quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Texto

É preciso aprender a chamar o texto apenas de texto. O chamativo mais nobre que se pode dar a um texto é justamente chamá-lo de texto. Nada de definições. Pegue a lista telefônica. Pegue o jornal. Pegue o panfleto. Pegue a lista de compra. Pegue as palavras cruzadas. Nada disso! São todos textos! Chamá-los-emos apenas de textos! Definir o texto, chamando-o pelo seu gênero textual é esquecer sua real desimportância. É procurar nele utilidade prática. Quando na verdade, não há utilidade prática em texto algum. Por que lemos então? Pra que lemos então? Para nada! Por que vivemos então? Pra que vivemos? Para nada também. Dessa forma, é em busca do nada que devemos ir. E não vamos chegar a nada algum enquanto continuarmos a não chamar os textos de textos. Já não basta exigirmos que as pessoas se definam? se classifiquem? se nomeiem? Quando o bom mesmo é não ter nome algum, classificação alguma. Só assim somos realmente célebres. Esqueçamos o tecnicismo dos linguistas com seus mais de cinco mil gêneros textuais. O bom mesmo é ter só um gênero textual. O gênero textual texto. A tipologia texto. Sem função. Sem origem. Sem forma. Sem conteúdo. O conteúdo é justamente não querer encontrar conteúdo. Já temos conteúdo demais. Conteúdos que não queremos ter. Informações que não queremos ter. Já sabemos demais sobre pessoas que não nos interessa nenhum pouco. Não vamos fazer com que o texto nos informe justamente o que ele não quer nos informar. Não faremos de nossos textos celebridades. Dá-los-emos o direito de anonimato eterno.
t.c.s.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Fingindo um conto: Mais um pierrô


O café da manhã já não tinha sido, como também não o seria o almoço, se até a hora em que as panelas de feijões são abertas e o cheiro de alho vai dominando a paisagem, ele não cuidasse do problema com seriedade. Mas era um dia diferente, sábado de carnaval, a alegria tantos dias enrodilhada como serpente, vai se abrindo em todos os rostos. Para quê pensar em problemas, perder-se em lembranças vagas e desinteressantes se para todo lugar em que olhava era só aquela irresistível energia no ar? Parecia que lhe ordenavam: "vá, se perder por aí", contrariando mutantes de honrosa glória. Conquistou (depois de flanelar uma manhã inteira) o direito de engolir, com uma felicidade inabalável, um sanduíche recheado com mortadela Sadilar (de horrível aspecto), bebericou um achocolatado e por tudo não gastou nem R$ 3,00. Andava assim a ermo, verificando que aqui não era a Bahia e muito menos o Rio de Janeiro, onde o carnaval parece fluir de cada olhar. As pessoas que não viajaram, seguem sua rotina de vendedores de Casas Bahia, de atendentes de Americanas, uniformizados e infelizes. Mas para ele, a televisão não mentia, viu, num ponto de mototaxistas, imagens do desfile das escolas de samba de São Paulo e achou muito lindo a desfile da X-9, mas ele torce mesmo é pela Gaviões da Fiel; nem sabe a razão de estender à escola de samba a paixão que sente pelo time, mas todo mundo faz assim, com ele não seria diferente. O que ele aguardava era a noite chegar, quando a festa enfim se estenderia pra todos, no gigantesco e gratuito baile popular. Ele gostava daquilo, o aperto, o empurra-empurra, a cachaça, as mulheres - tantas quanto ele pudesse ganhar. Deitou para descansar num prédio abandonado, sua casa era longe demais e não valia a pernada, nem o passe que ele ainda não ganhara. Antes do sono, fumou, lutando bravamente pra não pensar em nada. Quando despertou a noite já o havia abraçado, e no relógio da Calógeras viu que já era hora de cobrar a sua cota de felicidade. Se misturou ao povo, era um deles, na mão um copo de caipirinha amargosa e aguada, mas para ele forte o bastante pra deixá-lo levemente embriagado e ainda mais feliz. Evitando pular demais por conta da falta de comida, ficava rodeando grupos de mulheres, cobiçando aqui e ali. Quanto mais se perdia em meio à multidão, mais transpirava uma alegria intangível, mais bebia, mais se soltava e suas mãos eram abandonadas ao encontro dos corpos; não evitava mais as trombadas com os homens; e, enquanto aqui colhia uma passada de mão numa bunda de aparência duvidosa, ali olhava feio para um outro folião que lhe pisou no pé. A cachaça acabara e ele procurava em latas no chão um gole final de cerveja. A fome, a falsa alegria, o álcool turvaram seus olhos de vez, o cérebro como que se desligou, as luzes tremiam, o chão faltava ou sobrava, a multidão o espremia, o ar ficou rarefeito, flashs agrediam suas retinas, a força se esvaía. Caiu, levantou...tropeçou e ali mesmo ficou...a alegria o cercava por todos os lados...pensou na mãe...pensou que pensava; sonhou que ria, dançava e que era feliz...



"Um corpo foi encontrado no meio de um matagal no bairro Tijuca 2. Levou um tiro no rosto, estava sem documentos, a vítima aguarda no necrotério para uma possível identificação. Aparenta ter entre 30 e 35 anos, está vestido de bermuda preta, camiseta do Corinthians e descalço."
* Imagem: Pierrot - Toru Iwaya/1976




s.o.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Santa Joana


O Nobel de Literatura de 1925 quase não foi entregue a Bernard Shaw, ele estava tentado a não aceitar a honraria. A solução para que o fizesse veio depois de muitos acordos, que culminaram com o eleito recusando-se a aceitar a generosa quantia que cada ganhador tem direito – hoje algo um pouco maior que um milhão de dólares. Resolveram criar uma Fundação que se dedicaria a traduzir livros de autores suecos para o inglês, o que agradou a ambos os lados.

De obra extensa, e que, possivelmente, nunca leremos tudo, mas que vale cada minuto empregado nesta empreitada. A literatura atual, de maneira geral e global, perde seu status de um novo Gênesis, e vai-se abrindo a meras obras passíveis de uma venda fácil, uma possível adaptação cinematográfica – movimentando uma lucrativa indústria de venda dos direitos autorais. Não temos mais os clássicos, da maneira que definia Borges: “Clássico é aquele livro que uma nação, ou um grupo de nações, ou o longo tempo decidiram ler como se em suas páginas tudo fosse deliberado, fatal, profundo como o cosmos e passível de interpretações sem fim”.

Os livros pulam das páginas para a tela, e ficamos desorientados com tamanha falta de pudor. Quando vi o “Animal Agonizante” do Philip Roth transformado em “Fatal”, com generosos closes dos seios de Penélope Cruz; e com os precisos músculos do Ben Kingsley, me tornei o próprio ser que agoniza. Para Mallarmé “o mundo existe para chegar a um livro”; existia, hoje se não se transformar em um bom roteiro, ocorrerá com ele um abandono cruel. Não existem mais autores e sim roteiristas travestidos de escritores.

Voltemos ao Sir Bernard – lá, não como cá, ocorre uma preservação das grandes personalidades, Machado que o diga, que até hoje tem sua obra devassada por críticos marxistas e defensores dos direitos raciais. Se em “A Profissão da Senhora Warren”, temos um embate de gerações, quase impensável hoje, com uma mãe, dona de prostíbulos pela Europa, patrocinando os estudos e a boa vida da filha, até que a verdade fosse posta na mesa, e a guerra declarada. Em “Pigmalião” temos uma comédia generosa sobre costumes e... fonética. O livro que me encantou mesmo foi “Santa Joana”, com seu prefácio caudaloso, e a impensável defesa de um inglês da santa francesa. Ler este prefácio nos conduz à peça, ler a peça faz com que pensemos no prefácio, e um não sobreviveria sem o outro - e ambos o conduziram ao Nobel.

“A verdade” dizia Shaw “está atravessada em nossas gargantas por causa do molho com que é servida; jamais descerá enquanto não a tomarmos sem molho algum”; qual é essa verdade? A de que é possível escrever grandes livros, uma peça gigantesca com três horas de duração, carregada de verdades profundamente verificadas, pois para ele a época estava cheia de pessoas que só iam assistir a peças para ter algo como uma diversão frugal, sem contudo as mesmas poderem tratar de assuntos de relevância, algo parecido ocorre com o cinema de Ingmar Bergman e Woody Allen que se contrapunham à frugalidade de Hollywood e foram taxados de elitistas e chatos.

Nota-se isso até com o filme sobre Joana D’Arc do francês Luc Bresson, trazido à vida por uma modelo de olhos azuis. O ufanismo não teve a contundência da Santa de Bernard Shaw – o que por si só é uma glória sem fim, para um socialista de língua ferina como ele. No prefácio sobram umas ríspidas palavras até pra alguém do quilate de Shakespeare – que para Bernard não criaria pessoas e sim simulacros impossíveis de serem reais. Assim temos uma santa de feições rudes, mas ou menos como os cientistas informam que seria Jesus (com cara de pastor e barba de um palestino comum). A história tem a mania de atribuir a atos bondosos, feições bondosas, como se uma pessoa feia de rosto tivesse que ser necessariamente horrenda de atitudes – um Corcunda de Notre Dame sem Victor Hugo.

Mas se Shaw defende a santa, também defende quem a julgou, se as visões de Joana eram heresias a de Lutero, que atirou um tinteiro no diabo, também seria. E nessa gangorra ele ainda ensina os procedimentos de uma boa pesquisa, mergulhar na época em questão, buscando imparcialidade pra que o texto seja o mais verídico possível. Esse era Bernard Shaw, alguém para quem: “Milagres são belos e grandes coisas. Há porém uma dificuldade. Nos tempos atuais eles não acontecem”. Assim como bons livros, grandes autores e nenhuma pretensão além da criação literária. “A obra de Shaw, ao contrário, deixa um sabor de libertação. O sabor das doutrinas do Pórtico e o sabor das sagas”, assim o disse Borges.



s.o.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Ensaio sobre a cegueira


A humanidade, tal qual a conhecemos, é uma eterna caixa de Pandora, um labirinto eternamente retornando a lugar nenhum, provocando sustos, terror, piedade, agonia. O ser humano – imagem e semelhança de seu Criador – de posse do seu livre-arbítrio – seja lá o que isso for -, segue sendo um mero caçador e coletor, só que um pouco mais refinado, séculos de filosofia ou de um darwinismo mal empregado depois. Rodando junto com as engrenagens do sistema, finge encontrar felicidade em latas de conserva; em carros velozes; em caixas residenciais. Perdeu-se a beleza simples de viver, morre-se por bem pouca coisa; vive-se em busca de conquistas efêmeras.

“Ensaio sobre a cegueira” do português José Saramago, brota dessas pequenas (in)certezas. Ateu de carteirinha, quiçá o último comunista a assim se autodenominar, foca seu radar no ser humano, percebe que ele está rodeado pelas facilidades da modernidade. Despe esse ser, tirando-lhe a visão e joga-o de volta à arena que é seu próprio mundo, numa crítica contundente a valores tão caros ao capitalismo. O Nobel de Literatura de 1998, quer mostrar o quão servil é o ser humano; que “o medo cega”; ele questiona a grande humanidade escrava de suas próprias maquinações.

Quanto vale a dignidade? O que estamos dispostos a fazer quando nos falta o mínimo? Saramago roça no homus modernus suas cascas dormentes; retira-lhes a liberdade; não derruba nenhum prédio, apenas insinuando as inutilidades das conquistas tão dispendiosas e prodigiosas da humanidade e por extensão do capital. Faz com que as pessoas percorram o caminho inverso que nos trouxe até aqui, desumaniza o ser pra provar que todos “estão cheios de medo e obedecem ordens”. E não conseguem perceber um palmo além das próprias narinas e maus sentimentos, pois vivem iludidos e presos a convicções alheias.

Chamado, ironicamente, de parábola, “Ensaio” é uma alegoria catastrófica – o que parece ser uma obsessão do autor. Para Saramago a humanidade só se dá conta da verdadeira realidade quando vive um momento extremo. Passa por uma série de experiências únicas, e assim o indivíduo pode se rever, se reabilitar, perceber o mundo que o cerca, sem máscaras ou “avaliações-de-fachada” como dizia Nietzsche. O novo ser humano, em Saramago, só pode ter o direito a viver novamente se busca o saber das origens, o retorno ao útero materno, uma descida na caverna da alma. Uma alma socialista, se isso é possível.

Provado a total inutilidade de sistemas, que somos todos “cegos de olhos e sentimentos”; que “os animais são como as pessoas, acabam por habituar-se a tudo”; que “dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”; resta enfim uma pergunta: a obra de José Saramago era ou é tão boa assim a ponto de merecer um Nobel? Abandonando o ufanismo da língua mátria, acho que não. Palmilho seus livros (sem muita convicção),venço conceitos arcaicos, ultrapasso pensamentos mofados caídos na lata do lixo da história, e não consigo entender tamanha honraria.

As trágicas fantasias elaboradas pelo português agradam, talvez, por serem “aliciadores de espírito”, causarem mal estar entre seus leitores – o que pode ser confundido com um momento realmente sublime – mas se nos aprofundamos em seus escritos, eventualmente, toparemos com idéias mórbidas e fossilizadas a respeito de tudo, de tudo o que não é socialista-marxista, divisível. Mas será que milhões de vidas desperdiçadas em ambos os lados da trincheira: a do capital, triunfalmente selvagem; e o do socialismo, notoriamente anti-democrático, já não bastaram? Ainda são realmente necessários livros como “Ensaio sobre a cegueira” pra sabermos que o mundo é vil, que o ser humano é pérfido e que estamos fadados, ou a um fracasso total ou um fim mentiroso? Creio que não, para mim cheira a falsa devoção ou só hipocrisia. Voltemos a Machado.
so

domingo, 28 de dezembro de 2008

Ensaio Sobre A Cegueira

Uma palavra vale mais que mil imagens. Não restam dúvidas. Contudo, leitores compulsivos quando começam a ser tornam cinéfilos passam a conviver com um eterno drama. Os olhos estão sujeitos a uma divisão cruel. E é impossível escolher. Como homem que realmente é capaz de amar na mesma intensidade a amante e a esposa.
Olhos que se encantam com bibliotecas, livros, capas, páginas, capítulos, parágrafos, frases, palavras, letras querem igualmente se encantar com cinemas, filmes, cartazes, cenas, imagens, diálogos. Mas sabemos que é impossível um encaixe de côncavo e convexo entre cinema e literatura. Porém, Fernando Meireles quase o faz com êxito. Eu disse quase.
Somos levados ao cinema quase que por um patriotismo idiota. Uma espécie de solidariedade com o diretor brasileiro que já nos surpreendeu com Cidade De Deus. Chegamos quase a delirar com a possibilidade de um Oscar inexistente. Os mais insensatos chegam até mesmo a esquecer que se trata de uma adaptação. E que José Saramago não é nenhum Dan Brown ou tampouco uma J.K. Rowling, cujos livros já são quase que roteiros prontos. A escrita do autor português é por vezes permeada por uma complexidade quase que impenetrável. Transpor tudo isso para a tela não é tarefa muito fácil. Porém, Fernando Meireles quase o faz com êxito. Eu disse quase.
Já na primeira cena, uma decepção recôndita. “Os atores não falam português? Mas como?”. No entanto, logo a inconsciência verde-amarela nos diz: “Mas você não quer nada hein? Além de adaptarem para o cinema americano a obra de um autor de língua portuguesa, você ainda queria que mantivessem o idioma original?”. Tratamos de esconder nosso orgulho e seguimos atentos.
Na medida do possível, o filme vai tentando ser fiel ao livro. Todavia, não demora muito para mais uma decepção. Não vamos cortar o dedo junto com o primeiro cego. E quase não vamos nos chocar com esposa insensível e leiga da enfermidade do marido que o fez bagunçar a casa toda. E o que se dirá do orgasmo da “rapariga de óculos escuros” (que assim não é mais chamada), tão fugaz quanto o masculino? Os personagens de Cegueira (o livro) não possuem nome, possuem rótulos. O “médico”, “a mulher do médico”, “o rapazinho estrábico”, “o velho da venda preta”, “o ladrão de carro”, “ a recepcionista do hotel”, “o motorista de táxi”, “o policial” e assim por diante... Durante todo o filme, é isso que nos falta: a narração de Saramago, a escrita portuguesa com seus termos incomuns para nós e suas particularidades ortográficas de “cépticos”, “adoptar”, “reflecção”, “retrete” e etc... E onde está o maravilhoso “cão das lágrimas”? Ele até está lá, mas não há ninguém que lhe dê uma nomenclatura digna.
Saramago em sarcasmos aos detratores do filme, disse à Revista Bravo!: “[...] não obstante as incompreensões de certa critica que diz que o filme é demasiado violento. Pelo visto esses críticos não costumam ver televisão.” Não, Meu Caro Saramago, quem quiser violência não necessita recorrer à televisão, basta que leia o livro. O livro consegue ser muito mais chocante que o filme. Os cegos em desordem dentro do manicômio, as mulheres sendo assediadas. A terrível libido masculina. É indescritível a sensação diante do sanguinolento sexo oral. O cheiro nauseabundo que emana daquele chão como um esgoto improvisado, onde realmente já se tornou um reservatório de urina e fezes. O filme não é nem mesmo capaz de nos trazer a repulsa pelos excrementos que nem ao menos aparecem. Saramago sabe ser repulsivo na hora certa, e assim surge sempre nas horas que menos esperamos. E no filme, onde está o fogo fátuo dos inúmeros corpos, na segunda ida ao supermercado? Sabe ser sensível, quando já não temos força nenhuma. Somos acolhidos nos braços da única pessoa que ainda enxerga, “a mulher do médico”. Que já passa a ser a nossa mulher, tamanho amor e solicitude com que ela nos trata. Somos seduzidos por sua beleza revestida numa penúria de vaidade. Ela e todas as demais mulheres.
Difícil é chegar a um denominador comum quando passamos a pensar quais eram os intuitos de Saramago com esse livro. Mas o mais louvável de se responder é que cegos somos todos nós. Todos nós padecemos do “mau branco”. Ao ver aqueles personagens sendo apresentados apenas por rótulos, nos identificamos imediatamente. É essa a multidão em que vivemos todos os dias. Os cegos se digladiando em busca de leito ou comida como se assemelham com nós quando queremos adentrar ao ônibus. Os humanos são todos cegos. E vivem e morrem sem descobri-lo.

Tem coisas que só Saramago faz por você:

“Ao mover-se em direção à sala de estar, e apesar da prudente lentidão com que avançava, deslizando a mão hesitante ao longo da parede, fez cair ao chão uma jarra de flores de que não estava à espera. [...] Quis recolher as flores, mas não pensou nos vidros partidos, uma lasca longa, finíssima, espetou-se lhe num dedo, e ele tornou a lacrimejar de dor, de abandono, como uma criança, cego de brancura, no meio duma casa que, com o declinar da tarde já começava a escurecer”

“Saíram dois hóspedes, um casal idoso, ela passou para dentro, premiu o botão do terceiro andar, trezentos e doze era o número que a esperava, é aqui, bateu diretamente à porta, dez minutos depois estava nua, aos quinze gemia, aos dezoito sussurrava palavras de amor, que já não tinha necessidade de fingir, aos vinte começava a perder a cabeça, aos vinte e um sentiu que o corpo se lhe despedaçava de prazer, aos vinte e dois gritou, Agora, agora, e quando recuperou a consciência disse, exausta e feliz, Ainda vejo tudo branco”.

“Não é só o estado em que rapidamente chegaram as sentinas, antros fétidos, como deverão ser, no inferno, os desaguadoiros das almas condenadas, é também a falta de respeito de uns ou súbita urgência de outros que, em pouquíssimo tempo, tornaram os corredores e outros lugares de passagem em retretes que começaram a ser de ocasião e se tornaram de costume”.

“As mulheres, todas elas, já estavam a gritar, ouviam-se golpes, bofetadas, ordens. Calem-se, suas putas, estas gajas são todas iguais, sempre têm de pôr-se aos berros, Dá-lhe com força que se calará, Deixem-nas chegar a minha vez e já vão ver como pedem mais”

“Chupa, e deixa-te de conversa fina, Não, Ou chupa, ou na tua camarata nunca mais entrará uma migalha de pão, vai lá dizer-lhe se não comerem é porque te recusaste a chupar-me, e depois volta para me contar o que sucedeu”.

“Não chegarás a gozar, pensou a mulher do médico, e fez descer violentamente o braço. A tesoura enterrou-se lhe com toda a força na garganta do cego, girando sobre si mesma lutou contra as cartilagens e os tecidos membranosos, depois furiosamente continuou até ser detida pelas vértebras cervicais. O grito mal se ouviu, podia ser o ronco de outro animal de quem estivesse a ejacular, como a outros já estava sucedendo, e talvez o fosse, na verdade, ao mesmo tempo que um jato de sangue lhe jorrara na cara, a cega recebia na boca a descarga convulsiva do sêmen”.

“Não, só vi que havia fogos-fátuos agarrados às frinchas, estavam ali agarrados e dançavam, não se soltavam”

“Alguém tinha deitado a mão ao último farrapo que mal a tapava da cintura pra cima, agora ia de peitos descobertos, por eles, lustralmente, palavra fina, lhe escorria a água do céu”

“Não podem imaginar que estão ali três mulheres nuas, nuas como vieram ao mundo, parecem loucas, devem de estar loucas, pessoas em seu perfeito juízo não se vão pôr a lavar numa varanda exposta aos reparos da vizinhança, menos ainda naquela figura”

“Os cães rodearam-na, farejaram os sacos, mas sem convicção, como se já lhe tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar prantos”.

“O cão das lágrimas anda a farejar inquieto, demorou-se a pesquisar um certo monte de lixo, provavelmente havia escondido debaixo dele uma supina iguaria que agora não consegue encontrar, se estivesse sozinho não arredaria pé, mas a mulher que chorou já vai lá adiante, é seu dever ir atrás dela, nunca se sabe se terá que enxugar outras lágrimas”.
t.c.s

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Tempos Modernos – um capítulo abandonado


Os anos que antecedem o início do século XX, são pródigos de acontecimentos premonitórios dos cataclísmicos dias que irão brotar com os novos tempos. O ser humano alcança um nível de progresso impressionante mas que ainda não é nada se comparado com o que está por surgir. Com uma capacidade infinita e não dominada o homem entra numa espiral de construção e desconstrução do mundo em que vive. “A noção de Darwin relativa à sobrevivência do mais adaptável”, havia se tornado um elemento-chave tanto para conceitos marxistas de luta de classes, quanto para as filosofias raciais anti-semitas. Com o aprofundamento da Revolução Industrial o homem “torna-se o prisioneiro destas máquinas que fabrica em grande escala. Põe-se a adorá-la como o selvagem a seus ídolos”.

A guerra “higiene do mundo”, leva a humanidade a rever seus conceitos; “milhões de homens ficavam uns diante dos outros nos parapeitos de trincheiras barricadas com saco de areia, sob as quais viviam como – e com – ratos e piolhos”. A modernidade se apresenta para o mundo na forma de armas, bombas, produtos bacteriológicos e milhões de mortos, “o passado estava fora de alcance, o futuro fora adiado, o presente era amargo”. A humanidade descobre, da pior maneira possível, que “não só a sociedade moderna é um cárcere, como as pessoas que aí vivem foram moldadas por suas barras, somos seres sem espíritos, sem coração, sem identidade sexual ou pessoal – quase podíamos dizer: sem ser”.

No interstício entre uma e outra guerra, além de juntar os cacos possíveis, as idéias de Sigmund Freud começam a ser lidas com interesse, “Freud era uma figura famosa e polêmica em círculos especializados médicos e psiquiátricos. Mas foi somente no final da guerra que suas idéias começaram a circular como moeda corrente”. Ele era uma alternativa mais humana aos tratamentos que, eram utilizados antes do conflito, e que continuavam sendo, só que agora nos heróicos soldados sobreviventes da guerra, de onde uma grande maioria, voltou profundamente traumatizada. Muitos, aos choques elétricos que eram submetidos, preferiam o suicídio. Com os valores tão em baixa, sentindo-se oprimidos pelo mundo novo que tanto haviam desejado, mas que não estavam ainda acostumados e que se apresentava em mutação constante, as idéias de Freud vieram somar e embaralhar ainda mais essa fragilidade do homem que tateava na busca pelo seu lugar. Freud era competente também para fabricar slogans fantásticos, inventava palavras e expressões que se tornariam quase como que uma síntese desses tempos, sendo assim um protagonista explosivo e necessário nessa ainda incipiente idéia de modernidade que surgia.

Como ele, outro que abalou essas mesmas frágeis estruturas, foi Albert Einstein, “a descoberta de que o espaço e o tempo são relativos, em vez de serem termos absolutos de medida, é comparável, no seu efeito da nossa percepção do mundo, ao primeiro uso da perspectiva na arte, ocorrida na Grécia nas décadas de 500-480 a.C”. Com tantos paradigmas sendo quebrados podemos compreender, agora, a razão pela qual “a moderna humanidade se vê em meio a uma enorme ausência e vazio de valores, mas, ao mesmo tempo, em meio a uma desconcertante abundância de possibilidades”. Todas essas alterações são sentidas, mas a absorção é lenta, não se derruba facilmente pensamentos arraigados.

Em meio à toda essa convulsão vivida, agravada pelo nível a que chegou a industrialização, a guerra pelos mercados que já havia criado a aberração das colonizações financeiras, onde os grandes impérios (poucos países) comandavam com mão de ferro, as idéias de Karl Marx enfim são colocadas à prova, é a Revolução Socialista russa; num mundo acostumado ao fazer capitalista, às desigualdades sociais, um mundo dominado pelo poder e pelas diferenças, na qual as idéias marxistas sempre pintavam um mundo mais ameno e sobreviviam quase que como uma utopia, esse embrião “oferecia a prova de que a grande mudança começara”. Era como se um novo mundo tivesse surgido do nada, “como os primeiros cristãos, a maioria dos socialistas pré-1914 era de crentes na grande mudança apocalíptica que iria abolir tudo que era mal e trazer uma sociedade sem infelicidade, opressão, desigualdade e injustiça”. “Marx, Freud, Einstein, todos transmitiram a mesma mensagem para a década de 20: o mundo não era o que parecia ser”.

Paralelo às mudanças em diversas áreas, o mundo seguia de convulsão em convulsão como um cambaleante doente terminal. Para agravar a humanidade ainda vai passar pela Grande Depressão de 1929, onde “a imagem predominante na época era a das filas de sopa, de 'Marchas da Fome' saindo das comunidades industriais sem fumaças nas chaminés onde nenhum aço ou navio era feito e convergido para as capitais das cidades, para denunciar aqueles que julgavam responsáveis”. Com as feridas mal curadas da 1ª Guerra, o desemprego, a fome, uma humanidade incrédula, imóvel como peças de um grande jogo, logo acontece a 2ª Grande Guerra, que serviu para que o ser humano percebesse que “o mal não está somente em suas criações, mas dentro de si mesmo”.

Se com a 1ª Guerra Mundial o descrédito no ser humano já beirou o paroxismo, a nova empreitada assombrará seus pensamentos e atos futuros por gerações afora; “as maiores crueldades de nosso século foram as crueldades impessoais decididas a distância, de sistema e rotina, sobretudo quando podiam ser justificadas como lamentáveis necessidades operacionais”. A “guerra total” produziu improváveis conjunturas, uma devastação impensável, trilhou o caminho do Holocausto dos judeus (não só judeus, mas principalmente) e aterrissou na criação e utilização da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki. Suas perdas são literalmente incalculáveis, e mesmo estimativas aproximadas se mostram impossíveis, pois “a guerra (ao contrário da Primeira Guerra Mundial) matou tão prontamente civis quanto pessoas de uniforme, e grande parte da pior matança se deu em regiões, ou momentos, em que não havia ninguém a postos para contar, ou se importar”.

O pós-guerra trouxe com ele um período novo, onde “a modernidade une a espécie humana, porém, é uma unidade paradoxal, une desunindo, nos jogando no turbilhão de permanente desintegração e mudança, luta e contradição, ambigüidade e angústia”, e foram nesses turbilhões que brotaram as vanguardas modernistas, que tentavam responder entre histérica e inteligentemente, ágil e provocadoramente aos questionamentos que surgiam numa época onde predominou a escuridão, tal qual o manto negro que cobriu a Idade Média, de onde a humanidade saiu para a revolução do Renascimento. “Acalmados os sobreviventes da guerra, pensadas as feridas, reparadas as ruínas, sem choques, sem riscos de qualquer espécie, o regime pode acreditar que se abre à sua frente uma nova era de prosperidade”, e de onde a sanidade só foi mantida graças a manutenção da fé do ser humano na arte, pois foi através dela que o homem saiu, no fim do túnel, ainda com esperança que tempos melhores poderiam surgir.
p.s.: esse era a primeira parte do primeiro capítulo da minha monografia de conclusão de curso, extenso, descritivo, perdia-se tentando explicar tudo detalhadamente, e por infortúnio me esqueci do Nietzsche, logo abandonei esse e recomecei - os recomeços são gloriosos - mas até que isso aí em cima não está de todo mal, acho eu, como todo pai acha bonito seu filho.
s.o.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Diga sim ao preconceito!

Roberto DaMatta diz que “o brasileiro tem preconceito de ter preconceito”. Isso é incontestável. Dificilmente, você vai encontrar alguém que diga com palavras claras que odeia e quer matar todos os negros e homossexuais. O preconceito está implícito. Ele aparecerá quando você cruzar com um negro mal vestido, em alguma rua deserta, ou quando um homossexual simpático vier puxar assunto com você, em algum ponto de ônibus.

Preconceitos assim são abomináveis e dignos de repúdio.

Mas nessa luta contra o preconceito, somos levados a identificar como preconceito aquilo que não é preconceito, e sim, apenas bom senso. Bom gosto. Cria-se a ilusão de que todos têm direito de se expressar. Não faltam caetanos para propagar essa falácia. Em nome de uma patética fraternidade intelectual, somos influenciados a aceitar de tudo, para que não sejamos tidos com preconceituosos. Temos a obrigação de ser tolos. Devemos aceitar como literatura o que não é literatura. Devemos aceitar como música o que não é música. Devemos aceitar como arte o que não é arte. Isso quando não somos importunados por um estúpido provincianismo. Gente que diz estar em busca de manter culturas regionais, e deturpa origens criando frankensteins artísticos. Diariamente, rádios repetem hipnoticamente deprimentes seqüências. Ouvidos desatentos as absorvem e línguas descansadas as repetem infindavelmente.

Vivemos tempos de perversão. Instrumentos musicais se pervertem. As palavras se pervertem na disposição do papel. Ouvidos e línguas se pervertem. Opiniões de pessoas dantes ditas como sérias idem.

Quem vai de encontro a esse processo melancólico não age de forma preconceituosa, e sim, sensata. Só existe preconceito quando conceituamos o que desconhecemos. Não é o caso. Só odiamos porque conhecemos demais. Vivemos num mundo que o que desgostamos é o que mais conhecemos. Sempre estamos vendo e ouvindo o que não queremos, sempre estão dissertando sobre o que odiamos e vemos com clareza os efeitos catastróficos disso tudo. Dessa forma, temos propriedade suficiente para opinar sobre tudo o que nos irrita. Não podemos negar isso a nós. Aos olhos alheios seremos sempre preconceituosos. Sejamos preconceituosos então! O que não podemos, em hipótese alguma, é ser coniventes com a obtusidade que impera em mentes cada dia mais maleáveis.

t.c.s.