonou, e recomeçaram os pedidos por leituras públicas, em prol de um hospital aqui, de uma sociedade ali, lia sempre muito bem, o que atraiu empresários de espetáculos que lhe falaram dos lucros e lhe propuseram viagens pela Inglaterra. Seus amigos avisaram-lhe que isso não seria bom para sua saúde, tudo em vão. Preparava suas leituras em períodos de calma, decorava seus textos, e ia acrescentando, corrigindo, tornando-os mais teatrais, a fadiga era tanto maior pois punha nessas leituras todo o seu ser. Mesmo assim escreve nesse período "Conto de Duas Cidades" (1859), "Grandes Esperanças" (1861) e "Nosso Amigo Comum" (1864). Ao concluir esse último, fechou contrato pra mais trinta leituras, não dormia, tomava cada noite um soporífero; submerso pelo abuso de drogas em uma espécie de sonolência, devia, na hora da leitura, tomar um estimulante. A América, esquecida dos seus rancores, exigiu novas leituras, Dickens embarcou para a América. Leu em Boston, Filadélfia, Nova York e Washington. Tamanho esforço o extenuou, no navio de regresso, quando o reconheceram, pediram-lhe uma leitura, Dickens respondeu que se fosse obrigado, agrediria o capitão para ser preso.

Na volta para a Inglaterra, preparou uma leitura de despedida, uma seleção de episódios de Oliver Twist, depois começou a escrever o Mistério de Edwin Drood (livro que fica sem concluir), morre aos 58 anos, indiscutivelmente, por excesso de trabalho e desmedida atividade. Imagem perfeita de sua época, Dickens deixou-se dominar pelo mecanismo da vida, como a humanidade inteira, no século XIX. Assim, sem cessar deixado para trás por seus anseios, vive e morre sufocado pelo trabalho, sempre encantado de suas imaginações e contrariado por suas obras; mas é uma vida bela e uma bela morte.



MAUROIS, André. Dickens. Tradução: Rubens Mário Jobim. São Paulo: Dominus, 1963.

WILSON, Edmund. Raízes da Crítica Literária. Tradução de Edílson Alkmim Cunha. Rio de Janeiro: Lidador, 1965.

 
s.e.s.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Apontamentos para uma leitura do filme Cheiro do Ralo


Vivemos numa época repleta de novidades. O mundo se recicla de maneira tão ágil que quando nos apercebemos das mudanças já estamos no olho de um novo furacão. Estamos sentindo na pele a tempestade da pós-modernidade. Que se apresenta como uma catarse de dados compilados lançados por uma hélice gigante, e isso nada mais é que o aprofundamento e, claro, agravamento dos ideais capitalistas. O capital triunfou sobre o social, e convivemos diariamente numa confusa sociedade de consumo, agressiva, totalitária, que se impregna em todos os níveis de nossas vidas, modificando o nosso relacionamento até com as coisas mais simples. Com a sensação de que estamos emparedados por um agressivo sistema de trocas, tentamos salvar o mínimo de dignidade, mantendo-nos numa linha tênue entre o certo e o errado, mas o correto de hoje pode não ser a realidade de amanhã, uma vez que não era a de ontem.

O modo como percebemos o mundo hoje se modificou para acompanhar a agilidade dos tempos. Vivemos em permanentes “estados de liquidez”, como diz Bauman, os relacionamentos escoam por entre os dedos, os medos apoderam-se de nós de maneira integral, o amor é volátil; pode-se afirmar que tudo se reduziu ao básico, mas um básico que vem embrulhado dentro de um coquetel molotov. Estamos numa verdadeira “Idade Média Pós-Moderna”. Obedecemos ao senhor maior do mundo: o sistema. Ente onipresente, reticente, assaz competitivo e mordaz, que orienta o rumo que vamos tomar, quase sempre nos tomando como um grande e tosco rebanho. Tudo se resume a um singular estado de possibilidades. Eis que a procura de um caminho para explicar um filme como “O cheiro do ralo”, de Heitor Dhália, tem, basicamente, que recorrer a um arsenal teórico que parte de Marx, atravessa o modernismo e chega aos dias atuais, pois o ser humano aprofundou em muito o sofrimento abandonando a própria sorte em mãos pouco consideráveis.

O filme trata, de uma maneira geral, sobre relacionamentos. E é através do discurso percebido sob a ótica das grandes trocas humanas, vista, ademais, sob um viés pós-moderno, que a película se mantém. A personagem Lourenço, não consegue ter um relacionamento normal com nenhuma pessoa. Seu jeito de perceber o mundo é sempre o de uma pessoa que está numa posição superior ao outro. Comprador de objetos, valiosos ou não, essas negociações ocorrem de uma maneira que não é tradicional, com o cliente oferecendo algo e ele - o comprador - tendo interesse e fazendo sua oferta pelo produto. No modus operandi de Lourenço há toda uma negociação individualizada em que as vendas se transformam numa grande sessão de aniquilamento do sujeito que está vendendo algo. A pessoa que leva um objeto é humilhada. Seja quando Lourenço paga muito por algo sem valor, o que só desvaloriza ainda mais a pessoa; seja quando Lourenço nega-se a comprar algo, mesmo de valor baixo, pelo simples prazer de aviltar o vendedor; ou quando regateia o preço, rebaixando-o às vezes, por desdém.

Na vida particular seus relacionamentos também não engatam, seja com a noiva, a empregada, a secretária, a moça (da bunda) da lanchonete, etc. Mas o que temos que analisar mesmo é que Lourenço é um sujeito pós-moderno, vivendo num mundo pós-moderno e logo, o modo como percebe esse mundo é o de uma pessoa permanentemente em crise: seja consigo próprio, seja com seus semelhantes, seja com os objetos desse mundo. Mas essa crise não é de identidade e sim a de sujeito deslocado mais por entender a ordem natural das coisas, que por contrariá-la. Para um sujeito pós-moderno o universo que o rodeia é percebido como que entre-névoas. Há um esgarçamento das relações, pela falta de diálogo, pela fragmentação do ser, diante do que Jameson chamou da lógica de um “sistema econômico do capitalismo tardio”. O ritmo frenético ditado pelas máquinas, as divisões sociais, o apagamento do sujeito, o excesso de informações, a vivência numa época superficial, uma nova emocionalidade sentida com mais intensidade, características da era pós-moderna, que a personagem sabe viver, mas os outros não. O filme pode ser visto também como um grande pastiche, como o enformou Jameson. E também a nostalgia de um tempo perdido com o grande apego ao que é velho, que são os objetos ofertados, comprados ou não.

O filme retrata algumas fixações de Lourenço, e por extensão, do ser humano em geral, que se agarra em algo como que para ter um porto seguro na grande areia movediça que é a vida. Em Lourenço essa fixação pode ser a do exercício do poder; a fixação por objetos; pela bunda; pelo cheiro que exala do ralo. O ralo é para Lourenço uma válvula de escape, uma maneira de se punir por sua conduta sempre egoísta. O prazer que sente ao cheirar o ralo fétido é o mesmo que sentiria se fosse colocado de castigo pelo pai. Na verdade essa ausência de familiares é o grande X da questão. Lourenço é desapegado de valores morais e apegado a objetos, coisas que não podem falhar para com ele. Assim Lourenço não consegue edificar relações, pois elas sempre estarão na base de uma possível perda. Os objetos são fiéis. Assim exerce seu poder comprando tudo, ou acha que pode comprar, pois exagera beirando o ditatorial. Distribui benesses quando quer, rebaixa o preço de um Stradivarus, compra caro um objeto sem valor, mas sempre foge do relacionamento duradouro.

O olho, comprado caro, representa para Lourenço a duplicação do olhar. É o seu lado voyer no limite máximo. Se suas relações nunca avançam, se estão quase sempre na base do valor intrínseco do que possa ser comprado, Lourenço compra uma companhia, uma amizade sincera para compactuar com seus interesses, suas fixações. O olho só vê o que Lourenço lhe mostra, e ele só mostra aquilo que lhe interessa. Como o mundo de Lourenço é algo para o qual ele não nutre sentimentos, ele recria esse mundo através dos objetos, logo o olho passa a ser do seu pai, que morreu na guerra e assim sucessivamente. Lourenço se comporta através dos seus objetos como uma criança mimada. Verdadeiramente não sente falta de ninguém, nem consegue gostar de ninguém, é um egocêntrico homem pós-moderno, vivendo sua vida vazia, sem valores, sem ética, de uma maneira repetitiva e monótona, mas consciente do que faz. Mesmo quando inventa sobre o pai, é mais estado de espírito que realmente sentimento.

E a maior fixação de Lourenço que é a bunda da garçonete, é uma ponte entre mundos. A bunda é vazia de significados. Oca de sensações. Mas a bunda é uma verdade que o oprime, pelo tanto de realidade que ela aparenta. Lourenço não quer conquistar uma pessoa, quer sempre mais um objeto para agradar seu fetiche por coisas e a bunda é “o objeto”. A bunda aos olhos das pessoas normais continua a ser uma grande obsessão, um grande paraíso ao lado do que também é o ralo do corpo; a bunda, aos olhos pós-modernos de Lourenço, reveste-se de uma materialidade não-carnal e tem a mesma valoração que a cabeça de um animal empalhada – fetiches modernos.

Esse lado fetichista, aliado ao lado voyer dão a tônica dos seus relacionamentos, e a bunda é o elo entre o seu universo pós-moderno e o universo em que vive a maioria. Pensar em ter é uma obsessão. Ver é outra, e elas se complementam no não-ter. A tentativa de apreensão do outro sempre terá dinheiro envolvido, pois Lourenço é um típico representante do capitalismo tardio, em que impera a desvalorização das relações, um sujeito em crise, mas plenamente dentro do sistema, do qual nunca reclama, a não ser quando diz que “a vida é dura”, mais para fazer com que o outro se resigne e entenda que não há saídas desse sistema pós-moderno.

Não há uma conquista real, pois não quer ou por que nunca consegue alcançar o lado autêntico do objeto desejado. A bunda retrata uma obsessão pelo nada, que é o tudo, que pode até ser entendida também como a de um ser pornográfico, vivendo num mundo pornográfico com um excesso de sensações e de informações, excesso-oco, sempre vazio de significados. A verdadeira pornografia que vemos é a vida odiosa que a grande maioria vive, em que nem os objetos mais próximos têm uma exata medida, ao contrário, se volatizam em contato com a realidade do mundo de Lourenço.

Se tudo é o nada, se se vive numa época enevoada, em que os relacionamentos estão sempre interditados, a única pessoa real que convive com Lourenço é a drogada. Ela sabe que o mundo fede mais que o ralo do escritório, mais que uma penitência. Ela já viu de tudo e ainda assim se submete aos caprichos de Lourenço, não por amor ao dinheiro, mas por amor à fuga de sua vida oca. Quando transborda nela, seus caprichos de criança, seu fetichismo, seu voyerismo, Lourenço encontra sua perdição. Ela que tudo já perdeu, carrega no corpo vazio de significados o nada impresso, a vingança nada mais é que o desespero de um confronto de pessoas que sabem a grande verdade: a vida é um lixo, e fede, como um grande ralo; não há escapatória para ninguém. E a voluptuosa bunda nada mais é que uma perfeição vazia, uma miragem, que se esfuma no contraditório que é a esquálida bunda da drogada. O “mundo é muito perigoso” já dizia Guimarães, mas a verdade de um mundo pós-moderno é mais.
 
 
s.e.s.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Memórias Inventadas de Manoel de Barros



1. MANOEL EM DETALHES


Manoel de Barros nasceu em Cuiabá - mas precisamente no Beco da Marinha - em 19 de dezembro de 1916. Quando tinha 2 meses de vida, seu pai foi convidado por um irmão, para vir povoar o Pantanal. O convite partiu do Barão de Vila Maria - Nheco Gomes da Silva -, e que segundo consta, é dele que vem o nome da região Nhecolândia, uma homenagem a quem primeiro veio fazer o povoamento da região. Esse tio de Manoel de Barros veio para trabalhar com esse Barão, medindo suas terras, uma vasta extensão, e o pagamento que ele recebeu foi em terras. Como não entendia nada de fazendas, chamou o pai de Manoel para abrir, cercar e formar a fazenda. Dessa maneira Manoel de Barros vem para Corumbá, e passa a morar no Pantanal mato-grossense.

Aprendeu a ler com seis anos pelo método da soletração e a contar e decorar a taboada cantando com uma tia. Os pais o mandam para Campo Grande para o colégio interno - o Colégio Municipal de Campo Grande, a primeira professora de Manoel de Barros foi Oliva Enciso. É mandado para o Rio de Janeiro para o Colégio Lafayette. Reprovou no terceiro ano colegial e mudou-se de escola por isso. Em 1934 presta vestibular para Direito, uma vez formado, viaja pela América do Sul: Bolívia, Peru, volta e trabalha com negócios de incorporação de apartamentos, ganha um dinheiro e viaja novamente: interior da Bolívia, do Peru, Equador; viaja até Miami, Nova Iorque, depois disso vai para a Europa: Portugal, Espanha, França e Itália. Quando o pai morre, herda a fazenda, pensa em vendê-la, mas acaba indo morar nela - fazenda Santa Cruz.

Seu primeiro livro é de 1937 - Poemas Concebidos sem Pecados, impresso artesanalmente na gráfica de um amigo. Face Imóvel, pela Editora Século XX, é de 1942 e Poesias de 1956, é da editora Pongetti, mas sua obra só passa a ser reconhecida pela crítica em 1960 quando ganha o prêmio Orlando Dantas. E de lá pra cá, publicou inúmeros livros, e teve toda sua obra re-editada diversas vezes, e continua produzindo ainda hoje: Memórias Inventadas: a terceira infância é de 2008. Manoel de Barros é considerado um poeta modernista, influenciado pelas várias estéticas que dominaram as artes no começo do século XX.

"Minha poesia é uma reflexão permanente. A palavra me atinge de tal modo, que a língua passa a inventar coisas. Nunca escrevi uma palavra que não tenha roçado no meu corpo. Minha poesia é marcada por um constante morrer e renascer. Essa permanente metamorfose está presente em toda a minha obra. Acho que é importante para o poeta reviçar as coisas" (In: SÁ, 1992, p. 59)

2. ESCRITA AUTOBIOGRÁFICA e PROSA POÉTICA

Memória Inventadas, o livro, trabalha elementos preponderantes na poética barreana, os a escrita autobiográfica e a prosa poética, que são uma tentativa de providenciar uma mudança formal entre as escritas que relatem o percurso de uma vida contada pelo protagonista dos fatos, sem contudo, confiná-las ao gueto da sub-literatura. Seria uma narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando atribui importância a sua vida individual, em particular sobre a história de sua personalidade.

Memórias Inventadas é prosa poética, pois assim “confirma a inclinação de Barros para a poesia, como se, através da obliquidade desta, fosse possível alargar as possibilidades do que é narrado, em detrimento da mera linearidade da prosa. Assim, da união das duas formas surge a expressividade máxima: a união do lírico com o narrativo, abrindo uma via mais larga para a expressividade se desenvolver” (LINHARES, 2006, p. 20). Para que ocorra é necessário um pacto autobiográfico, que se estabelece através do texto e do para-texto que o circunda. Percebe-se a confirmação da identidade real do autor, e o seu desdobramento em narrador e protagonista da narração:

AUTOR - NARRADOR - PERSONAGEM

Neste livro o pacto está à princípio no nome “Memórias Inventadas”.

Memória é a faculdade individual que, na sua essência, não pode ser compartilhada com mais ninguém. São contadas sob o único foco possível, o daquele que lembra.

Na rememoração re-encontramos a nós mesmos e a nossa identidade, não obstante os muitos anos transcorridos, os mil fatos vividos. Encontramos os anos que se perderam no tempo, as brincadeiras de rapaz, os vultos, as vozes, os gestos dos companheiros de escola, os lugares, sobretudo aqueles da infância, os mais distantes no tempo e, no entanto, os mais nítidos na memória (BOBBIO, 1997, p. 31).

Torna-se impossível ao autobiógrafo a fiel reconstituição dos fatos, pois um discurso calcado na memória, na lembrança, reveste-se de valores que presidem a vida do sujeito no momento da escritura, não necessariamente correspondendo aos que o guiavam no momento do fato lembrado são lembranças pertencentes ao tempo em que se conta, sendo, por isso, passíveis de constantes atualizações.

Reside nesse ponto a grande dubiedade da memória, pois ao mesmo tempo em que é contaminada pelo momento atual do sujeito, ela surge também como um mecanismo repetitivo que possibilita ao autobiógrafo recompor quadros que lhes são significativos, expurgando acontecimentos que lhe possam relembrar maus momentos, fatos constrangedores, etc.

Esse expurgo é propiciado pela perspectiva temporal, pois a passagem do tempo e o distanciamento narrativo convertem o 'eu' que conta em outro diferente do que é contado. Se há a identidade entre as instâncias, selada pelo já mencionado pacto, há também um desdobramento que permite ao autobiógrafo se ver como um outro que não ele mesmo, refazendo o percurso de forma indolor.

3. LINGUAGEM INFANTIL

A reconstrução via discurso do universo infantil é então uma tarefa que não pode excluir o imaginário, e, em se tratando de um discurso que reverbera poeticidade, tal mescla não pode ser entendida como fuga ao conceito de autobiografia, pois a poética também se alimenta com a essência do imaginário. As lembranças continuam sendo o mote inicial para o desenvolvimento da escrita, contudo, para trazer à tona aquele 'eu' que se encontra apenas no passado, é necessário que se evoque também o poder do devaneio, pois através dele se pode abrir o núcleo de infância que habita em cada um.

Gaston Bachelard afirma que “quando esse devaneio da lembrança se torna o germe de uma obra poética, o complexo de memória e imaginação se adensa, há ações múltiplas e recíprocas que enganam a sinceridade do poeta. Mais exatamente, as lembranças da infância feliz são ditas com uma sinceridade de poeta. Ininterruptamente a imaginação reanima a memória, ilustra a memória”.

Isso ocorre pelo fato de o poeta-escritor não submeter os conceitos de imaginação e memória aos critérios da percepção, pois a lembrança só pode revelar imagens, e essas imagens revelam muito além dos fatos, elas desvelam valores. Nesse forjar de valores, são ressaltadas as imagens que se deseja ver, ficando opacas as demais por sua pouca importância para aquele que conta. Enquanto foco da narrativa, a infância possui múltiplas interpretações e significados que interpelam o imaginário, tanto de quem conta como de quem lê.

Como escrita autobiográfica que é, em Memórias Inventadas, é clara essa cisão de um 'eu' que, ao se contar, converte-se em outro, como se ao mesmo tempo em que a narrativa aproximasse o 'eu-presente' do 'eu-passado', também descortinasse a impossibilidade desse 'eu' continuar sendo o mesmo do início; essa divisão está explicitada, inclusive, pelo distanciamento dado pelo uso – em alguns textos - da terceira pessoa.

Veja-se o que ocorre no texto “Desobjeto”, nele, o narrador se converte num outro, designado genericamente apenas como o menino que descreve as etapas necessárias para a metamorfose de um pente em um desobjeto. O prefixo de negação acrescentado ao radical retira do pente sua função objetiva, reincorporando-o à natureza, numa apologia indireta à liberdade.

O menino que era esquerdo viu no quintal um pente.

O pente estava próximo de não ser mais um pente. Estaria mais perto

de ser uma folha dentada. Dentada um tanto que já se havia incluído

no chão que nem uma pedra um caramujo um sapo. Era alguma coisa

nova o pente. O chão teria comido logo um pouco de seus dentes.

Camadas de areia e formigas roeram seu organismo. Se é que um pente

tem organismo.

O fato é que o pente estava sem costelas. Não se poderia mais dizer se

aquela coisa fora um pente ou um leque. As cores a chifre de que fora

feito o pente deram lugar a um esverdeado musgo. Acho que os bichos

do lugar mijavam muito naquele desobjeto.

Heráclito parece gritar aqui sua teoria do movimento contínuo.

O fato é que o pente perdera a sua personalidade.

Estava encostado às raízes de uma árvore e

não servia mais nem para pentear macaco. O menino que era esquerdo

e tinha um cacoete pra poeta, justamente ele enxergava o pente, naquele

estado terminal. E o menino deu para imaginar que o pente, naquele

estado, já estaria incorporado à natureza como um rio, um osso, um

lagarto. Eu acho que as árvores colaboravam na solidão daquele pente.

(Desobjeto, III)

Nesse entrecho, é somente no final que o narrador auto-representado entra em cena, fundindo-se com o antes representado, numa consubstanciação que reforça a tese de que o 'eu' que conta se reconhece naquele do passado, mas, ao refazer seu próprio percurso, não é aquele primeiro – o contado - que tem a voz, mas sim o 'eu-atual'.

A criança surge como voz apenas fabulada, na medida em que a narração é construída do presente do adulto, ela continua um “sem voz” que tem sua vocalização possibilitada por um adulto que a conta, no desejo de revivê-la. Ainda que o desejo desse 'eu-atual' seja voltar àquele momento passado distante, ele só pode fazê-lo através da fabulação do que já foi, mas não é mais, pois como escreve Barros no posfácio de Memórias Inventadas, “se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore”.

Ele busca fazer a comunhão entre a criança que foi com o adulto que é, mas sem conseguir desvencilhar-se da visão que nesse um conjugam-se dois. Essa simbiose, de um 'eu eventual' e um 'eu-do-passado' como um diverso que se deseja mesmo, irmana-se com a que foi sofrida pelo pente e a natureza, na qual há a fusão de elementos dispersos, mas não totalmente heterogêneos.

4. REARRANJO SEMÂNTICO – ILOGISMO

Na poesia de Manoel de Barros, o enfoque não está na palavra, ou melhor dizendo, na significação. Existe maior preocupação com a construção, o visual obtido com o arranjo inusitado de palavras. A preciosidade de seus poemas reside na improvisação de formas ou combinações de uma maneira insólita, pela qual se descobrem mundos desconhecidos ou se exploram zonas ignoradas no conhecido. Ao enveredarmos na literatura barreana temos a impressão de que, por um instante, o mundo tal como o percebemos deixa de existir.

Ocorre na sua poética uma quebra do paralelismo sintático e semântico causando a agramaticalidade da frase. O esfacelamento da gramática apaga as marcações e referencialidades que asseguravam uma leitura objetiva e inteligível. Esse tipo de construção ensaia o descompasso entre as palavras e fluxo do pensamento, devolvendo ao pensamento a liberdade vertiginosa com que nos surpreende.

O desenvolvimento de sua obra simula uma escrita labiríntica: não há como seguir reto por ausência da linearidade; há uma sucessão de fragmentos que se inter-cortam e improvisam diferentes aberturas, por onde se inicia o movimento paradoxal de perder-se para melhor conhecer, sair do curso e experienciar.

Ler deixou de ser visto como simples tarefa de passar os olhos para reconhecer alguns símbolos gráficos. Ultrapassando essa primeira etapa a qual poderíamos chamar de mecânica ou superficial, o exercício da leitura constitui uma seleção e reunião de impressões que nos inquietaram, a fim de serem conjugadas com os conhecimentos previamente adquiridos. Logo as construções não se regulam pelas normas gramaticais, uma vez que sobressai o trabalho do poeta para encontrar outras maneiras de combinar de palavras, diferente do convencional. Cabe ao poeta explorar as possibilidades dispostas no código linguístico; perceber todas as possibilidades que a língua oferece.

O que para muitos é visto como absurdo e despropósito, no modo “torto” pelo qual o poeta pantaneiro concebe as coisas, aparece como exercício de linguagem, para explorar a língua nos níveis fônico, sintático e semântico. Dessa experimentação, surgem imagens como: “carregar água na peneira”, “guardador de águas”, “catar espinhos n’água”, entre outras. Classificar de absurdo tais composições assinala os limites do mundo delineado pela razão. Por que a poesia não pode ser alegre, provocar o riso?

Nos habituamos a olhar imagens prontas e, consequentemente, perdemos a desenvoltura do olhar curioso que percorre as superfícies para descobrir novidades. Temos constantemente o olho desviado para letreiros luminosos, símbolos chamativos, cartazes de cores-vivas, todos esses artifícios empregados ao mesmo tempo numa confecção para persuadir o espectador.

5. METAPOESIA

A pergunta que a poesia faz sobre si mesma, revelando as suas formas, caracteriza-a como metapoesia, marca específica de um dos impulsos da literatura da modernidade. Toda poesia sobre poesia é uma tentativa de conhecimento do ser que ela é. Há um redimensionamento da arte na realização de tal processo, porque a concepção metalinguística de construção e consciência existe para marcar oposição à concepção de arte como sentimento e expressão.

A função metalinguística na arte literária indica a dessacralização do mito da criação, ao expor o processo de criação artística ao leitor que, hoje, não mais a contempla como “algo inatingível”, algo insondável e inspirado pelo poeta, porta-voz de um objeto de privilegiados. Nesse sentido a poesia torna-se crítica da linguagem e, no nível da recepção, condiciona o leitor ao engajamento dando-lhe a condição de co-autor. A poesia não é mais um produto final; é articulação de um processo.

Outra essencial marca da poética de Manoel de Barros é a defesa da necessidade de abandonar a inteligência para o entendimento através do ser as coisas a fim de torná-las matéria de poesia. Assim é a poesia para o eu-lírico: ela tem a capacidade de atrair e encantar os homens, de fazê-los maravilharem-se com o mundo e com o que nele há, de instigar a imaginação e a criatividade, de lhes ensinar a procurar o lado não visto das coisas, de nunca se contentar com o pronto e acabado. O poema trabalha com todas as coisas de formas infinitas, nunca esgotando a capacidade de inovação da linguagem. Como no poema “Uso as palavras para compor os meus silêncios”:

Não gosto das palavras

Cansadas de informar.

Dou mais respeito

as que vivem de barriga para o chão

tipo água pedra sapo.

Entendo bem o sotaque das águas.

Dou respeito às coisas desimportantes.

Prezo insetos mais do que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas mais do que dos mísseis.

Tenho em mim um atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior que o mundo.

Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos

como as boas moscas.

Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.

Porque eu não sou da informática:

Sou da invencionática.

Só uso as palavras para compor meus silêncios.

(O apanhador de desperdícios, IX)


6. CONCLUSÃO:

Memórias Inventadas: a infância é um belo livro embalado para presente. Com sua fita azul, folhas soltas, uma infinidade de detalhes que absorvem o leitor. Tudo pensado para criar um pacto com o leitor. Propiciar uma atmosfera lúdica em que seu impacto vá se ampliando, crescendo, como uma boa lembrança sempre causa. Manoel de Barros usa e abusa de uma fórmula por ele mesmo consagrada, uma mistura de metalinguagem, retorno ao passado, linguagem infantil, ilogismo, buscando uma desconstrução e posterior recriação do universo que o circunda. Refundação aparentemente necessária para quem percebe o mundo que o cerca de maneira tão lúdica. Essa fuga do mundo presente, essa recriação dele em novas bases é como uma ponte que tenta salvar a si mesmo e a quem se propõe a pactuar desse novo universo.

7. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA E ÁS VEZES CRTL C+CRTL VEZADA:

BARROS, Manoel. Memórias Inventadas: A infância.

LINHARES, Andrea Regina Fernandes. Memórias Inventadas: Figurações do Sujeito na Escrita Autobiográfica de Manoel de Barros.

SÁ, Maria da Glória, et alli. Memória da Arte em Mato Grosso do Sul.



so
 
 

sábado, 19 de dezembro de 2009

Utopia de um homem que está cansado


Vivemos o tempo dos fenômenos anabolizados pela Internet, uma era torpedeada via Google. Novos Michaels estão sendo gestados em fábricas de fundo de quintal. Só não serão melhores, que o péssimo original, pois estrelas precisam de lendas e mitos pessoais para os engrandecer e isso demanda tempo. Tempo é o que não temos hoje. Vivemos para ser bombardeado pela próxima grande atração que durará o suficiente até que outra a supere. E assim ocorre uma substituição sem fim, numa redundância sufocante. Como músicas que baixamos aos montes e nem nos damos ao trabalho de prestar atenção de verdade, pois sempre tem uma novidade novinha em folha clamando por atenção. A voracidade e o péssimo gosto dos fregueses de novidades impressiona. Se é para ficar linkado em algo, que seja sempre aquele que se expõe mais e se joga sem medo: uma princesa Diana entre ferros retorcidos; um Bush desviando de sapatos. Nosso desejo pelo volátil é imenso. Adoramos vozes belas em invólucros esquisitos, é contra tudo o que crescemos vendo, e é o novo da estação que nós sempre queremos. Sendo estação o sucesso do dia, quiçá, da semana. Balões prateados flutuando ao encontro dos nossos desejos (ou os desejos da mídia e dos seus vampiros).


Mas sempre existirá os rebeldes. Sorrio para esses minúsculos agrupamentos de plantão. Nossos neo-hippies-passadistas. Sempre teremos em meio a toda unanimidade, focos de resistência inermes. Niilistas de fachada, fingindo ser contra tudo e todos. Nada mais fake que grupelhos que usam cabelos mau penteados propositadamente; tatuagens; a roupa que não está na moda; a camiseta do Che. Novos bandos para substituir os de antes: punks, góticos, hippies, nerds, indies, metaleiros. São a resistência ao irreversível. São os anti-tudo da nova era. Abandonados no seu córner, sem adversário para lutar: quem liga pra eles?. "Não, eu não tenho orkut, nem facebook, e odeio msn", significa dizer como em um ontem não tão longínquo: "eu odeio a sociedade, por isso moramos aqui, nessa comunidade, integrados com a natureza, livres da opressão do sistema". Bela inutilidade.

O mundo dá mais voltas que conseguimos acompanhar. Celular sem bateria; um dia sem msn; uns minutos sem trocar e-mails ou torpedos; impossibilidade de baixar mp3s; melhor o Inferno de Dante, diriam não só os jovens, mas também as crianças, os de meia-idade; os idosos. Como imaginar a vida sem internet? Minha mãe esperando na janela meu pai chegar, enquanto cuidava das roupas, dos filhos pequenos, matava uma galinha, arrancava uma cenoura do chão. Minha mãe não conheceu a internet, feliz dela? Creio que não. Imagino ela hoje, ainda esperando meu pai chegar, conversando com seus filhos e netos em São Paulo, com seus filhos e netos em Cuiabá, com seus filhos, netos, bisnetos, irmãs em Campo Grande, ela, com certeza, se sentiria bem mais completa se tivesse tido a oportunidade de algo tão futurista.

Uma vida bucólica como era da minha mãe, será, num futuro próximo, um grande hit. Fazendas ecológicas, em que o contato com a natureza, liberdade, vagarosidade, será o tradicional em voga. Serão as sacristias da modernidade galopante. Templos em que se oficiará as novas missas. Computadores ultra-high-techs, laptops mega-powers, celulares-câmeras 24 horas online, mp20, tudo desligado. Rede, só as que dormirão sonos reparadores os visitantes ilustres, ou melhor, os viciados da modernidade, ou seja, quase todo mundo.

Outra tradição de um futuro próximo será o se doar. Ser ou estar em ONGs fará toda a diferença. Dos bagres mandis do rio Paraguai aos moradores do mangue da Polinésia. Das Genis dos becos ou as de luxo às pessoas que nunca passaram num concurso público. Dos gnomos e fadas aos políticos anônimos. Todo mundo terá alguém pra chamar de seu. Algo como um bolsa-família monumental. Doar R$ 7,00 para o Criança Esperança que nada. Um mundo mais glorioso será quando todos, tradicionalmente, além da sua jornada de trabalho, partilharem de leituras de livros para cegos analfabetos. Oh, o mundo estará melhor assim? É claro, mas quem não gostará muito serão os totalitários de esquerda que perderão um nicho do seu mercado, no vale-tudo pelo social.

O Carnaval vai sobreviver. Ele, que não é mais o tradicional que conhecemos, mas vai viver e mostrar mulatas ainda rebolando quase sem roupas; celebridades com a pele pintada; comunidades em transe. O carnaval ainda vai ser algo que chamará a atenção do mundo, pois, nós somos o país do futuro, do samba, do futebol, da banana, do pré-sal e de todos os clichês possíveis, não seria justo a maior festa pagã que temos sucumbir assim assim. Que acabe o futebol, essa farra de obtusos desmilinguidos, correndo atrás de uma bola em arenas de concreto e gramados verdes como um pasto, tá, melhor não também, precisamos de toda distração possível para o povo (esse ente infeliz que sofre e sorri ao mesmo tempo que tem seus sentimentos usados pelo bando da hora).

Manteremos outras tradições. Aqui não aprenderemos a tomar o chá das cinco londrino, mas salvaremos as que mais nos representam. Pão com mortadela. Casamento na Igreja. Sentar num bar para jogar conversa fora. Festa de debutantes. Café com pão de queijo. Churrasco no fim de semana. Show caipira em festa agro. Pudim de padaria. Trote aos calouros. Banda de escola. Assistir novelas. Postar o novíssimo e revolucionário texto, que não vai ser lido por quase ninguém. Manteremos muitas das nossas tradições: da cidade, do estado, do país, pois somos saudosistas de plantão e nada como uma festa junina pra alegrar um espírito.

Já dizia um ilustre escritor: "modernos são móveis velhos e neuroses novas", e clássico o que é? Hoje é tudo que tenha um mix de velho com um élan irrepreensível de novidade. Livros velhos, fotos velhas, fatos velhos, filmes velhos. Mortos famosos. Mortes antigas. Gênios reais e do marketing pessoal. Coisas não tão vistas mas que se materializam e assombram a todos; isso é o clássico de hoje. Mas clássico mesmo num futuro próximo será tudo aquilo que conseguir burlar o tempo atual - eis o grande senhor do mundo: o Tempo, será ele o Deus tão procurado? Aquele que sobreviver à ditadura do já será o clássico do futuro. Quem sobreviverá? Twitter? Kaká? Fast food? Kuat Eco? Obama? U2? Susan Boyle? Faustão? Naruto? Paulo Coelho? Fotografia digital? Clássico, será sempre aquilo que surge e muda tudo ao redor; quebra barreiras, é imitado, e o simples fato de sabermos que existe ou existiu, nos transforma ou transformará. Como um filme do Carlitos. Como Homero e Shakespeare. Como ver Mané Garrincha colocando pra sambar um bando de joões. Hitchcock. Beatles e Ramones. All Star. Arroz feijão bife batata frita e salada. Coco Chanel. Jeans. Como Machado, Kafka e Borges, que aliás empresta o nome de um conto seu para o texto todo.



* Texto publicado no http://picidaribeiro.blog.terra.com.br/ - na verdade feito de encomenda para ela, que queria saber o que eu achava que no futuro seria clássico ou tradicional. Quase uma armadilha, pois eu, boca aberta, podia ter sido conciso e dito tudo de maneira mais simples, mas não, e tome texto enorme, para o desgosto dos fregueses.



s.o.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Faz-me rir!

Domingo à noite, um dia mórbido. Ao sairmos de casa ou embarcarmos num ônibus, o que vemos é um cenário desolador. Os mais puritanos se revestem com a engomada roupa social, fazem o melhor ar de moço bom e carregam como um tesouro a bíblia debaixo dos braços. Mães desavisadas e pais embriagados equilibram sacolas e a coleção de filhos pequenos. Nesses rostos, o que se vê é a exaustão, a catarse de quem leva uma semana árdua de trabalho e tem como único lazer o fugaz fim de semana para levar os filhos para ver a avó, a qual talvez não os receba sempre com a mesma receptividade. Os bebês nos colos manifestam seu cansaço em lágrimas torrenciais e um berro incessante. Os emos púberes acham que a vida pode realmente ser mais colorida se encherem-se de piercings e trajarem o preto cotidianamente. Os bares, lotados de homens vazios, como lembraria Vinicius, todos diante de telões gigantes que exibem um futebol que inspira palavrões e o sarcasmo com o amigo que torce pelo time que está perdendo. Os que não assistem, praticam. As ruas esburacadas transformam-se em palco para a pelada dos amadores. Senhoras desperdiçam conversas nas calçadas. Outros e outras são mais acomodados ainda e se refestelam diante de domingos que eram ão e agora caminham para inho. É difícil acreditar que possa haver vida inteligente diante de tanto marasmo, tanta insalubridade. É quase impossível crer numa salvação. Mas ela existe. E existiu no último domingo.

O santo milagroso chama-se Fulano di tal. E o milagre produzido chama-se Faz-me rir. É claro que nem todos têm a chance de ser agraciado quando eventos assim acontecem. A peça aconteceu no Palácio Popular da Cultura. Que de popular só tem mesmo o nome. O pomposo teatro fica no meio do nada, ou melhor, no meio do Parque dos Poderes. Piada de mau gosto e herança maldita de Pedro Pedrossian; todos os órgãos públicos perto um do outro. Tudo perto. Mas longe do resto da população. Pra lá os ônibus rastejam levando uma multidão de funcionários públicos e cidadãos vitimados pela burocracia. Porém, só podemos desfrutar de tal infortúnio durante a semana. Nos finais de semana, só os bem-aventurados que dispõem de carros próprios ou de meios para custear os temperamentais taxímetros é que podem lá chegar. A “gente humilde” de Chico fica fadada ao nada da televisão. Na verdade, a “gente humilde”, muita das ocasiões, passa a ser também a ser gente invisível. Que importa saber se a maioria das pessoas não podem chegar lá, uma vez que elas também não vão ter como comprar os ingressos? O Palácio é palco das grandes produções, das estrelas globais e de vez vem em quando também frívolas. E o único meio é cobrar caro para bancar os gastos. No entanto, no último domingo não foi assim com Faz-me rir. A peça de produção local teve preços populares, mas o empecilho de se chegar lá persistiu. Os que conseguiram vencê-lo amanheceram em segundas-feiras encantadas.

A peça começa com um casal fazendo uma espécie de publicidade do grupo. Contando de como ele surgiu e as piadas e confusões que sempre surgem com o curioso nome de Fulano di tal. Nessa conversa a três com público, tomamos conhecimento de forma divertida de como é a dura realidade do artista que precisa buscar patrocínio. É verdade que essa introdução nem sempre traz piadas felizes e pode por vezes desanimar o público. Mas o espetáculo vai sempre ganhando vida num ritmo crescente a cada troca de personagem, o espetáculo é feito em esquetes.

A primeira é de um casal que se conhece pela internet e marca um encontro inusitado num restaurante. O computador é o cupido ideal para juntar personalidades que se atraem e se repelem. A menina é toda colorida, toda fashion como ela mesma diz, e ele parecer ter fugido da violada mais próxima; bota, calça apertada, camisa e boné. Não faltam tipos por aí assim. Sendo assim também não faltaram doces alfinetadas à música sertaneja que impera por aqui. Isso é o mais incrível da peça: humor local. Estamos carentes disso por aqui em todas as áreas. Na música, dança, teatro, poesia, sempre que queremos falar de nós lembramos de tuiuiús, jacarés, onças e afins como se fôssemos todos descendentes de Robson Crusoé. A segunda vem falar de política criando também tipos curiosos; o laranja, a secretária atraente e ambiciosa, o assessor corruptível e no centro de tudo, o deputado que não saber lidar com as próprias tramoias e alusões à política local também são meras coincidências. Risos também com as amigas que no meio da balada começam a pensar em casamento, em escolhas, em como lidar com os homens, se compensa mais ser uma princesinha ou uma amélia. O gaúcho de profissão não-revelada no início que começa a contar de seu cotidiano de trabalho criando uma série de trocadilhos de conotação sexual. A hilaridade única da noiva embriagada que foge do noivo e trava um diálogo ébrio com o público. Os nossos olhos também saem a dançar para acompanhar os movimentos do ator que percorre uns vinte de anos de dança para mostrar o quanto evoluímos nesse quesito. Música que já tínhamos esquecido, músicas que ouvimos sem querer, outras que já ouvimos e até sabemos a coreografia apenas por odiá-las. Mas engraçado mesmo é entramos no universo infantil e assistirmos com leveza temas como a pedofilia, a sexualidade em si e todas as noias e preocupações sérias e válidas dos adultos que afligem o pequeno mundinho de nossas crianças. Enfim, é impossível não sair extasiado depois de vivermos uma noite assim.

Morra! Mas não morra antes de ver essa peça. Talvez a única ressalva se faça é quanto ao uso de microfones que talvez pudessem ser dispensados dando mais liberdade aos atores e acabando com o problema de chiados ocasionais, embora quase imperceptíveis ao público. Com pouco cenário e não muito figurino fez-se um belo espetáculo. Vale a pena gastar dinheiro com táxi para vermos algo realmente fantástico.






 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
t.c.s.