quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Texto
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Fingindo um conto: Mais um pierrô

"Um corpo foi encontrado no meio de um matagal no bairro Tijuca 2. Levou um tiro no rosto, estava sem documentos, a vítima aguarda no necrotério para uma possível identificação. Aparenta ter entre 30 e 35 anos, está vestido de bermuda preta, camiseta do Corinthians e descalço."
s.o.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Santa Joana

Os livros pulam das páginas para a tela, e ficamos desorientados com tamanha falta de pudor. Quando vi o “Animal Agonizante” do Philip Roth transformado em “Fatal”, com generosos closes dos seios de Penélope Cruz; e com os precisos músculos do Ben Kingsley, me tornei o próprio ser que agoniza. Para Mallarmé “o mundo existe para chegar a um livro”; existia, hoje se não se transformar em um bom roteiro, ocorrerá com ele um abandono cruel. Não existem mais autores e sim roteiristas travestidos de escritores.
s.o.
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Ensaio sobre a cegueira

“Ensaio sobre a cegueira” do português José Saramago, brota dessas pequenas (in)certezas. Ateu de carteirinha, quiçá o último comunista a assim se autodenominar, foca seu radar no ser humano, percebe que ele está rodeado pelas facilidades da modernidade. Despe esse ser, tirando-lhe a visão e joga-o de volta à arena que é seu próprio mundo, numa crítica contundente a valores tão caros ao capitalismo. O Nobel de Literatura de 1998, quer mostrar o quão servil é o ser humano; que “o medo cega”; ele questiona a grande humanidade escrava de suas próprias maquinações.
Quanto vale a dignidade? O que estamos dispostos a fazer quando nos falta o mínimo? Saramago roça no homus modernus suas cascas dormentes; retira-lhes a liberdade; não derruba nenhum prédio, apenas insinuando as inutilidades das conquistas tão dispendiosas e prodigiosas da humanidade e por extensão do capital. Faz com que as pessoas percorram o caminho inverso que nos trouxe até aqui, desumaniza o ser pra provar que todos “estão cheios de medo e obedecem ordens”. E não conseguem perceber um palmo além das próprias narinas e maus sentimentos, pois vivem iludidos e presos a convicções alheias.
Chamado, ironicamente, de parábola, “Ensaio” é uma alegoria catastrófica – o que parece ser uma obsessão do autor. Para Saramago a humanidade só se dá conta da verdadeira realidade quando vive um momento extremo. Passa por uma série de experiências únicas, e assim o indivíduo pode se rever, se reabilitar, perceber o mundo que o cerca, sem máscaras ou “avaliações-de-fachada” como dizia Nietzsche. O novo ser humano, em Saramago, só pode ter o direito a viver novamente se busca o saber das origens, o retorno ao útero materno, uma descida na caverna da alma. Uma alma socialista, se isso é possível.
Provado a total inutilidade de sistemas, que somos todos “cegos de olhos e sentimentos”; que “os animais são como as pessoas, acabam por habituar-se a tudo”; que “dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”; resta enfim uma pergunta: a obra de José Saramago era ou é tão boa assim a ponto de merecer um Nobel? Abandonando o ufanismo da língua mátria, acho que não. Palmilho seus livros (sem muita convicção),venço conceitos arcaicos, ultrapasso pensamentos mofados caídos na lata do lixo da história, e não consigo entender tamanha honraria.
As trágicas fantasias elaboradas pelo português agradam, talvez, por serem “aliciadores de espírito”, causarem mal estar entre seus leitores – o que pode ser confundido com um momento realmente sublime – mas se nos aprofundamos em seus escritos, eventualmente, toparemos com idéias mórbidas e fossilizadas a respeito de tudo, de tudo o que não é socialista-marxista, divisível. Mas será que milhões de vidas desperdiçadas em ambos os lados da trincheira: a do capital, triunfalmente selvagem; e o do socialismo, notoriamente anti-democrático, já não bastaram? Ainda são realmente necessários livros como “Ensaio sobre a cegueira” pra sabermos que o mundo é vil, que o ser humano é pérfido e que estamos fadados, ou a um fracasso total ou um fim mentiroso? Creio que não, para mim cheira a falsa devoção ou só hipocrisia. Voltemos a Machado.
domingo, 28 de dezembro de 2008
Ensaio Sobre A Cegueira
Uma palavra vale mais que mil imagens. Não restam dúvidas. Contudo, leitores compulsivos quando começam a ser tornam cinéfilos passam a conviver com um eterno drama. Os olhos estão sujeitos a uma divisão cruel. E é impossível escolher. Como homem que realmente é capaz de amar na mesma intensidade a amante e a esposa.Olhos que se encantam com bibliotecas, livros, capas, páginas, capítulos, parágrafos, frases, palavras, letras querem igualmente se encantar com cinemas, filmes, cartazes, cenas, imagens, diálogos. Mas sabemos que é impossível um encaixe de côncavo e convexo entre cinema e literatura. Porém, Fernando Meireles quase o faz com êxito. Eu disse quase.
Somos levados ao cinema quase que por um patriotismo idiota. Uma espécie de solidariedade com o diretor brasileiro que já nos surpreendeu com Cidade De Deus. Chegamos quase a delirar com a possibilidade de um Oscar inexistente. Os mais insensatos chegam até mesmo a esquecer que se trata de uma adaptação. E que José Saramago não é nenhum Dan Brown ou tampouco uma J.K. Rowling, cujos livros já são quase que roteiros prontos. A escrita do autor português é por vezes permeada por uma complexidade quase que impenetrável. Transpor tudo isso para a tela não é tarefa muito fácil. Porém, Fernando Meireles quase o faz com êxito. Eu disse quase.
Já na primeira cena, uma decepção recôndita. “Os atores não falam português? Mas como?”. No entanto, logo a inconsciência verde-amarela nos diz: “Mas você não quer nada hein? Além de adaptarem para o cinema americano a obra de um autor de língua portuguesa, você ainda queria que mantivessem o idioma original?”. Tratamos de esconder nosso orgulho e seguimos atentos.
Na medida do possível, o filme vai tentando ser fiel ao livro. Todavia, não demora muito para mais uma decepção. Não vamos cortar o dedo junto com o primeiro cego. E quase não vamos nos chocar com esposa insensível e leiga da enfermidade do marido que o fez bagunçar a casa toda. E o que se dirá do orgasmo da “rapariga de óculos escuros” (que assim não é mais chamada), tão fugaz quanto o masculino? Os personagens de Cegueira (o livro) não possuem nome, possuem rótulos. O “médico”, “a mulher do médico”, “o rapazinho estrábico”, “o velho da venda preta”, “o ladrão de carro”, “ a recepcionista do hotel”, “o motorista de táxi”, “o policial” e assim por diante... Durante todo o filme, é isso que nos falta: a narração de Saramago, a escrita portuguesa com seus termos incomuns para nós e suas particularidades ortográficas de “cépticos”, “adoptar”, “reflecção”, “retrete” e etc... E onde está o maravilhoso “cão das lágrimas”? Ele até está lá, mas não há ninguém que lhe dê uma nomenclatura digna.
Saramago em sarcasmos aos detratores do filme, disse à Revista Bravo!: “[...] não obstante as incompreensões de certa critica que diz que o filme é demasiado violento. Pelo visto esses críticos não costumam ver televisão.” Não, Meu Caro Saramago, quem quiser violência não necessita recorrer à televisão, basta que leia o livro. O livro consegue ser muito mais chocante que o filme. Os cegos em desordem dentro do manicômio, as mulheres sendo assediadas. A terrível libido masculina. É indescritível a sensação diante do sanguinolento sexo oral. O cheiro nauseabundo que emana daquele chão como um esgoto improvisado, onde realmente já se tornou um reservatório de urina e fezes. O filme não é nem mesmo capaz de nos trazer a repulsa pelos excrementos que nem ao menos aparecem. Saramago sabe ser repulsivo na hora certa, e assim surge sempre nas horas que menos esperamos. E no filme, onde está o fogo fátuo dos inúmeros corpos, na segunda ida ao supermercado? Sabe ser sensível, quando já não temos força nenhuma. Somos acolhidos nos braços da única pessoa que ainda enxerga, “a mulher do médico”. Que já passa a ser a nossa mulher, tamanho amor e solicitude com que ela nos trata. Somos seduzidos por sua beleza revestida numa penúria de vaidade. Ela e todas as demais mulheres.
Difícil é chegar a um denominador comum quando passamos a pensar quais eram os intuitos de Saramago com esse livro. Mas o mais louvável de se responder é que cegos somos todos nós. Todos nós padecemos do “mau branco”. Ao ver aqueles personagens sendo apresentados apenas por rótulos, nos identificamos imediatamente. É essa a multidão em que vivemos todos os dias. Os cegos se digladiando em busca de leito ou comida como se assemelham com nós quando queremos adentrar ao ônibus. Os humanos são todos cegos. E vivem e morrem sem descobri-lo.
Tem coisas que só Saramago faz por você:
“Ao mover-se em direção à sala de estar, e apesar da prudente lentidão com que avançava, deslizando a mão hesitante ao longo da parede, fez cair ao chão uma jarra de flores de que não estava à espera. [...] Quis recolher as flores, mas não pensou nos vidros partidos, uma lasca longa, finíssima, espetou-se lhe num dedo, e ele tornou a lacrimejar de dor, de abandono, como uma criança, cego de brancura, no meio duma casa que, com o declinar da tarde já começava a escurecer”
“Saíram dois hóspedes, um casal idoso, ela passou para dentro, premiu o botão do terceiro andar, trezentos e doze era o número que a esperava, é aqui, bateu diretamente à porta, dez minutos depois estava nua, aos quinze gemia, aos dezoito sussurrava palavras de amor, que já não tinha necessidade de fingir, aos vinte começava a perder a cabeça, aos vinte e um sentiu que o corpo se lhe despedaçava de prazer, aos vinte e dois gritou, Agora, agora, e quando recuperou a consciência disse, exausta e feliz, Ainda vejo tudo branco”.
“Não é só o estado em que rapidamente chegaram as sentinas, antros fétidos, como deverão ser, no inferno, os desaguadoiros das almas condenadas, é também a falta de respeito de uns ou súbita urgência de outros que, em pouquíssimo tempo, tornaram os corredores e outros lugares de passagem em retretes que começaram a ser de ocasião e se tornaram de costume”.
“As mulheres, todas elas, já estavam a gritar, ouviam-se golpes, bofetadas, ordens. Calem-se, suas putas, estas gajas são todas iguais, sempre têm de pôr-se aos berros, Dá-lhe com força que se calará, Deixem-nas chegar a minha vez e já vão ver como pedem mais”
“Chupa, e deixa-te de conversa fina, Não, Ou chupa, ou na tua camarata nunca mais entrará uma migalha de pão, vai lá dizer-lhe se não comerem é porque te recusaste a chupar-me, e depois volta para me contar o que sucedeu”.
“Não chegarás a gozar, pensou a mulher do médico, e fez descer violentamente o braço. A tesoura enterrou-se lhe com toda a força na garganta do cego, girando sobre si mesma lutou contra as cartilagens e os tecidos membranosos, depois furiosamente continuou até ser detida pelas vértebras cervicais. O grito mal se ouviu, podia ser o ronco de outro animal de quem estivesse a ejacular, como a outros já estava sucedendo, e talvez o fosse, na verdade, ao mesmo tempo que um jato de sangue lhe jorrara na cara, a cega recebia na boca a descarga convulsiva do sêmen”.
“Não, só vi que havia fogos-fátuos agarrados às frinchas, estavam ali agarrados e dançavam, não se soltavam”
“Alguém tinha deitado a mão ao último farrapo que mal a tapava da cintura pra cima, agora ia de peitos descobertos, por eles, lustralmente, palavra fina, lhe escorria a água do céu”
“Não podem imaginar que estão ali três mulheres nuas, nuas como vieram ao mundo, parecem loucas, devem de estar loucas, pessoas em seu perfeito juízo não se vão pôr a lavar numa varanda exposta aos reparos da vizinhança, menos ainda naquela figura”
“Os cães rodearam-na, farejaram os sacos, mas sem convicção, como se já lhe tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar prantos”.
“O cão das lágrimas anda a farejar inquieto, demorou-se a pesquisar um certo monte de lixo, provavelmente havia escondido debaixo dele uma supina iguaria que agora não consegue encontrar, se estivesse sozinho não arredaria pé, mas a mulher que chorou já vai lá adiante, é seu dever ir atrás dela, nunca se sabe se terá que enxugar outras lágrimas”.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Tempos Modernos – um capítulo abandonado

A guerra “higiene do mundo”, leva a humanidade a rever seus conceitos; “milhões de homens ficavam uns diante dos outros nos parapeitos de trincheiras barricadas com saco de areia, sob as quais viviam como – e com – ratos e piolhos”. A modernidade se apresenta para o mundo na forma de armas, bombas, produtos bacteriológicos e milhões de mortos, “o passado estava fora de alcance, o futuro fora adiado, o presente era amargo”. A humanidade descobre, da pior maneira possível, que “não só a sociedade moderna é um cárcere, como as pessoas que aí vivem foram moldadas por suas barras, somos seres sem espíritos, sem coração, sem identidade sexual ou pessoal – quase podíamos dizer: sem ser”.
No interstício entre uma e outra guerra, além de juntar os cacos possíveis, as idéias de Sigmund Freud começam a ser lidas com interesse, “Freud era uma figura famosa e polêmica em círculos especializados médicos e psiquiátricos. Mas foi somente no final da guerra que suas idéias começaram a circular como moeda corrente”. Ele era uma alternativa mais humana aos tratamentos que, eram utilizados antes do conflito, e que continuavam sendo, só que agora nos heróicos soldados sobreviventes da guerra, de onde uma grande maioria, voltou profundamente traumatizada. Muitos, aos choques elétricos que eram submetidos, preferiam o suicídio. Com os valores tão em baixa, sentindo-se oprimidos pelo mundo novo que tanto haviam desejado, mas que não estavam ainda acostumados e que se apresentava em mutação constante, as idéias de Freud vieram somar e embaralhar ainda mais essa fragilidade do homem que tateava na busca pelo seu lugar. Freud era competente também para fabricar slogans fantásticos, inventava palavras e expressões que se tornariam quase como que uma síntese desses tempos, sendo assim um protagonista explosivo e necessário nessa ainda incipiente idéia de modernidade que surgia.
Como ele, outro que abalou essas mesmas frágeis estruturas, foi Albert Einstein, “a descoberta de que o espaço e o tempo são relativos, em vez de serem termos absolutos de medida, é comparável, no seu efeito da nossa percepção do mundo, ao primeiro uso da perspectiva na arte, ocorrida na Grécia nas décadas de 500-480 a.C”. Com tantos paradigmas sendo quebrados podemos compreender, agora, a razão pela qual “a moderna humanidade se vê em meio a uma enorme ausência e vazio de valores, mas, ao mesmo tempo, em meio a uma desconcertante abundância de possibilidades”. Todas essas alterações são sentidas, mas a absorção é lenta, não se derruba facilmente pensamentos arraigados.
Em meio à toda essa convulsão vivida, agravada pelo nível a que chegou a industrialização, a guerra pelos mercados que já havia criado a aberração das colonizações financeiras, onde os grandes impérios (poucos países) comandavam com mão de ferro, as idéias de Karl Marx enfim são colocadas à prova, é a Revolução Socialista russa; num mundo acostumado ao fazer capitalista, às desigualdades sociais, um mundo dominado pelo poder e pelas diferenças, na qual as idéias marxistas sempre pintavam um mundo mais ameno e sobreviviam quase que como uma utopia, esse embrião “oferecia a prova de que a grande mudança começara”. Era como se um novo mundo tivesse surgido do nada, “como os primeiros cristãos, a maioria dos socialistas pré-1914 era de crentes na grande mudança apocalíptica que iria abolir tudo que era mal e trazer uma sociedade sem infelicidade, opressão, desigualdade e injustiça”. “Marx, Freud, Einstein, todos transmitiram a mesma mensagem para a década de 20: o mundo não era o que parecia ser”.
Paralelo às mudanças em diversas áreas, o mundo seguia de convulsão em convulsão como um cambaleante doente terminal. Para agravar a humanidade ainda vai passar pela Grande Depressão de 1929, onde “a imagem predominante na época era a das filas de sopa, de 'Marchas da Fome' saindo das comunidades industriais sem fumaças nas chaminés onde nenhum aço ou navio era feito e convergido para as capitais das cidades, para denunciar aqueles que julgavam responsáveis”. Com as feridas mal curadas da 1ª Guerra, o desemprego, a fome, uma humanidade incrédula, imóvel como peças de um grande jogo, logo acontece a 2ª Grande Guerra, que serviu para que o ser humano percebesse que “o mal não está somente em suas criações, mas dentro de si mesmo”.
Se com a 1ª Guerra Mundial o descrédito no ser humano já beirou o paroxismo, a nova empreitada assombrará seus pensamentos e atos futuros por gerações afora; “as maiores crueldades de nosso século foram as crueldades impessoais decididas a distância, de sistema e rotina, sobretudo quando podiam ser justificadas como lamentáveis necessidades operacionais”. A “guerra total” produziu improváveis conjunturas, uma devastação impensável, trilhou o caminho do Holocausto dos judeus (não só judeus, mas principalmente) e aterrissou na criação e utilização da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki. Suas perdas são literalmente incalculáveis, e mesmo estimativas aproximadas se mostram impossíveis, pois “a guerra (ao contrário da Primeira Guerra Mundial) matou tão prontamente civis quanto pessoas de uniforme, e grande parte da pior matança se deu em regiões, ou momentos, em que não havia ninguém a postos para contar, ou se importar”.
O pós-guerra trouxe com ele um período novo, onde “a modernidade une a espécie humana, porém, é uma unidade paradoxal, une desunindo, nos jogando no turbilhão de permanente desintegração e mudança, luta e contradição, ambigüidade e angústia”, e foram nesses turbilhões que brotaram as vanguardas modernistas, que tentavam responder entre histérica e inteligentemente, ágil e provocadoramente aos questionamentos que surgiam numa época onde predominou a escuridão, tal qual o manto negro que cobriu a Idade Média, de onde a humanidade saiu para a revolução do Renascimento. “Acalmados os sobreviventes da guerra, pensadas as feridas, reparadas as ruínas, sem choques, sem riscos de qualquer espécie, o regime pode acreditar que se abre à sua frente uma nova era de prosperidade”, e de onde a sanidade só foi mantida graças a manutenção da fé do ser humano na arte, pois foi através dela que o homem saiu, no fim do túnel, ainda com esperança que tempos melhores poderiam surgir.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
Diga sim ao preconceito!
Roberto DaMatta diz que “o brasileiro tem preconceito de ter preconceito”. Isso é incontestável. Dificilmente, você vai encontrar alguém que diga com palavras claras que odeia e quer matar todos os negros e homossexuais. O preconceito está implícito. Ele aparecerá quando você cruzar com um negro mal vestido, em alguma rua deserta, ou quando um homossexual simpático vier puxar assunto com você, em algum ponto de ônibus.
Preconceitos assim são abomináveis e dignos de repúdio.
Mas nessa luta contra o preconceito, somos levados a identificar como preconceito aquilo que não é preconceito, e sim, apenas bom senso. Bom gosto. Cria-se a ilusão de que todos têm direito de se expressar. Não faltam caetanos para propagar essa falácia. Em nome de uma patética fraternidade intelectual, somos influenciados a aceitar de tudo, para que não sejamos tidos com preconceituosos. Temos a obrigação de ser tolos. Devemos aceitar como literatura o que não é literatura. Devemos aceitar como música o que não é música. Devemos aceitar como arte o que não é arte. Isso quando não somos importunados por um estúpido provincianismo. Gente que diz estar em busca de manter culturas regionais, e deturpa origens criando frankensteins artísticos. Diariamente, rádios repetem hipnoticamente deprimentes seqüências. Ouvidos desatentos as absorvem e línguas descansadas as repetem infindavelmente.
Vivemos tempos de perversão. Instrumentos musicais se pervertem. As palavras se pervertem na disposição do papel. Ouvidos e línguas se pervertem. Opiniões de pessoas dantes ditas como sérias idem.
Quem vai de encontro a esse processo melancólico não age de forma preconceituosa, e sim, sensata. Só existe preconceito quando conceituamos o que desconhecemos. Não é o caso. Só odiamos porque conhecemos demais. Vivemos num mundo que o que desgostamos é o que mais conhecemos. Sempre estamos vendo e ouvindo o que não queremos, sempre estão dissertando sobre o que odiamos e vemos com clareza os efeitos catastróficos disso tudo. Dessa forma, temos propriedade suficiente para opinar sobre tudo o que nos irrita. Não podemos negar isso a nós. Aos olhos alheios seremos sempre preconceituosos. Sejamos preconceituosos então! O que não podemos, em hipótese alguma, é ser coniventes com a obtusidade que impera em mentes cada dia mais maleáveis.