terça-feira, 1 de setembro de 2009

Distopia ou Sonho de uma noite de inverno


Às portas do Neon Concursos, uma fila gigantesca se empurrava num vai-e-vem incessante atrás do último edital pra mais um concurso que oferecia diminutas vagas com salários astronômicos. Vivia-se uma época em que a única maneira de arrumar um emprego de verdade era estar inscrito numa escola preparatória pra concursos. As escolas tradicionais eram apenas um passo antes do paraíso, muitas disciplinas foram substituídas ou simplesmente abandonadas. Biologia, Química, Literatura, Geografia, História, foram trocadas pelo estudo minucioso da Constituição Federal e das leis dos estados e municípios, de um arrombar gramáticas, destrinchar qual atalho é usado no computador pra 'salvar como' um documento. Nas bibliotecas milhares de livros jaziam abandonados.

O apocalipse se abateu numa dessas tantas tardes ocas. Eram tempos estranhos e quando desabou do céu uma chuva de livros, muitos se apavoraram e procuraram abrigos. Ilíadas, Odisséias, Dons Quixotes formavam rios surreais. O vento forte lançava os livros contra janelas que se estilhaçavam, apartamentos recebiam suas cotas de Kafkas e Rosas. Foi passageiro, tão rápido como veio a chuva dissipou-se, as cidades é que nunca mais seriam as mesmas. Pessoas apressadas corriam segurando suas leis em PDF, dirigindo-se para suas salas de aulas, fugindo do encontro com tantos livros. Capas coloridas brilhavam. Nas ruas, motoristas aturdidos, não sabiam se iam ou ficavam, em alguns para-brisas livros caíram abertos e os passageiros podiam ler poemas de Emily Dickinson, galhofas de Osvald de Andrade. Nos ônibus alguns livros acertaram em cheio alunos distraídos, alguns bem-aventurados receberam diretamente nas mãos um Vargas Llosa um Mia Couto. Pessoas vindas dos metrôs paravam assustadas e tropeçavam em Dostoievskis e Camões. Beckets absurdos boiavam em rios. Rios metafísicos de Cortázar não corriam definitivos.

O governo, ignorante, decretou estado de calamidade pública, perdendo a oportunidade de provar tão belos manás. Para limpar as ruas uma brigada especial foi criada. Tal como no filme de Truffaut, os bombeiros agora queimavam livros, pra poderem tornar as cidades novamente habitáveis. Os lixões nunca tiveram tão formoso espetáculo: Machados, Woolfs, Camus, Eças, Drummonds, Gogols, Twains, Hemingways, Dantes, todos misturados numa visão escruciante. Tropeçava-se em livros. Ao alcance das mãos Macbeths abobalhados, Macunaímas abandonados. Nem Borges na sua infinita cegueira pensou em algo tão fantástico. Muitos aproveitaram-se dessa benigna dádiva, folhearam pequenas obras-primas, redescobriram o prazer do belo. Muitos se lembraram que um dia existiu Rimbaud. Declamaram Baudelaire. Choraram novamente com Romeu e Julieta. Ouviram o clamor da espada de Aquiles no escudo de Heitor. Um mundo virado do avesso pela força dos livros.

No dia seguinte alguns gaiatos já tentavam vender livros cobrando a quantidade de páginas, mas a oferta era grande demais. Na primeira semana em alguns canteiros de obras podia-se ver cenas como mestres de obras tentando ler “Meridiano Sangrento” do Cormac Macarthy ou um “Guerra e Paz”. Alguns acidentes foram causados por motoristas, que distraídos, liam ao volante “As Metamorfoses” de Ovídio ou um conto de Tchekov. O governo continuou sua labuta de recolher esses novos cavalos de Tróia. Trocava livros por comida, livros por dinheiro. Um Orwell valia um pacote de trigo; Graciliano Ramos, a obra completa, rendia cinco quilos de arroz. No fim do mês os livros estavam devidamente recolhidos e queimados, ou escondidos por hábeis comerciantes do mercado negro. O ministro da Educação recitava um discurso em rede de tvs e rádios, afirmou, citando Conrad, que “o horror!, o horror!” já havia passado. Que novos concursos públicos estavam sendo providenciados, que todos podiam voltar às suas escolas preparatórias. Afirmou também que os culpados por tão insólita chuva só podia ser pessoas da elite, tentando desestabilizar o governo. Contra essa afirmativa membros da elite afirmaram ser isso impossível, pois eles estavam tranquilamente contando dinheiro e lendo, como sempre, best-sellers aguados, inclusive esse que foi entrevistado segurava candidamente um Chico Buarque.

Passado um tempo, sanado os problemas, um policial, doutorado à distância por uma universidade federal, circulava numa praça esperando seu dia de trabalho acabar, quando percebeu um velho com um bocado de livros ao lado. Ele folheava “Eneida” e chorava, “Medéia” e soluçava; o “Grandes Esperanças” do Dickens e ficava com um olhar vago. O velho foi recolhido a um manicômio, pois segundo o graduado policial, os livros estavam lhe fazendo muito mal. Perto, um gari, formado em Letras num curso presencial de três anos, varria displicentemente enquanto na mão esquerda portava um Shakespeare pocket e baixinho recitava: “Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer... dormir... mais nada... Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir... dormir... Talvez sonhar...”.





s.o.

sábado, 15 de agosto de 2009

Biografia de um dia só


Ao acordar e perceber que o sol já estava alto uma pequena tristeza o invadiu, rápida e atroz, mas ele a dispensou educadamente, bom cavalheiro que era. Vestiu-se lentamente e, mesmo sem entender, tudo o que fez naquele dia foi assim numa lentidão calculada. À mesa, café, que sorveu encantado. O pão, ele rasgou caprichosamente. Na sua face estampava-se um rosto elegante, descomedido. Livre das amarras criptográficas que teimavam em surgir vida afora na sua testa. Hoje ele estava decidido a aproveitar o dia, simples assim. Sem entender a razão saiu à rua com seu melhor terno, sua gravata dourada, chapéu de palha e sua bengala de cabo de marfim. Suas elegância e falta de pressa destoaram do mundo, que o acolheu mesmo assim. O dia o adotou com um céu de brigadeiro. No bar da esquina, lugar em que passou muitos do seu tempo, cumprimentou a todos, que o receberam entre aturdidos e felizes. Abraços, apertos de mão, conversas sem rumo. Uma iluminação em cada rosto, uma felicidade legítima de todos. Logo um tabuleiro surgiu, logo estava ele gargalhando diante de desesperados peões que fugiam de duas ariscas damas, numa deliciosa caçada de gato e rato. Após o almoço servido na calçada - arroz, feijão preto, bife e batatas fritas - ele avisou que iria seguir sua via-sacra. No ônibus, dispensou os lugares ofertados, jogou conversa fora com o cobrador e saltou no centro da cidade decidido a rever outros amigos. Por onde passou espalhou alegria, comeu, bebeu, até dançou, mas não se cansou. Todos que o viam partir ligeiramente embriagado de vida, não podiam disfarçar uma ponta de satisfação por ele. Companheiro fiel a vida toda: trabalhador sistemático, pai cuidadoso, marido zeloso, amante dedicado, avô brincalhão, com todos os vícios na medida correta da balança de Epicteto e uns bons dons de Epicuro que ninguém é de ferro. Aquele ser maravilhado com o mundo, o mesmo mundo que viu ruir numa só tarde em que teve sua casa invadida por ladrões, que buscavam o que não haviam perdido ali. De um infortúnio brotaram todos os outros. Era dia dos pais, a família reunida foi mantida refém durante o domingo inteiro e diante da impossibilidade de negociar, a polícia invadiu a casa. Matou bandidos e também reféns. Um desastre sólido o suficiente para que ele - sobrevivente - não mais tivesse prazer pela vida até esse azulado dia. Sua peregrinação terminou na escadaria da Igreja da cidade. Ali quedou-se, quieto e melancólico. Se deixou estar durante alguns bons instantes. Para alguns ele rezava, outros disseram que ele chorava. Se chorava ou rezava, o certo é que se consumia em dor e ausência; saudade e impaciência. Todos, em algum momento da vida choram suas lágrimas de sangue, em que temor e dor se misturam a uma vontade férrea de que tudo seja diferente. São as lágrimas da resignação. Secas as suas, a alma mais leve, o corpo fatigado, rumou para sua casa. Despediu-se ainda de alguns extraviados, acalentou uns seres noturnos. Distribuiu algumas notas que lhe restavam. Em casa, banhou-se, colocou o pijama cinzento, suas chinelas, sentou-se à mesa, ergueu um brinde à vida e bebeu seu borgonha em goles milimétricos. Sorveu sua sopa de legumes. Fumou um Porto Faria. Deitou-se, não sem antes apagar as luzes da casa. À luz do seu abajur releu "Camponeses" do Tchekov, deixando escorrer grossas lágrimas pelo destino de Sacha e Olga. Beijou um porta-retratos, bebeu um gole d'água, ajeitou-se na cama, cobrindo-se até a altura do peito. Cruzou as mãos em volta do diafragma. Não sonhou.




s.o.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Jean Charles


Quando vi Selton Mello em A Mulher Invisível, quase não o reconheci. Selton se gaba por não fazer novelas, não quer ser um “burocrata da televisão”, como ele mesmo diz. E no entanto, fez um filme que é composto majoritariamente por estrelas globais. Já cri desde o princípio que o longa não seria de todo bom. Porém, fui vê-lo confiante no potencial cômico de Selton. Ledo engano. Selton se esmera mais uma vez na sua interpretação. Mas o roteiro é sofrível. Para preencher lacunas, Selton se vale de trejeitos que soam artificiais, exagerados, incapazes de provocar o riso em que consiga usar de mais dois neurônios pra pensar. Outra interpretação que vem funcionar como tapa-buraco é a de Luana Piovani. Que surge sempre sensualíssima para ocultar eventuais falhas. A grande virtude do filme é Fernanda Torres, quase sempre impecável mesmo num papel de pouco destaque. O filme arrastou milhões ao cinema que certamente saíram de casa com dois intentos: rir e/ou ver Luana Piovani pelada. Não conseguiram nem uma coisa nem outra. Somando-se tudo, a impressão que fica é que Selton fez esse filme por dois motivos: ganhar dinheiro e dar carona ao público para ver seu outro filme, Jean Charles.
Agora Selton Mello, em Jean Charles, são outros quinhentos. Resumidamente todo mundo conhece a historia: “o brasileiro que morreu no metrô de Londres”. Isso é o básico de tudo, o que foi falado por um bom tempo nos jornais. Mas o filme é mais que isso, como Selton tem ressaltado em suas entrevistas. Dessa vez, pode-se ver realmente o que acontece com os brasileiros que vivem fora do país, sem aquele romanceado com uma novela da globo tentou contar o mesmo fato tempos atrás. Fora do pais, ninguém é totalmente honesto ou totalmente desonesto. Ninguém age desinteressadamente. A ideia de fraternidade só surge quando pode haver reciprocidade, troca de favores. Jean Charles é assim, pois já começa a trama engabelando as autoridades para que a prima, de quem é apenas amigo o tempo inteiro, possa ficar na cidade. Em Londres, há brasileiros por toda parte, todos se conhecem. Todos se ajudam quando sabem que podem ser ajudados futuramente. Oportunistas? Não! São apenas pessoas que não desperdiçam bondade porque sabem que precisam sobreviver. Jean Charles é um filme de lágrimas e risos. Nesse quesito, Luís Miranda que o diga!
t.c.s.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Restrições culturais

Outro dia, alguém me disse que ivete sangalo é MPB. Não pude deixar de concordar com essa pessoa. ivete realmente é mpb: música pobre baiana. O primeiro equívoco já começa por aí. Na verdade, MPB simplesmente não existe. Mantê-la, hoje em dia, é uma necessidade comercial. As lojas precisam manter a seçãozinha MPB, que por sinal nem sempre se encontra ali o que realmente se entende por MPB. Mas a tal MPB, antigamente, surgiu de uma necessidade da imprensa esquerdista, demolidora e idiota, nos auges dos anos 60, quando existia no ringue: Música Brasileira versus Ditadura Militar. Nessa época, surgia o Tropicalismo liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. Era também o tempo das antológicas composições de Chico Buarque. Paralelamente a toda essa efervescência, surgiam Roberto Carlos e Erasmo Carlos com a Jovem Guarda, inspirada no rock’n roll dos Beatles e Elvis Presley. O que consistia séria ameaça à soberania nacional que já não existia naquele período. Outra crítica ferrenha e mentecapta feita a Roberto Carlos é de que ele simplesmente teria sido omisso ao que os militarem estavam fazendo. Que obrigação tinha ele de fazer músicas que falassem disso? Roberto Carlos nunca foi um alienado, um insensível, um conivente e muito menos covarde. Apenas não tinha interesses em músicas políticas, esse é o único motivo por nunca ter feito canções de protesto. Porém, em meio a tanta contundência no dito meio intelectual, Maria Bethânia teve a lucidez de assistir a um programa da Jovem Guarda e dizer que era ali que estava a “vitalidade”. Foi isso que também abriu os olhos de Caetano e fechou para sempre os da mentira Geraldo Vandré. E aí surge a MPB para distinguir a “americanizada” música de Roberto Carlos da dos demais. Pura Bobagem! Naquele tempo, Caetano já tinha entendido que não havia “americanização” nenhuma. Mas o que viria a ser MPB? Certamente, uma mistura de todos aqueles ritmos que pudessem ser considerados brasileiros: o samba, o baião, o frevo, e.... O que mais é realmente é brasileiro? Está vendo só? Se fossemos levar ao pé da letra tal conceito, não teríamos nem a bossa nova. Afinal, seus principais criadores: Tom Jobim e Vinicius de Moraes eram totalmente antropófagos. Tom já tinha influência da música clássica. E Vinicius já era um conhecedor de boa parte da cultura mundial. Quando se juntaram para fazer música, tudo isso veio à tona. A música clássica, o samba, o jazz americano e todo o mais pudesse existir de influência se transformou na receita da bossa nova. Lembrando que Chega De Saudade, canção símbolo da bossa nova, já havia sido gravada por Elizeth Cardoso em 1958 e depois em 1959, por João Gilberto. Portanto, nos anos 60, já não havia mais sentido falar em MPB, uma música genuinamente brasileira, se Tom e Vinicius já estavam fazendo músicas com tudo o que pudesse existir de boas influências de dentro e fora do país. Hoje, Caetano, Chico e Roberto são justamente os primeiros a recusar o rótulo de MPB, o mesmo vale para os bons artistas que estão iniciando, como é o caso da belíssima Roberta Sá. Quem se reveste da pele MPB, certamente quer aparentar ser o que não é. Não digo que ivete o faça, pelo menos nunca vi. Mas seu público e mídia abitolados insistem em colocá-la num patamar que ela não é capaz de alcançar.

Nesse momento, cheguei a uma conclusão- que cri sábia- de como a nossa sociedade é capaz de criar ícones estúpidos. São ivetes, calypsos, vitors e leos, enfim... inimigos da hp e da música. Tais pseudo-artistas não fazem sucesso pelo talento que possam vir a ter, e sim, por uma terrível restrição musical. Uns ficam. Outros aparecem e somem, graças a deus. Alguém ainda se lembra de é o tchan? p.o box? Há jovens e outros nem tão jovens assim, hoje em dia, que simplesmente não sabem quem é Chico Buarque, quem é João Gilberto, quem foi Elis Regina, quem foi Nara Leão, quem foram Secos & Molhados. E essas mesmas pessoas são bombardeadas por uma enxurrada de lixo tóxico que escorre das rádios que tocam mais comerciais do que as ditas músicas. Essas são sempre repetidas numa sequência quase hipnótica que as pessoas ouvem atentamente ou aleatoriamente e gostam. Como não conhecem o que de resto foi produzido pelo país sentem-se maravilhadas. Alguém que conheça 10% da música produzida no Brasil entre 50 e 70 não dá nem as horas para ivetes e afins. Mas o que acontece muitas vezes é que as pessoas que conhecem esses 10% sentem-se atraídas por uma medonha euforia coletiva e para não ficar de fora, embarcam junto, numa espécie de estranha inclusão social artística. O mesmo vale para outros cenários. Dos 3 milhões de expectadores de Se Eu Fosse Você 5, quantos já viram um filme de Glauber Rocha? Dos bilhões que compram livros de paulo coeho, quantos já leram algum de Guimarães Rosa?

E para piorar esse quadro, surgem intelctualoides que vem falar em diversidade cultural. Colocam tudo no mesmo bolo (fecal). Tudo é arte. O funk é arte. O pagode é arte. O axé é arte. O sertanejo é arte. E até o bbb é arte. Até aí tudo bem. Mas quem vai a um baile funk com o seguinte pensamento: “testarei todos os limites do meu corpo inspirados por uma envolvente dança, ao retornar a casa, ainda que exaurido de forças físicas, terei disposição mental, então sentarei para ler compulsivamente um volume de Dostoievski!”? Não sejamos tolos! A diversidade só leva a uma coisa: a restrição.




t.c.s.

sábado, 7 de março de 2009

Idade Média Moderna

É com pesar que recebi certas informações essa semana. Fui alardeado por um burburinho de uma tal menina pernambucana de 9 anos que foi estuprada e engravidou de gêmeos. Nem procurei obter informações mais precisas. Infelizmente já tinha ouvido falar de casos parecidos. Pensei que essa era só mais uma noticiazinha de algum desses jornais sensacionalistas e que o caso logo ia ser esquecido, como tudo que acontece neste país. Porém, qual não foi a minha surpresa quando soube que a menina já havia feito o aborto e que estupefatamente descobri que o arcebispo de Olinda e Recife, o dom José Cardoso Sobrinho simplesmente resolveu excomungar a mãe da vítima e os médicos que resolveram tomar tal decisão. Como é que é? Excomungar? Como é que se excomunga um médico? Pensei que isso só acontecesse com padres pedófilos. Aliás, pensei que a palavra “excomunhão” nem existisse mais. Achei que isso fosse coisa dos tempos arcaicos e medonhos da Igreja. Detalhe: o arcebispo não excomungou o suspeito do crime e teve o descaramento de dizer que o aborto é um crime pior do que um estupro. Então, arcebispo, que tal legalizar o estupro em vez do aborto?

Eu particularmente sou contra legalização do aborto. Não por motivos religiosos. Apenas não acho que o Brasil esteja preparado para medidas tão heterodoxas, como a regulamentação da prostituição e a liberação das drogas. Mas especificamente no caso do aborto, eu me preocupo é com a saúde física e mental das mulheres. Será que uma mulher que comete um aborto conseguirá futuramente administrar psicologicamente isso? Qual será a reação quando vir crianças alegres a brincar no parque? O que pensará quando resolver ter novos filhos e vir-los crescendo contentemente? Será que não achará que está faltando alguém ali? E não é só isso. Como será que se comportarão as clínicas mercantilistas que surgirão? Será que tratarão as mulheres com todos os devidos cuidados para que não corram nenhum risco? E será que já se pensou no comércio que isso irá se tornar? Já vejo faixa pelas ruas: “Abortos com 50% de desconto. Faça já o seu! Em caso de gêmeos, aborte dois, pague 1!” E por aí vai....

Mas é necessário sensatez! Algo que infelizmente não houve desta vez. A comissão dos bispos teve o despautério de dizer que a Igreja sempre defendeu a vida. Será que eles já ouviram falar em inquisição? Será que o arcebispo se ofereceu para adotar os gêmeos da menina e dar-lhes saúde, educação, moradia, lazer, conforto, carinho, família. Coisas que o poder público não garante completamente. Será que o arcebispo sabe que meninas de 9 anos não estão preparadas para ser mães? E ainda mais de gêmeos? E por que excomungar médicos e a mãe da menina? Se a Igreja considera aborto pecado, como expulsa do seio dela àqueles que são os possíveis pecadores? Ao que me parece, Jesus fazia exatamente o contrário. Já pensou se Maria Madalena tivesse sido excomungada? E quem é o senhor arcebispo para dizer publicamente o que é pecado ou não? E ainda vir falar em “arrependimento”, “conversão”? Caramba! Era a vida de uma menina de 9 anos que estava em jogo. Católicos, me desculpem, mas quem merecia mesmo ser excomungado é o senhor arcebispo!
t.c.s.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O eclético


Ao surgir a pergunta: "de que tipo de música você gosta?"; a resposta devastadora que humilha meu parco intelecto: "ah, eu gosto de tudo". Essa frase merecia uma tese sociológica para ser explicada. Quem sabe um daqueles textos de Nietzsche, curtos e tão contudentes que destrói convicções mais arraigadas. Como é possível alguém gostar de tudo?

Primeiro o 'ah', essa interjeição provisória, o on/off do cérebro da pessoa. Uma pausa, a mensagem viaja milhares de quilômetros pelos cerca de 86 bilhões de neurônios estimados (em novíssima recontagem) no sistema nervoso humano. Sabe lá o que é isso? Um corpo celular, em que os dendritos recebem sinais elétricos de outros neurônios e dos axônios, esses sinais chamados de sinapses são transpostadas por várias substâncias químicas chamadas neurotransmissores; esse bombardeio gera ondas de corrente elétrica, excitantes ou inibitórias, logo os neurônios caracterizam-se pelos processos que conduzem impulsos nervosos para o corpo e do corpo para a célula nervosa. Senhoras e senhores, tanto trabalho, para depois do "ah', sair um pífio 'eu gosto de tudo'. Como é possível esse espetáculo humano com nome de cérebro, capaz de decodificar milhões de informações por micro-segundos, se reduzir, na grande maioria, num patético e simplório 'tudo'. Como assim gosta de tudo, o que significa esse tudo.

A explicação vem fácil, como notícia ruim, eu gosto de um pouco de cada coisa. De axé, de sertanejo, de pagode, da morte da bezerra, de comida estragada. "Aquela música que toca na novela, como chama mesmo?". O complemento piora o soneto - se é que existe um soneto, algo tão delicado, nessa maçaroca que é 'o tudo, ou um pouco de tudo'. Talvez no cérebro dessas pessoas falte alguma peça, os hemisférios cerebrais, por exemplo, que são os responsáveis pela inteligência e pelo raciocínio, quiçá só um sentido ou uma vontade schopenhauriana mais apurada de definição. É como ter um telescópio em casa e olhar todas as estrelas sem reparar em nenhuma especificamente. Quem sabe o 'tudo' a que se referem seja só uma chamariz, uma ponte que aguarda do outro lado da conversa uma confirmação ou uma negação contra a hipotética resposta. Dependendo do receptor da mensagem, o assunto pode partir para caminhos mais amenos, como uma troca de listinha de as mil mais favoritas, ou uma ouvida do mp4 do novo companheiro de indefinição.

Sendo a resposta um cenho franzido, como que dizendo: "quê?"; o indefinido é obrigado a se definir, afinar sua resposta. "Bom, eu gosto mesmo é de ouvir sertanejo de raiz (aqui o 'raiz' é mais um disfarce para tentar enrolar o perguntador chato); ou, eu gosto é da Ivete (como que afirmando isso, a discussão estará encerrada, por ela ser uma pessoa que um em cada dois gostam). Não encerra, não se enrola, não pode existir ambigüidade numa questão tão simples. Que tipo de música você gosta?

Que merda é essa gosta de um pouco de tudo? Seu...seu...eclético? (aqui a conversa acaba, chamar uma pessoa de eclético é o pior dos xingamentos).



s.o.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Texto

É preciso aprender a chamar o texto apenas de texto. O chamativo mais nobre que se pode dar a um texto é justamente chamá-lo de texto. Nada de definições. Pegue a lista telefônica. Pegue o jornal. Pegue o panfleto. Pegue a lista de compra. Pegue as palavras cruzadas. Nada disso! São todos textos! Chamá-los-emos apenas de textos! Definir o texto, chamando-o pelo seu gênero textual é esquecer sua real desimportância. É procurar nele utilidade prática. Quando na verdade, não há utilidade prática em texto algum. Por que lemos então? Pra que lemos então? Para nada! Por que vivemos então? Pra que vivemos? Para nada também. Dessa forma, é em busca do nada que devemos ir. E não vamos chegar a nada algum enquanto continuarmos a não chamar os textos de textos. Já não basta exigirmos que as pessoas se definam? se classifiquem? se nomeiem? Quando o bom mesmo é não ter nome algum, classificação alguma. Só assim somos realmente célebres. Esqueçamos o tecnicismo dos linguistas com seus mais de cinco mil gêneros textuais. O bom mesmo é ter só um gênero textual. O gênero textual texto. A tipologia texto. Sem função. Sem origem. Sem forma. Sem conteúdo. O conteúdo é justamente não querer encontrar conteúdo. Já temos conteúdo demais. Conteúdos que não queremos ter. Informações que não queremos ter. Já sabemos demais sobre pessoas que não nos interessa nenhum pouco. Não vamos fazer com que o texto nos informe justamente o que ele não quer nos informar. Não faremos de nossos textos celebridades. Dá-los-emos o direito de anonimato eterno.
t.c.s.